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Aumento da criminalidade está ligado ao tráfico de drogas
Alba Zaluar

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Jacqueline Muniz

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Aumento da criminalidade está ligado ao tráfico de drogas

A antropóloga Alba Zaluar é uma das mais experientes pesquisadoras brasileiras do tema da violência urbana. Ligada atualmente à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Zaluar tem pesquisado, nos últimos anos, o cotidiano dos morros cariocas. Ela afirma que, nas grandes cidades que já foram pesquisadas, por ela e por outros, o crescimento da violência e as disputas entre as quadrilhas do crime organizado estão diretamente relacionados.

Zaluar defende as ações localizadas e uma transformação da polícia, que rompa com a herança repressiva do regime militar: "com políticas gerais, nós não vamos resolver os problemas, temos que pensar em coisas mais localizadas, a fim de sermos mais eficazes. E temos que ter uma polícia democrática, com o policial consciente do seu papel, com uma relação diferente com a população." Nessa entrevista, ela questiona a tese de que a pobreza, a injustiça e a desigualdade social geram automaticamente a violência, complexificando a questão. "Nós temos uma concentração sim maior de certos tipos de crimes na população mais pobre, mas isso também se deve a uma conjunção de fatores. Mas nos bairros onde o tráfico de drogas é mais atuante e mais poderoso, onde a polícia quase não aparece e onde também se tem menos políticas sociais, é que você tem as taxas mais elevadas".

Com Ciência - Apesar de estarem crescendo, ainda não são muitos os estudos das Ciências Humanas sobre o assunto violência, principalmente se pensarmos na importância do problema. A que a senhora atribui isso?
Alba Zaluar
- Eu acho que essa afirmação era muito mais válida há alguns anos atrás. O número de pessoas que estudam o assunto aumentou muito, o número de pesquisas realizadas também. Mas ainda temos muita coisa a fazer. Por exemplo, existem pouquíssimas pesquisas sobre vitimização, que são feitas anualmente nos países de primeiro mundo como França, Inglaterra e Estados Unidos. Essas pesquisas são muito importantes porque elas nos permitem ter uma idéia a respeito daquilo que a gente chama a "cifra negra", os crimes cometidos que não são registrados, as vítimas que não registram nenhuma queixa. Isso vai desde o assalto até a violência doméstica. Nessas pesquisas também se pergunta as razões pelas quais as queixas não foram feitas na polícia, porque não se procurou a justiça, enfim, tem-se também um panorama de cidadania, do não uso das instituições que deveriam estar servindo essa população. Também temos uma idéia, a partir dessas pesquisas, quais são os problemas que essas instituições apresentam para a população. No que se refere, por exemplo, às pesquisas feitas a partir dos dados do Ministério da Saúde, que hoje são nacionais, eu posso e acho que estou sendo porta-voz dos meus colegas, elas deram um imenso avanço, porque permitem a comparação entre cidades, entre capitais, entre regiões metropolitanas, entre estados e isso tem ajudado muito a compreensão dos vários elementos que compõem esse caldeirão. Não há uma causa, nem duas, nem três, são muitas, que atuam, que desenvolvem uma química entre nós a fim de que a gente tenha esse fenômeno do aumento brutal da violência no país.

Com Ciência - A maioria dos dados vem, então, do ministério da Saúde?
Zaluar
- Os nacionais. Ainda não temos dados nacionais baseados nos registros policiais, isso porque os registros policiais diferem muito de local para local, de cidade para cidade, de estado para estado. Não há uma uniformidade. Há uniformidade para os atestados de óbito, por exemplo, que é o que permite sabermos a respeito das mortes violentas. No caso do registro policial nem tudo é registrado pelas vítimas, nem tudo que é apresentado como queixa é registrado pela polícia e aí temos que ver esse registro com uma certa cautela. Mas, de todo modo, acho que avançou-se muito, hoje nós temos muito mais conhecimento do que tínhamos há dez ou quinze anos atrás, a discussão está cada vez mais interessante para quem participa dela. Algumas coisas são meio repetitivas, como sempre. O tema da pobreza como explicação da violência continua em pauta e sou sempre obrigada a discutir, estou um pouco cansada mas, mesmo assim, o aparecimento dos novos argumentos é sempre uma coisa interessante que estimula o pensar.

Com Ciência -Em geral, as respostas que são dadas para se combater a violência oscilam entre aumentar o poder da polícia ou, então, promover uma maior justiça social. O que é preciso então para ir além dessas propostas padrão?
Zaluar
- Eu não acho que o caminho seja aumentar o poder da polícia. O poder da polícia já uma coisa extremamente complicada. É uma pessoa armada, um ser humano que também é capaz de falhas por estar com uma arma na mão e é preciso, no meu entender, que esta pessoa, o policial, esteja muito bem preparado para essa função, que ela não aja como os bandidos. Isso continua sendo um grande desafio para a democracia no Brasil, nós não conseguimos ter uma polícia democrática ainda. Mas estamos em processo. Alguns estados já avançaram mais que outros mas, acho que hoje temos uma idéia muito mais clara a respeito de que polícia nós precisamos, para que esse controle democrático da criminalidade se faça. Quanto à outra questão, evidentemente que você já está partindo do pressuposto de que a injustiça, desigualdade e a pobreza que provocam a criminalidade. Não é. Nós temos inúmeros exemplos disso. A criminalidade está no Congresso Nacional, está no Judiciário, no juiz, está no mercado financeiro, está nas grandes empresas também, que possuem caixa dois, que mandam dinheiro para o exterior etc. Tudo isso são os chamados crimes econômicos e, por causa desses crimes acabam sendo cometidos crimes contra a pessoa, mesmo que seja através de um outro, o empresário, o juiz, o deputado, o senador, que seja apenas o mandante, mas de qualquer maneira há uma responsabilidade a respeito do crime cometido. Então, nós temos uma concentração sim maior de certos tipos de crimes na população mais pobre, mas isso também se deve a uma conjunção de fatores. Nós já fizemos análise, o professor Cláudio Beato fez essa análise em Minas Gerais mostrando que justamente nos bairros onde o tráfico de drogas é mais atuante e mais poderoso, onde a polícia quase não aparece e onde também se tem menos políticas sociais, é que você tem as taxas mais elevadas. Eu acho que é por aí que a devemos caminhar porque, com políticas gerais, nós não vamos resolver os problemas, temos que pensar sempre em coisas muito mais localizadas a fim de sermos mais eficazes e temos que ter uma polícia democrática, com o policial consciente do seu papel, com uma relação diferente com a população. E a população também tem que mudar sua atitude em relação ao policial, é um processo. Além disso, é obvio, todos nós estamos de acordo que esse país é um país desigual e que as políticas sociais têm que ser desenvolvidas, mas isso não vai resolver o problema da criminalidade.

Com Ciência - A que a senhora atribui essa distância entre a polícia e a comunidade?
Zaluar
- Isso vem de uma longa história, nós vivemos uma ditadura militar que instituiu uma polícia militarizada, que foi formada, preparada para lutar contra um inimigo interno. Até hoje eles pensam dessa maneira, na destituição de um inimigo interno, eles não pensam na defesa do cidadão. É isso que todos nós, enfim, estamos envolvidos nesta luta, queremos que mude. Basicamente é isso.

Com Ciência - É possível também medir o impacto que as drogas têm para o aumento da criminalidade tanto se pensarmos no tráfico como se pensarmos nas pessoas que cometem crimes sob o efeito das drogas?
Zaluar
- Sob o efeito de drogas não. As pesquisas que eu conheço, não aqui no Brasil, mas no exterior, mostram que se há alguma droga sob a qual, cujo efeito se está no momento do crime cometido, não são nenhuma das drogas ilegais. É muito mais o álcool. Maconha então nem se fala, é ridículo, não se tem notícia disso. O álcool é o principal responsável pelos acidentes, pelos homicídios chamados culposos, quando há uma vítima fatal em acidentes. Muito da violência doméstica, dos chamados crimes passionais também são cometidos sob o efeito de álcool e não vou descartar o fato de que um percentual muito menor, entre 10% e 20%, é cometido sob o efeito da cocaína, mas é um percentual muito menor. O problema é que o usuário tem várias fases. Só após o usuário estar na chamada fase da fissura, e aí tem que ser droga pesada e não há essa distinção no Brasil. Drogas que criam dependência química muito forte, a necessidade de repetir continuadamente a dose, só nessa situação que o usuário passa a cometer crimes. Ele vai progredindo na gravidade do crime cometido. Começa furtando sua própria família, depois o vizinho, depois está assaltando à mão armada.

Com Ciência - Mas o tráfico tem um peso muito maior.
Zaluar
- Certamente. Todas as pesquisas que eu fiz, as pesquisas de campo e as pesquisas feitas com controle estatístico, mostram que nos locais em que o crime organizado está em disputa é que se tem uma criminalidade maior, uma criminalidade mais violenta. Aqui no Rio de Janeiro, não há menor dúvida a esse respeito. Cerca de 60% do município do Rio de Janeiro tem alguma conexão com a droga. No Rio-São Paulo é em torno de 40%, mesmo assim são taxas altíssimas se forem comparadas com o resto do mundo, que aliás tem taxas de homicídio muito mais baixas que Rio e São Paulo. Campinas também está uma taxa ainda mais alta que São Paulo, 57/100 mil habitantes. Eu acho que há tem cidades muito bem estudadas, em geral são as regiões metropolitanas das capitais. Mas as outras, do interior estão recebendo menos atenção, isso eu acho que é preciso mudar. A criminalidade no interior está aumentando muito, o que certamente tem a ver com as redes de tráfico que estão passando por elas.

Com Ciência - Você falou em soluções locais para o problema. Até que ponto as pesquisas que são realizadas em determinadas localidades podem fornecer dados que podem falar sobre a violência no Brasil de uma maneira mais geral? Há como se falar da violência no Brasil de uma maneira mais geral?
Zaluar
- Sim, há. Por exemplo, nesses dados sobre as mortes violentas a comparação é possível mas, evidentemente, toda comparação exige certos cuidados. É preciso comparar vendo as diferenças regionais que também existem. Eu não posso afirmar, por exemplo, que a criminalidade aumentou no Brasil todo por causa do tráfico de drogas, mas que certamente no Rio de Janeiro, em Pernambuco, Espírito Santo, no interior de São Paulo e na própria capital tem a ver com o tráfico de drogas. Foi justamente quando começam as redes de tráfico da cocaína a se estenderem pelo país é que, especialmente nessas regiões, tem-se um aumento espetacular de vários crimes, principalmente do homicídio. No Rio de Janeiro, na década de 80, a taxa de homicídio triplicou. Na década de 90, em São Paulo, ela duplicou. Isso é um indicador muito forte de que esses dois fenômenos estão associados.

Com Ciência -Há um trabalho seu em que fala-se dos rompimentos dos laços sociais e das redes de solidariedade. Em termos de políticas públicas é possível fazer algo para restabelecer essas redes de solidariedade?
Zaluar
- Sim, eu acho que o estado pode ser o mobilizador. Por exemplo, na distribuição de uma série de serviços, fazer com que a população se organize para recebê-lo. Estimular a solidariedade significa também propor uma certa política cultural que reúna pessoas de gerações diferentes. Eu ando muito preocupada com o fato de que hoje os bailes são de pessoas de apenas uma certa faixa de idade e esse é quase o único lazer dos adolescentes, por exemplo, os bailes funk aqui do Rio de Janeiro. Isso certamente contribui para o fato de que esses adolescentes se fecham nos seus grupos e desenvolvem uma identidade de grupo de bailes muito forte que propicia certas atitudes de desafio, de revolta, de exibição de poder etc. E isso não acontece só na classe popular não, na classe média aqui do Rio de Janeiro também está cheio desses grupos.

Com Ciência - Nesse mesmo trabalho você fala de um "etos guerreiro" para a violência. Você pode explicar um pouco melhor esse conceito?
Zaluar
- Esse é um conceito do Nobert Elias que é um sociólogo, um judeu alemão, que deixa a Alemanha nazista e passa a maior parte de sua vida adulta como profissional na Inglaterra. Lá ele faz este estudo, em que tenta entender o desenvolvimento diferenciado do processo civilizatório da Alemanha, França e Inglaterra. Ele cunhou esse termo para explicar porque, em algumas dessas culturas, especialmente na Alemanha, existia o orgulho de destruir o adversário. Na Alemanha há uma continuidade do duelo, proibido no século XIX na França e na Inglaterra. Na Alemanha continua sendo uma instituição até a Segunda Guerra Mundial envolvendo não só militares mas pessoas comuns, desafiadas para o duelo por causa de mulheres, da honra maculada. Elias compara esse etos guerreiro, esse prazer de destruir o adversário em resposta ao desafio posto à sua masculinidade, com o orgulho pelo controle das emoções e pelo desenvolvimento do espírito esportivo, a aceitação de certas regras para que se jogue um jogo em que todos tenham a possibilidade de permanecer vivos, mesmo que uns vençam e outros percam [o etos civilizado]. Nesse tipo de jogo, saber perder é importantíssimo. Ele analisa não só o esporte, mas também o jogo parlamentar, que não visa obviamente a destruição do partido adversário. Nas próximas eleições o partido adversário pode vir a vencer.

Com Ciência - Mas essa característica de competição...
Zaluar
- A competição é outra coisa. A competição não deixa de existir, nem o conflito, só que eles são jogados de outra maneira. No etos civilizado lida-se com conflito e lida-se com competição de outra maneira, em obediência à regra que são aceitas por todos, consensualmente. Algumas regras básicas do jogo são aceitas por todos. Então, a rasteira, o bote, a mentira, essas coisas que não fazem parte do espírito esportivo, mas sim da tentativa de ganhar de qualquer maneira, estariam excluídos disso, seriam perversões desse ato civilizado.

Com Ciência - Esse tipo de disputa não é algo que está presente dentro da própria sociedade hoje, como sociedade capitalista ou como uma competição entre indivíduos....
Zaluar
- Isto está presente em todas sociedades. A disputa, a competição e o conflito, elas estão presente em todas as sociedades. Não existem sociedades em que isso não aconteça o tempo todo. É como eu te disse antes, as sociedades encontram diferentes maneiras de lidar com a competição, com o conflito, com a disputa. Dizer que a nossa sociedade é competitiva é simplesmente uma questão de graduação, na verdade ela é mais competitiva do que aquela sociedade em que cada macaco sabia qual era seu galho. Essa sociedade que estamos criticando por causa da existência do mercado competitivo, na verdade ela é mais democrática, porque todo mundo pode ir para a briga para ver se consegue um galho melhor, não é isso? Tem esse sentido positivo. Agora, o que está em discussão é que não se pode deixar tudo por conta do mercado, porque ele não regula, o que regula são as instituições, é a solidariedade, o fairplay. Tudo isso são coisas que na verdade limitam a ganância, que é a lógica central do mercado. A moral, as instituições, as leis, as regras de convivência, a solidariedade etc, são coisas que servem para limitar, para conter o mercado.

 

Atualizado em 10/11/01

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