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Entrevistas
O que pessoas comuns têm a dizer sobre
política? - Uma abordagem antropológica
Marcio Goldman
“Para o neoliberalismo, a democracia
começa no mercado”
Edson Passetti
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O
que pessoas comuns têm a dizer sobre política? - Uma
abordagem antropológica
Será
possível para a antropologia contemporânea assumir um
olhar distanciado em relação a algo tão central
para o observador quanto a política ou a democracia
representativa? Ao se colocar essa questão, o antropólogo
Marcio Goldman, pesquisador do Núcleo de Antropologia da
Política e professor do Programa de
Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu
Nacional do Rio de Janeiro, se debruçou sobre dados a respeito
do envolvimento político do movimento negro de Ilhéus
(BA), que ele levantou em trabalho de campo ao longo de um
período de 20 anos. Um de seus objetivos era elaborar pelo menos
o esboço de uma "teoria etnográfica da democracia". Em
entrevista à revista ComCiência,
Goldman - que organizou com Moacir Palmeira a coletânea Antropologia,
voto e representação política (Contra Capa
Livraria, 1996) - fala sobre sua pesquisa e sobre o olhar da
antropologia acerca da política.
ComCiência
- A prática de showmícios é comum em campanhas
eleitorais no Brasil, e quanto maior a capacidade financeira dos
candidatos/partidos para pagar cachês e mais famosos forem os
artistas contratados, maior o número de eleitores esperados para
o evento. Como o senhor analisa essa prática em
relação aos blocos afros de Ilhéus que
participaram de campanhas municipais?
Marcio Goldman - Não pretendo analisar
"práticas" desvinculadas de contextos e, sobretudo, dos pontos
de vista que as articulam. De toda forma, é bem sabido que
ninguém - ou muito pouca gente - imagina que um comício,
ou mesmo um showmício, seja automaticamente responsável
pela obtenção de votos. Ao contrário, uma
máxima muito repetida em todo o Brasil é que só
vai em comício quem já vai votar naquele candidato. O
showmício, evidentemente, acrescenta a isso uma espécie
de isca, as atrações, como são chamadas ao menos
em Ilhéus. Isso não significa, contudo, creio, que
alguém vote em alguém simplesmente porque seu cantor
preferido se apresentou no palanque daquele candidato.
Showmícios e comícios são, sobretudo,
demonstrações de força e estas, de fato, podem ser
capazes de capturar votos e apoios. Daí o caráter meio
vazio das críticas ao excesso de recursos dispendidos nessas
atividades: elas existem exatamente para que esses recursos sejam nelas
despejados, ensejando uma exibição de poderio muito
importante em campanhas eleitorais em um sistema como o nosso.
ComCiência
- É possível dizer o mesmo em relação a
artistas famosos que gravam jingles, como Zezé de Camargo e
Luciano, na campanha de Lula, e Chitãozinho e Xororó, na
campanha de Serra, na disputa pela presidência em 2002?
Goldman - Não posso dizer quase nada sobre
esses artistas famosos já que seria preciso realizar uma
investigação etnográfica para tentar apreender seu
ponto de vista acerca dessas questões. Em Ilhéus, o que
observei é que trata-se de um fenômeno complexo, no
sentido próprio deste termo. Ou seja, os militantes dos blocos
afro se vêem presos em um sem número de
motivações e pressões. Podem acreditar
sinceramente que este ou aquele candidato é o melhor para eles
enquanto negros, ou para suas famílias enquanto moradores de
determinado bairro, ou para seus amigos enquanto pessoas pobres. Mas
também vislumbram a possibilidade de um emprego após as
eleições ou de simplesmente ganharem um cachê por
suas apresentações. Podem igualmente imaginar que ao
tocar nos comícios de algum político poderão ser
descobertos e, finalmente, fazer sucesso. Tudo isso é muito
fácil de desprezar ou ridicularizar quando não ocupamos -
ou ao menos não somos capazes de imaginar o que significa ocupar
- a posição socioeconômica que a imensa maioria dos
brasileiros ocupa.
ComCiência
- Seus estudos sobre o movimento negro de Ilhéus mostram que ali
existe uma aparente oposição entre "política" e
"cultura". Em artigo publicado na Revista de Antropologia da
USP (2003), no entanto, o senhor afirma que atividades culturais como a
música afro "permitem a pessoas discriminadas produzir sua
própria dignidade e vontade de viver". Isso não seria
também uma atitude política? Como o senhor analisa aquela
aparente oposição, especificamente, e a
relação entre cultura e política, de uma forma
geral?
Goldman - De fato, os militantes do movimento
afro-cultural de Ilhéus opõem política e cultura e
consideram que a segunda é mais importante que a primeira. Por
outro lado, os militantes negros mais "politizados" fazem a mesma
oposição, mas sustentam que a política é
fundamental e que a cultura deve ser apenas um meio ou um dos fins da
atividade política. Posições que, claro,
não são exclusivas de Ilhéus e marcam toda a
história do movimento negro no Brasil (e de outros movimentos,
suponho). Um antropólogo, contudo, tem como um de seus deveres
de ofício, ouvir e levar suficientemente a sério o
conjunto de posições com que se defronta em seu trabalho
de campo. Nesse sentido, ele só pode tentar articular as
noções nativas em sua diversidade mesmo, não
substituí-las por noções ou sentidos supostamente
mais verdadeiros ou objetivos do que os outros.
ComCiência
- Nas suas análises, o senhor revela que os militantes negros
manifestaram que a música, a religião ou o trabalho
são mais centrais para eles do que a política, e que a
opinião da maior parte dos membros do movimento afro-cultural de
Ilhéus em relação aos políticos é
inteiramente negativa. Em casos como esse, é possível
separar posicionamentos coletivos de escolhas individuais no momento do
voto? Quais perspectivas essa análise local, em Ilhéus,
abre para a compreensão da política no país como
um todo?
Goldman - Concordo que "em casos como esse" seja
muito difícil separar o coletivo e o individual. Mas eu iria
mais longe: é sempre difícil ou impossível fazer
essa separação na medida em que aquilo a que se chama
usualmente "escolha individual" parece, antes, derivar (no sentido
matemático do termo) de um conjunto de agenciamentos coletivos
que, por sua vez, só fazem sentido e possuem realidade na medida
em que se encarnam em indivíduos, grupos etc. Finalmente,
não sei bem que "perspectivas essa análise local abre
para a compreensão da política no país como um
todo". Na verdade, também não acredito muito na
oposição entre local e total ou global. O que imagino ter
feito em Ilhéus - mas é claro que posso estar
inteiramente equivocado - é uma análise dos
micro-mecanismos de poder que atuam tanto naquilo que se considera
"pequena política" (local) quanto na "grande política" (o
país como um todo). O máximo que eu arriscaria dizer
é que os chamados regimes democráticos sempre operaram
com uma lógica segundo a qual a indignação e a
resistência devem ser incorporadas ao sistema. E que a
indiferença ou aversão das pessoas em
relação à política reflete antes a
insuficiência das instituições para dar conta do
que se passa no mundo real do que algo como alienação ou
falta de educação.
ComCiência
- Em seus estudos, o senhor diz que as promessas de campanha devem ser
vistas pela antropologia a partir do contexto em que ela é
feita. Como diferenciar promessas em áreas essenciais
(educação, saúde e segurança
pública) - geralmente semelhantes entre os diversos candidatos -
de promessas específicas, como a construção de um
Centro Afro-Cultural?
Goldman - Creio justamente que não se pode
diferenciá-las porque na promessa o ato de prometer é
muito mais importante do que o conteúdo prometido. O jogo
político não se opõe às
relações pessoais: basta observar a política em
qualquer lugar do mundo para se dar conta de que essas coisas
estão inteiramente imbricadas, e que sua separação
é apenas um modelo ideal (no duplo sentido da palavra), que
cumpre funções ideológicas importantes. A
democracia burguesa opera sempre por meio de um jogo contínuo de
participação e exclusão. As pessoas são
chamadas a participar, mas não se permite que esta
participação ultrapasse um certo limiar. Hoje,
aparentemente, as camadas dominantes perceberam que vale mais a pena
manter a dominação com o jogo democrático do que
sem ele. Por outro lado, se se entender por democracia um espaço
de participação efetiva, acho que não apenas ela
não está consolidada como está em
regressão. A restrição da democracia ao jogo
eleitoral e partidário, e o poder cada vez maior da tecnocracia
são a prova disso, e é preciso muito esforço para
entender por que alguém ainda leva a sério a
política tal qual a entendemos. Creio que isso tem algo a ver
com a importância das promessas eleitorais.
ComCiência
- Em linhas gerais, como o senhor descreveria a abordagem
política da antropologia e as principais diferenças em
relação à ciência política?
Goldman - Como se sabe, a ciência
política mantém uma relação de
interdependência para com nossos próprios sistemas
políticos, em especial a democracia representativa com suas
votações, eleições e
representações. Como a economia (enquanto "ciência"
do econômico), ela não parece ser capaz de - ou não
está interessada em - resolver o dilema entre se constituir como
conhecimento teórico e crítico ou funcionar como
técnica de intervenção e engenharia social. Nesse
sentido, as questões dos cientistas políticos são
em geral as mesmas das dos homens de poder, a começar pela
definição do que seria a própria política,
entendida, via de regra, como um conjunto de instituições
e regras mais ou menos formalizadas e passíveis de
avaliação, crítica e reforma. Os pontos de vista
daqueles que não exercem o poder, por sua vez, interessam pouco,
ou só interessam na medida em que são comparados com os
dominantes: quando concordam com estes, a política vai bem;
quando discordam, é preciso fazer alguma coisa. Os
antropólogos, ao contrário, são formados em uma
disciplina que se constituiu historicamente a partir da
observação de sociedades e culturas cujos pontos de vista
parecem absurdos à primeira vista, quer dizer, parecem absurdos
quando julgados ou mesmo simplesmente encarados de nossos
próprios pontos de vista. Cabe a eles, então - por dever,
digamos, profissional - tentar encontrar um sentido para essas outras
perspectivas. Essa situação se complica quando os
antropólogos decidem estudar sua própria sociedade. Para
ser mais preciso, eu diria que eles nunca estudam "sua própria
sociedade", uma vez que, desde Marx, sabemos que a idéia de
sociedade é uma abstração que esconde a enorme
diversidade de posições, poderes e pontos de vista que
efetivamente constitui qualquer formação social. Ora,
acostumados a lidar com culturas diferentes da sua, os
antropólogos tendem a concentrar suas pesquisas em grupos
minoritários de sua própria sociedade. E é
aí que começa o problema, pois parece mais difícil
levar efetivamente a sério as questões e opiniões
desses grupos do que quando trabalhamos com sociedades mais distantes.
Em outros termos, a opinião de um aborígene australiano,
de um pastor africano ou de nômade ameríndio sobre o poder
ou a política não parece nos perturbar tanto quanto
aquelas professadas no interior de nossa própria sociedade - ao
menos quando estas confrontam as posições dominantes. Uma
antropologia da política deve, portanto, em primeiro lugar
livrar-se das questões extrínsecas [ou exteriores] aos
grupos que estuda. Trata-se de levar efetivamente a sério o que
pessoas comuns têm a dizer sobre política, sem pressupor
de antemão modelos ideais aos quais o antropólogo ou as
pessoas em geral devessem se referir. Assim, não se deve
imaginar que todos, salvo os cientistas, estão mergulhados em
ideologias, manipulações e carências, mas explorar
a positividade de outras formas de se conceber, avaliar e praticar a
"política". Em termos um pouco mais técnicos, eu diria
que trata-se de investigar a política "do ponto de vista
nativo", explorando os resultados do choque entre os preconceitos e
teorias do pesquisador com aqueles e aquelas do grupo que estuda.
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