Fungo letal e falta de regulamentação de ranários ameaçam anfíbios terrestres

Por Paula Drummond de Castro

A infecção com Batrachochytrium dendrobatidis tem sido chamada de “a pior doença infecciosa já registrada nos vertebrados em termos de número de espécies afetadas e propensão à extinção”. O fungo é capaz de causar declínios e extinções devastadoras nas áreas onde ocorre naturalmente e por longos períodos de tempo.

Um fungo está causando declínio na população de anfíbios no mundo todo e já levou centenas de espécies à extinção. Um estudo publicado na última edição da revista Scientific Reports demonstrou que um grupo de anfíbios, aqueles que não têm girinos (o desenvolvimento é direto, ou seja, do ovo já eclode um sapinho), são mais susceptíveis à infecção. Isso é alarmante, pois nesse grupo estão mais de mil espécies do total de cerca de 7 mil anfíbios conhecidos na região neotropical – América Central, incluindo a parte sul do México e da península da Baja California, o sul da Florida, todas as ilhas do Caribe e a América do Sul.

O fungo Batrachochytrium dendrobatidis é o causador de uma doença chamada quitridiomicose, que ataca a pele dos anfíbios e interfere na respiração dos animais, pois parte das trocas gasosas com o meio ambiente é feita pela pele. A transmissão é feita por água ou contato direto, e assola principalmente os anfíbios aquáticos. A possibilidade de surto também entre os anfíbios terrestres assusta os especialistas e deve provocar revisão em estratégias de conservação dos anfíbios.

Um grupo de pesquisadores da Unesp, Unicamp e Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, fez uma experiência inédita: expôs grupos de anfíbios terrestres, que não têm contato intenso com o patógeno, ao fungo de transmissão aquática. O resultado foi avassalador. O grupo terrestre teve índices de mortalidade maiores, comparados com aqueles que já convivem com o fungo. “Entre os anfíbios terrestres, a doença se desenvolve de uma maneira mais rápida e com uma carga de infecção maior, levando-os a morrer mais rápido. Em menos de 10 dias todos os sapos terrestres morreram. Os sapos aquáticos demoram mais tempo e alguns até sobrevivem”, explica Felipe Toledo, pesquisador do Instituto de Biologia da Unicamp e um dos autores do trabalho.

Brachycephalus pitanga, espécie terrestre utilizada no estudo. Foto: Felipe Toledo.

Há menos anfíbios terrestres infectados na natureza. Contudo, quando se encontram esses animais doentes, a carga infecciosa é mais alta. “A hipótese que se especula é de que os anfíbios terrestres têm menos contato com a doença, e, por isso, não desenvolveram imunidade contra o fungo ao longo da história”, supõe Toledo.

Esta informação traz um alerta, segundo Célio Haddad, pesquisador da Unesp de Rio Claro e também autor do estudo. “Temos que levar em conta a possibilidade de surtos desta doença nas espécies terrestres. Até o momento, considerando que o ciclo de vida do fungo depende do ambiente aquático, se focava basicamente nos anfíbios deste meio. Mas uma espécie aquática pode pular no chão da floresta e entrar em contato com os ambientes das espécies terrestre – mais susceptíveis ao fungo. Pode haver surto da doença mesmo na forma terrestre, o que seria letal”.

As espécies terrestres são, normalmente, mais difíceis de serem encontradas na natureza, pois se abrigam nas folhas úmidas do chão da floresta. Já as espécies aquáticas têm endereço certo: os riachos, necessários para desova e desenvolvimento do girino.

Os poucos estudos com espécies terrestres dificultam saber o quanto elas estão sujeitas a essas infecções. “Precisamos monitorar essas populações terrestres no Brasil, para saber se estão diminuindo. Há relatos de declínio de populações de anfíbios terrestres nos Andes e em outros países”, complementa Felipe Toledo.

Entretanto, em termos de vetores da doença, o que preocupa os pesquisadores são espécies tolerantes ao fungo, isto é, aquelas que carregam carga de infecção e transmitem a doença, sem serem gravemente afetadas. Entre essas espécies estão Xenopus laevis, conhecida pelo nome comum de rã-de-unhas-africana, criada como pet; e a rã-touro (Rana catesbeiana), criada em ranários por todo o país como iguaria gastronômica.

No caso das rãs-touro, o problema está no fato de que podem fugir dos ranários ou, por vezes, são soltas em lagoas. Além de competir com espécies nativas por recursos, são um reservatório natural do fungo. As comestíveis são trocadas entre ranários, e importadas/exportadas vivas, aumentando a circulação potencial da doença. Além disso, a água dos ranários normalmente é canalizada de algum corpo d’água, passa pelo ranário e é devolvida sem tratamento prévio, configurando um potencial foco de disseminação do patógeno para ambientes naturais.

A prática de trocar de rãs entre os criadouros também promove a hibridização entre as espécies de fungos, gerando linhagens ainda mais agressivas, como a que chamou a atenção de Toledo. Não há legislação que regule ou controle este aspecto de impacto ambiental nessas criações no Brasil, colocando em risco espécies aquáticas e terrestres de anfíbios.

A infecção com Batrachochytrium dendrobatidis tem sido chamada de “a pior doença infecciosa já registrada nos vertebrados em termos de número de espécies afetadas e propensão à extinção”. O fungo é capaz de causar declínios e extinções devastadoras nas áreas onde ocorre naturalmente e por longos períodos de tempo.

Estudos da fauna megadiversa de anfíbios do Brasil sugerem que o fungo sempre existiu em baixa prevalência em toda a Mata Atlântica. Contudo, no final da década de 1970, aumentou sua disseminação e provocou declínios e extinções catastróficos de anfíbios.

Veja o vídeo e ouça o áudio do canto do Brachycephalus pitanga, gravado pelo pesquisador Felipe Toledo: