Fast tracking: velocidade para levar conhecimento científico a público

Por Carolina Medeiros

Método que potencializa o acesso às informações permite rápida visibilidade a artigos que apresentam grande contribuição à sua área, e que tenham implicações práticas imediatas ou urgentes. É possível que em 72 horas a pesquisa já esteja publicada.

Em 1969, uma das mais renomadas revistas científicas da área médica, The New England Journal of Medicine (publicada interruptamente desde 1812, em Massachusetts) passou por uma mudança em sua estrutura editorial, com a adoção da regra de Inglefinger. Com o nome do então editor da revista, Franz J. Inglefinger, o mecanismo assegurou à revista o direito de publicar apenas artigos inéditos, ou seja, que não tenham sido publicados em outras revistas científicas e/ou divulgados pela mídia.

Segundo o editorial no qual foi anunciada a nova regra, a preocupação do editor era que jornalistas não publicassem notícias com informações distorcidas e, sim, dados seguros, que seriam passados pelos próprios autores – com a ajuda da revista – após a publicação de sua pesquisa. Pode-se dizer que esse é o início da política de embargo.

A política de embargo, praticada atualmente por inúmeras revistas científicas, prevê o envio antecipado aos jornalistas de diversos releases de artigos que só poderão ser veiculados após a publicação nos periódicos científicos. Porém, conforme explica um texto sobre acesso aberto, da Escola Nacional de Saúde Pública – Sérgio Arouca (ENSP), essa política é oposta a um modelo que tem ganhado muita força, com o crescimento dos adeptos da ciência aberta.

A ideia é reduzir o antigo modelo de restrição de informação, e abrir espaço para o autoarquivamento de um preprint. “Autoarquivar é depositar um documento digital num website acessível ao público em geral, de preferência num repositório OAI [open archives initiative] compatível. Depositar envolve uma interface web simples, na qual o “depositante” copia/cola ou insere os metadados (data, nome do autor, título, nome da publicação etc.) e depois adiciona o texto completo do documento”. Em outras palavras, é publicar em repositórios de acesso aberto uma versão prévia do artigo, com o consentimento da revista na qual ele será publicado.

Outra ferramenta que potencializa o acesso às informações científicas é o modelo fast tracking de revisão por pares. O objetivo é dar rápida visibilidade a artigos que apresentam grande contribuição à sua área, e que tenham implicações práticas imediatas, ou urgentes. A diferença está no tempo em que é feita a revisão: enquanto a tradicional pode levar até um ano, pelo fast tracking é possível que em 72 horas a pesquisa já esteja no site da revista.

Essa prática ainda não está bem consolidada em todas áreas, mas parece ter encontrado campo mais propício nas revistas de ciências biológicas. Uma das explicações é que se trata de uma área de grande interesse público, logo, de rápida divulgação em diferentes meios. Segundo André Felipe Cândido da Silva, editor da revista Ciência, Saúde e História – Manguinhos, a estrutura de um artigo da área das ciências biológicas é diferente, o que facilita a revisão por pares, e por consequência sua rápida publicação.

“As publicações constituem basicamente a apresentação de dados de pesquisa; a escrita não ocupa espaço tão importante, já que a base da argumentação é, em sua maior parte, as evidências apresentadas pela experimentação”. André explica ainda que os artigos seguem uma estrutura básica, em que a argumentação é desenvolvida com mais densidade na discussão dos resultados.

Outra questão muito debatida quando se fala em revisão fast tracking é em relação à qualidade dos artigos. De acordo com um estudo realizado pelo pesquisador William Ghalil, da Universidade de Calgary, artigos avaliados pelo método fast tracking possuem os mesmos índices de citação que aqueles avaliados de forma tradicional. O pesquisador analisou artigos publicados nos periódicos New England Journal of Medicine e The Lancet, e apontou que não há diferença na qualidade das pesquisas, uma vez que os métodos de revisão são iguais, apenas são empregados de forma diferente. Outro ponto-chave da pesquisa é que estudos revisados pelo modelo mais rápido foram considerados ligeiramente mais úteis à prática clínica que os revisados pelo modelo tradicional. Ainda assim, ressalte-se, como em todos os modos de revisão, está sujeito à erros e críticas pertinentes.

Pode-se dizer, ainda, que grande parte das revistas se utilizam do modelo fast tracking de revisão por pares para evitar que bons artigos sejam publicados em outras revistas, aumentando assim a sua visibilidade. Conforme explica Cândido da Silva, trata-se de uma justificativa legítima. “Os pesquisadores competem por prioridade em seus achados, as revistas, por sua vez, competem para veicular os dados que julgam mais inovadores ou de maior potencial de repercussão, traduzida em leitores, mas sobretudo em citações, que alimentam o chamado “fator de impacto”. Este é tido como símbolo de qualidade de um periódico científico, ainda que venham se acumulando críticas sobre ele. Ou seja, é um modelo que se retroalimenta”, explica.

Embora algumas revistas, como as citadas no estudo da Universidade de Calgary, já usem constantemente esse modelo de revisão; trata-se de uma mudança significativa dentro do campo científico e, principalmente, no modelo de edição de muitas revistas. Porém, vale destacar que, assim como outras que aconteceram ao longo da história da ciência (revisão por pares, política de embargo, fator de impacto, métricas alternativas etc) leva um tempo para se consolidarem. Mas já é possível afirmar, a médio prazo, que se trata de uma mudança concreta para algumas áreas, em especial das ciências biológicas.

Fast tracking no Brasil

Em 2015, o surto de Zika vírus no país pegou a população e, principalmente, médicos e agentes de saúde, de surpresa, uma vez que pouco se sabia sobre aquela infecção que de maneira rápida se espalhou – e sua associação ao aumento no caso de bebês com microcefalia. A busca por explicações e informações confiáveis levou ao aumento significativo de publicações científicas sobre o assunto. Segundo dados do Blog SciELo em Perspectiva, entre o período de junho de 2015 e junho de 2016, foram publicados 1000 artigos sobre o vírus, sendo a maioria deles indexados na base de dados PubMed (repositório de publicações da área médica).

Na tentativa de capturar os resultados desses artigos, que em sua maioria foram publicados em revistas internacionais (embora alguns sejam de autores brasileiros), os editores da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz criaram um fluxo de trabalho especial denominado Zika Fast Track para manuscritos submetidos nesse tema.

O processo consiste em os artigos serem revisados por um editor a fim de serem julgados rapidamente, com atribuição de DOI (digital object identifier, código de identificação do artigo – semelhante ao ISSN de um livro). Em seguida o estudo é publicado na sessão da revista intitulada de “Zika Fast Track”, enquanto o manuscrito passa por uma revisão tradicional com o objetivo de verificar se é compatível com a proposta editorial da revista.

Essa ainda não é a realidade de boa parte das revistas nacionais, uma vez que, como lembra Cândido da Silva, o recrutamento de avaliadores para o modelo tradicional de revisão já é complicado (em especial pelo excesso de atribuições dos profissionais do mundo acadêmico). “Em termos bem realistas, pelo menos para o que imagino ser a realidade dos editores de revistas brasileiras, já é tremendamente complicado recrutar avaliadores, não por má vontade, mas pelo excesso de atribuições dos profissionais do mundo acadêmico hoje, que dividem suas rotinas como professores, pesquisadores, orientadores e gestores, sem contar a enorme burocracia presente em todos os domínios destas tarefas”, pontua.

As revistas internacionais que contam com recursos financeiros (seja por meio do governo ou de patrocinadores) saem na frente com o modelo de revisão rápida e, espera-se, eficiente. Isso faz com que cada vez mais sejam lidas, divulgadas e citadas.

Carolina Medeiros é jornalista, especialista em jornalismo científico, mestranda em divulgação científica e cultural (Labjor/Unicamp).