‘Mulheres, raça e classe’ de Angela Davis: a emancipação anticapitalista das mulheres negras

Por Sidélia Luiza de Paula Silva

Angela Yvone Davis tem um marco histórico incontestável enquanto ativista e intelectual da causa racial. O livro Mulheres, raça e classe tem uma contribuição singular para a discussão sobre emancipação para todas as mulheres.

Lançado em 1981, após a passagem de Davis pela prisão, torna-se um dos canais de história de luta das mulheres negras para apontar a invisibilidade destinada a elas, em diversos espaços na América escravista e em todos os tempos históricos, e mostrar os espaços de resistência e luta da população negra.

coverEm 2016 foi publicada a tradução brasileira, pela editora Boitempo. O livro tem prefácio de Djamila Ribeiro e apresentação de Roseane Borges, ambas mulheres negras, militantes e intelectuais brasileiras que compartilham do pensamento marxista de Davis em sua militância, e que tentam carregar – na medida do possível – a teoria para prática e a prática para a teoria.

A luta de Davis, nitidamente, pode ser traduzida em emancipação e liberdade para a população negra, e a construção de Mulheres, raça e classe vem nesse sentido – é perceptível a ânsia de Davis em chegar a uma proposta de emancipação.

A construção do texto é muito interessante, Davis dialoga com diversos fatores para explicar cada item de seu pensamento: contexto histórico, interesses da hegemonia, disputa de narrativas na militância e na academia. Em todas as construções textuais do livro podem ser encontrados esses três fatores.

O livro reconta uma parte da história dos Estados Unidos, dando visibilidade às mulheres negras, que nos escritos da época eram invisibilizadas. Ela revisita historicamente a função das mulheres negras no período escravocrata, rebate os estereótipos construídos a partir das narrativas brancas com relação às mulheres negras e problematiza como os traços de “humanidade” nos negros e negras precisavam, naquela época, ter dois extremos: doçura ou imbecilidade. Fora desses extremos, os negros e negras eram tidos apenas como “primitivos” e “selvagens”.

Essas características, que conferiam “humanidade” aos negros e negras, conferem também a submissão ao branco, ou seja, a humanidade aceitável ao branco é aquela que o beneficia de alguma forma. Davis retoma diversas vezes como exemplo o livro A cabana do pai Tomás (1), de autoria de Harriet Beecher Stowe, uma mulher branca que escreve um best seller em 1853, contando a história dos negros e negras e sua resistência. Embora o livro tenha contribuído para “sensibilização” de parte da população americana, não deixou de construir e propagar diversos estereótipos negativos com relação à população negra, como doçura, passividade, imbecilidade entre outros.

A partir desses elementos, Davis começa a construir a narrativa histórica da luta abolicionista e a interferência do capitalismo no “lugar da mulher”. Se anteriormente havia a valorização das atividades domésticas e a percepção de que as mulheres brancas americanas eram um eixo central na reprodução familiar, com a expansão do capitalismo essa percepção passa a se minimizar. Esse “lugar da mulher” se “vulgariza”, na medida em que a intensificação da força de trabalho, baixos salários e expansão da produção industrial exigem que as mulheres brancas tenham que vender a sua força de trabalho, sair do “lugar da mulher” – exclusivamente – para inserir sua jornada de trabalho na composição da renda familiar.

Davis mostra como a luta abolicionista foi a porta de entrada para a luta pelo sufrágio nos Estados Unidos. As mulheres brancas de classe média, ao se colocarem no espaço da política (luta abolicionista), perceberam que tinham tratamento diferente. Assim, começaram a questionar e pautar as suas demandas de emancipação para ocupar esses espaços e ter poder decisório também. Sem votar, elas não tinham cidadania plena para participação política efetiva na luta abolicionista.

No início, as mulheres negras não eram vistas como sujeito, como mulher que também devesse acessar o voto para ter cidadania plena e participação política efetiva. Davis desenvolve muito bem essa parte, e no livro é o ponto alto que coloca as opressões interseccionais(2) de gênero, raça e classe em situações históricas, e de como essa história era relatada até então.

No livro há a problematização dos termos abolicionistas começarem a ser equiparados na luta das mulheres brancas por melhores condições de salários e por acesso à política. Quando se referiam aos seus casamentos, entre outras opressões que viviam, as mulheres brancas se colocavam como se fossem “escravizadas” para dar ênfase a quanto eram oprimidas em diversas esferas das suas vidas. Os termos utilizados nas lutas têm contexto e motivo. A partir do momento que esses termos começam a ser apropriados em lutas de opressões diversas perdem o seu significado e isso reverbera nos movimentos feministas até hoje. A utilização do termo “abolição”, para se referir ao fim das atividades das profissionais do sexo, é um exemplo de como os termos são usados de modo equivocado e problemático por diversos movimentos não só os feministas.

A maior contribuição de Angela Davis, não só no livro mas também nas atividades de militância e outras obras, é mostrar as lacunas existentes nos movimentos sociais, e refletir e atuar em conjunto na luta anticapitalista. Em Mulheres, raça e classe há, nitidamente, uma crítica direcionada ao movimento feminista, apontando o quanto é problemático enxergar as mulheres de modo universal, pois as demandas das mulheres negras, em parte, foram invisibilizadas e, em outra medida, não atendidas com as especificidades de seu contexto histórico e demais fatores.

No livro, é possível enxergar fragmentos históricos que se repetem nos dias atuais. Mesmo com as denúncias cotidianas sobre a situação das mulheres negras, o contexto histórico, os índices em que estão inseridas e suas vulnerabilidades, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, foram construídos estereótipos negativos atribuídos a negras e negros. Estes impedem a visualização de sua humanidade (3) como sujeito contraditório, diverso, subjetivo, entre outras características intrínsecas à natureza humana. Esses estereótipos imperam na cabeça da branquitude (4), que não consegue enxergar os negros e negras para além da pena e/ou compaixão pelas situações que viveram no período escravocrata – e que também não foram universais para todos os negros e negras (5) – ou a que se encontram. Dificilmente a população negra é colocada como sujeito político, com gerência e determinação de suas pautas.

Talvez a maior importância da publicação dessa obra no Brasil seja a reflexão sobre como as ações políticas, necessárias para a emancipação efetiva da população negra, podem se integrar para avançar nas pautas, sem atrasar nenhuma das lutas por emancipação e liberdade, e contra opressão capitalista.

Mulheres, raça e classe
Angela Davis
Boitempo
2016

Sidélia Luiza de Paula Silva é mestranda em ciência política na área de política pública e desenvolvimento no Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.

Notas

  1. Em Mulheres, raça e classe Angela Davis coloca uma das problemáticas: “Uma das mais populares literaturas abolicionistas foi A cabana do pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, um livro que uniu um vasto número de pessoas – e mais mulheres do que nunca antes – à causa antiescravatura. Abraham Lincoln, uma vez, casualmente, referiu-se a Stowe como a mulher que começou a guerra civil. No entanto, a enorme influência que o seu livro teve não compensa a distorção da vida dos escravos”.
  1. Sobre interseccionalidade, Kimberly Crenshaw cunhou o termo a partir das obras de mulheres negras que já problematizavam essa questão de gênero, raça e classe. Em “Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos a gênero” Crenshaw escreve: “A garantia de que todas as mulheres sejam beneficiadas pela ampliação da proteção dos direitos humanos baseados no gênero exige que se dê atenção às várias formas pelas quais o gênero intersecta-se com uma gama de outras identidades e ao modo pelo qual essas intersecções contribuem para a vulnerabilidade particular de diferentes grupos de mulheres. Como as experiências específicas de mulheres de grupos étnicos ou raciais definidos são, muitas vezes, obscurecidas dentro de categorias mais amplas de raça e gênero, a extensão total da sua vulnerabilidade interseccional ainda permanece desconhecida e precisa, em última análise, ser construída a partir do zero”. (Crenshaw, 2002).
  1. No artigo “Colonialismo, independência e revolução em Frantz Fanon”, Danilo Pereira da Fonseca explica a relação entre colono e colonizado: “Nesse sentido ocorre o discurso de superioridade ocidental com o intuito de destruir as referências do mundo do colonizado, na mesma medida em que o colono busca impor os seus valores e a cultura ocidentais, com uma bandeira de universalidade, ou seja, a sociedade do colono se coloca como sendo universal, única e suprema forma de sociedade humana e com o dever de impor tais posicionamentos para o restante da humanidade que supostamente viveria na barbárie.”
  1. Em artigo “Sim, nós somos todos racistas: estudo psicossocial da branquitude paulistana”, Lia Schuman coloca a importância da racialização do branco: “desvelar a branquitude é expor privilégios simbólicos e materiais que os brancos obtêm em uma estrutura racista; e, assim, os estudos sobre brancos indicam que o ideal de desigualdade racial em que os brasileiros são socializados opera para manter e legitimar as desigualdades raciais (…) pois estes, intencionalmente ou não, têm um papel importante na manutenção e legitimação das desigualdades raciais.”
  1. Para mais informações ver Jacino, R. “O negro no mercado de trabalho em São Paulo pós-abolição – 1912/1920”. Tese, 2012. Disponível em < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-11042013-093449/pt-br.php> acesso em 01/02/201