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Fragmentos florestais escondem diversidade de árvores


Pequenos pedaços de mata - os chamados fragmentos florestais - são vistos, geralmente, como possuidores de uma menor diversidade, ou seja, com um menor número de espécies, que matas grandes e contínuas. Uma tese de doutorado desenvolvida no Instituto de Biologia da Unicamp pela pesquisadora Karin dos Santos traz um outro resultado, mostrando que essa variação da diversidade, em árvores, pode não ser tão grande assim, ainda que indique um menor grau de conservação dessas áreas.

A idéia da tese, ligada ao Programa Biota/Fapesp e intitulada "Estrutura, diversidade e composição florística de onze fragmentos de floresta estacional semidecídua na região da Área de Proteção Ambiental [APA] de Sousas e Joaquim Egídio, Campinas - SP", surgiu da vontade da pesquisadora de estudar a história da fragmentação de ecossistemas no estado de São Paulo e teve como busca principal saber se uma mesma unidade de área de um fragmento pequeno pode ter a mesma composição de espécies que a de um fragmento grande.

Segundo a teoria corrente sobre fragmentação de ecossistemas, a existência de uma maior borda de contato entre a mata e a paisagem ao seu redor modifica fatores abióticos como a maior penetração de luz e vento na mata, que causam modificações como o aumento de temperatura e luminosidade e que afetam diretamente a estrutura desses fragmentos causando diferenças nos padrões de abundância e distribuição das espécies. Pode haver desde a perda de espécies por falta de espaço para a existência de uma população viável ou por falta de polinizadores, até o aumento do número de indivíduos de outras espécies que se beneficiam justamente dessas mudanças.

Segundo essa linha de pensamento, fragmentos pequenos teriam uma relação muito maior entre borda e interior e sofreriam, portanto, muito mais com essas alterações. "Queríamos ver se essa idéia era verdadeira, ou seja, se realmente quanto menor o fragmento, menor o número de espécies" diz Santos. Para isso, foram pesquisados 11 fragmentos florestais da região da APA, além de três amostras em uma área de mata contínua, para comparação. "Além disso, queríamos saber se a diferença entre as três amostras na área contínua era menor ou maior que a diferença entre os fragmentos, para podermos ver se essas diferenças existiam como resultado da fragmentação ou como decorrência natural das diferenças na paisagem", explica.

O fato dos onze fragmentos estarem situados em áreas particulares foi, para Santos, o primeiro obstáculo. "A gente tinha que pedir autorização para entrar na área, e muitas pessoas tinham medo de divulgarmos os nossos resultados e as áreas acabarem sendo tombadas ou confiscadas. Tivemos que selecionar os fragmentos pelo tamanho e características biológicas, mas também pelos fragmentos que tivemos autorização para trabalhar".

De acordo com a pesquisadora, "o projeto iria comprovar as teorias de fragmentação atuais, mas não foi isso que encontramos. O que achamos foi uma variação do número e diversidade de espécies que não é relacionada ao tamanho dos fragmentos. Talvez, a escala de tempo que pegamos não abranja isso, que a perda de espécies aconteça ao longo de um período de tempo que não conseguimos medir". Mas a pesquisa trouxe várias surpresas. Das 248 espécies encontradas, 35 foram encontradas pela primeira vez em Campinas, sendo que 24 delas são consideradas raras para o estado de São Paulo. Além disso, 12 espécies ainda não puderam ser identificadas, o que pode indicar que sejam espécies novas, que ainda precisam ser descritas.

Esses dados de riqueza de espécies unidos a uma análise mais qualitativa da mata trazem uma outra análise do grau de conservação desses fragmentos. Se, pelos números, a diferença entre grandes e pequenos pedaços de mata não aparece, na análise qualitativa ela vem com força: "medindo as árvores do presente, do passado e do futuro [respectivamente, as árvores que estão em bom estado, as que estão danificadas e/ou sem galhos e as mudas que estão nascendo] pudemos perceber que, nos pequenos fragmentos, estão morrendo mais árvores do que nascendo e crescendo, um dos indicativos de um pior grau de conservação".

A análise da bióloga mostra que esses pequenos fragmentos de mata precisam ser preservados em seu conjunto pois, somados, apresentam 40% do total de espécies previstas para a região, além de cada um deles, individualmente, apresentar uma característica importante. Por exemplo,
um dos fragmentos apresentou o maior número de espécies inéditas para a região, outro, maior concentração de indivíduos por espécie e outro a flora mais diversa.

Atualizado em 06/11/03
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