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Apesar de consumido, algodão transgênico não é foco de discussões


Diferentemente da soja e do milho, que são produtos alimentares, o algodão transgênico tem recebido menos atenção e críticas dos opositores aos transgênicos. Os consumidores de algodão não se preocupam ainda sobre a origem do produto comprado, o que reforça que a taxa de adoção dessa tecnologia depende somente da análise econômica do produtor. Contudo, este produto não pode ser ignorado nos debates sobre o cultivo de transgênicos pois, no Brasil, o óleo de algodão é utilizado na alimentação tanto animal como humana.

A questão foi um dos temas abordados no 4º Congresso Brasileiro de Algodão, que ocorreu em Goiânia(GO), de 15 a 18 de setembro. O evento, organizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Fundação GO, Associação Goiana dos Produtores de Algodão, pelo governo goiano e pela prefeitura de Goiânia, reuniu todos os elos da cadeia produtiva, têxtil e de pesquisa.

O evento deixou claro que os estudos sobre algodão transgênico estão adiantados no Brasil. Cerca de 68% do algodão transgênico cultivado é do tipo Bt, que possui o gene da bactéria Bacillus thuringiensis em seu DNA, responsável pela produção de uma toxina letal para as lagarta do cartucho, principal praga do algodão. A ingestão da toxina pelo inseto provoca infecção e o leva à morte.

Apesar do cultivo de algodão transgênico estar proibido, a Embrapa e outros centros de pesquisa continuam trabalhando nos estudos sobre o algodão Bt. Napoleão de Macedo Beltrão, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Algodão da Embrapa da Paraíba, acredita que a variedade de algodão resistente à pragas será obtida em dois anos. Segundo o cientista, as pesquisas estão sendo desenvolvidas em parceria com a Monsanto, detentora da patente do gene Bt. A empresa obteve licença da União Européia para comercializar dois óleos comestíveis derivados de sementes de algodão transgênico. Ocorre que, o veto europeu que proíbe o consumo de produtos geneticamente modificados por quatro anos, afeta apenas sementes, plantas e outros organismos vivos. Os óleos derivados de produtos transgênicos devem ser caracterizados como tal através de rótulos.

A semente Bt que, de acordo com a Monsanto, leva a uma economia de cerca de 50% nos gastos com inseticidas, já é cultivada em oito países. O Conselho Consultivo Internacional do Algodão (CCIA) dos dois maiores produtores, EUA e China, já plantam essa variedade de algodão. Os números sobre plantações genéticas mostram um crescimento de 1,7 milhões de hectares, entre 1996 e 1997, para 58,7 milhões de hectares, neste ano. Dessa área total, o algodão corresponde a 12%, sendo superado apenas pela soja (62%) e pelo milho (21%).

Enquanto não há uma definição por parte dos órgãos governamentais, os centros de pesquisas brasileiros continuam investindo nas técnicas tradicionais. Andrew MacDonald, presidente da Associação Brasileira do Algodão (Abralg), informa que o grande desafio é adaptar a planta, de regiões áridas, ao clima brasileiro. No Brasil, onde chove mais do que na Austrália, Egito, Israel e Peru, o algodoeiro cresce demais e resulta em um produto de qualidade inferior. Nesses países, grande parte do algodão é irrigada, o que permite controlar a altura das plantas. No Brasil, os institutos de pesquisa estão investindo em variedades de menor crescimento.

Incoerência
"O Brasil proíbe a produção de algodão transgênico, mas o usa em sua indústria têxtil, importando esse produto de países como os EUA", diz João Luiz Pessa, ex-presidente e atual conselheiro da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa). Por ser um produto industrial, o algodão em pluma faz com que as fiações e tecelagens não se preocupem como foi produzido, mas com sua qualidade. As empresas brasileiras que também compram o algodão geneticamente modificado produzido na Argentina, trabalham sem nenhuma discriminação quanto a comercialização de seus produtos.

Os ambientalistas acreditam que a introdução do algodão Bt geraria pragas resistentes e desequilibraria o ecossistema.
No Brasil, existe uma forte resistência a essa tecnologia por parte de organizações não-governamentais ambientalistas e de defesa do consumidor, além do Ministério do Meio Ambiente, que pede mais estudos sobre possíveis efeitos contra o meio ambiente e a saúde humana, em nome do princípio de precaução. Apesar disso, o governo federal publicou no Diário Oficial, de 26 de setembro, uma Medida Provisória que libera o plantio e a comercialização das sementes da soja transgênica, safra 2002/2003, mesmo não existindo estudos de impacto ambiental.


 

Atualizado em 30/09/03
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