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Especialistas alertam para o possível desaparecimento de espécies arbóreas do cerrado em 2055

O cerrado é um ecossistema bastante ameaçado no país, embora ele corresponda a 23% do território brasileiro, estando atrás apenas da gigante Amazônia. Se a atual situação não é das melhores, em cerca de 50 anos, será ainda mais delicada. Pesquisadores do Centro de Referência de Informação Ambiental (Cria) simularam, com modelos computacionais, a distribuição de 162 espécies arbóreas do cerrado em 2055, considerando mudanças climáticas moderadas e drásticas no planeta. O cenário obtido pelos biólogos é preocupante: a distribuição das espécies declina drasticamente de 25 até 90% da área original. Esse cenário simulado pode auxiliar em mudanças nas políticas de conservação desta vegetação, que abriga 44% de plantas endêmicas (que ocorrem apenas naquela região). Hoje, apenas cerca de 2,25% do cerrado do país é protegido.

Os pesquisadores Marinez Ferreira de Siqueira, do Cria, e Andrew Townsend Peterson, da Universidade de Kansas, dos Estados Unidos e colaborador do centro brasileiro, selecionaram apenas as espécies de árvores com ampla distribuição pelo cerrado (ver mapa 1), utilizando um levantamento prévio feito pelo Projeto de Cooperação Técnica Conservação e Manejo da Biodiversidade do Bioma Cerrado, realizado pela Embrapa-Cerrados, Universidade de Brasília, Ibama e Royal Botanical Garden of Edinburg, da Escócia. Os modelos utilizados basearam-se em dados de temperaturas mínimas, médias e máximas e precipitações médias mensais, levantadas de 1961 a 1990 pelo Intergovernamental Panel on Climate Chance (IPCC), órgão de referência mundial para estudos sobre mudanças climáticas.

As condições ambientais ideais de cada espécie, previamente estabelecidas, foram disponibilizadas na modelagem computacional, que as projetou para a área de cerrado. A estes dados, Siqueira e Townsend utilizaram um modelo mais conservador, onde a concentração de gás carbônico (CO2) aumenta 0,5% ao ano, e outro mais dramático, onde a concentração chegaria a 1% ao ano, valores geralmente utilizados em previsões de mudanças de clima. O CO2 é um dos gases promotores do aquecimento global, o chamado efeito-estufa.

Distribuição de 162 espécies de árvores pelo cerrado brasileiro nos dias atuais (1961-1990). Imagens: Cria

Distribuições dessas espécies com mudança climática moderada (0,5% de CO2), em 2055
Distribuições dessas espécies com mudança climática mais brusca (1 % de CO2), em 2055

Em ambas as previsões, há uma perda maior que 50% na área de distribuição de quase todas as espécies, sendo que o número de espécies que perdem mais de 90% de seu território é 91, quando o aumento na concentração de CO2 é de 0,5%, e 123, quando o aumento é de 1%. Já a extinção ameaça 18 das 162 espécies, no modelo mais moderado, e 56 espécies, no cenário mais drástico. A análise dos mapas mostra uma redução violenta e assustadora na distribuição das espécieis analisadas.

O estudo, um dos poucos que analisam os efeitos de mudanças climáticas na biodiversidade brasileira, aponta para a necessidade de conservar as áreas leste e sul da atual distribuição do bioma cerrado, onde, segundo a projeção futura, seriam regiões estratégicas para preservar a riqueza
de espécies. Apesar disso, Siqueira lembra que seria precipitado considerar apenas esses dados para exigir um posicionamento das autoridades em relação à conservação do cerrado.

"Essa pesquisa é mais uma ferramenta para corroborar práticas de preservação do cerrado", afirma a bióloga do Cria. Para ela, seria importante a realização de trabalhos que utilizassem uma escala mais precisa que os 50 quilômetros considerados no estudo, que podem não ser muito precisos para o estado de São Paulo, mas são bastante significativos quando leva-se em conta a dimensão do país. Outro passo fundamental seria trabalhar com previsões a curto e médio prazos.

Siqueira acredita que o advento do GPS (em português, Sistema de Posicionamento Geográfico) contribuiu enormemente para a melhora da qualidade dos dados científicos e geográficos, já que antes, eram geralmente utilizadas as coordenadas geográficas de alguma localidade próxima ao local, ou até mesmo as do município, quando não se sabia as coordenadas da localidade. Já os estudos com modelagem computacional aplicada à biodiversidade são ainda recentes no Brasil, o que indica um nicho de pesquisa com grandes possibilidades futuras.

Embora em 1999 o cerrado tenha entrado para a lista dos hot spots, ou áreas com enorme biodiversidade do mundo, nos últimos 40 anos tem havido uma destruição mais intensa desse ecossistema, em função do uso de suas terras para expandir as fronteiras agrícolas do país, principalmente nos estados do Mato Grosso e Goiás, onde está a maior riqueza de espécies. Na realidade, a atividade agrícola cresceu 29% em 1985 e 50% em 1990, refletindo em uma enorme fragmentação do ecossistema, nos atuais 20% remanescentes da vegetação original. Roberto Brandão Cavalcanti, biólogo da Universidade de Brasília, e Carlos Joly, biólogo da Unicamp e coordenador do projeto Biota, sugerem que pelo menos 10% desta área seja conservada. "Infelizmente, [no estado de] São Paulo, apenas 0,95% da extensão original do cerrado permanece intacta, o que, certamente, trará implicações em termos de variabilidade genética e viabilidade demográfica para algumas populações", alertam os pesquisadores.

O artigo desses pesquisadores, "Consequences of Global Climate change for Geographic Distributions of Cerrado Tree Species", publicado na revista científica Biota Neotropica, pode ser consultado na Internet.

Preconceito com o ecossistema

O cerrado, embora ocupe quase um quarto do território brasileiro, é negligenciado pelas políticas de conservação. Marinez Siqueira acredita que outros ecossistemas, como a Amazônia e a Mata Atlântica, têm mais apelo junto à população, que os vêem como mais importantes e bonitos que o cerrado. Este fato acaba prejudicando a conservação desta extensa vegetação. Em artigo publicado, recentemente, na revista Ciência Hoje (Vol.32, n.192), Marcelo Ximenes Aguiar Bizerril, da Faculdade de Ciências da Saúde do Centro Universitário de Brasília, analisou a imagem do cerrado em 67 livros didáticos de geografia e ciências. A pesquisa revela que há poucos dados sobre plantas e animais da região, com muita informação preconceituosa e equivocada, como a ampla divulgação de imagens do cerrado típico na época seca. Segundo Bizerril, "os livros avaliados não induzem no estudante atitudes positivas em relação a ele [cerrado]", o que prejudica a preocupação e a disposição de agir em favor de sua conservação.

Atualizado em 05/09/03
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