Alta diversidade de interações entre vertebrados
e plantas na Mata Atlântica
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Saíra-militar
(Tangara cyanocephala).
Foto: Mauro Galetti
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A
diversidade de espécies em áreas de Mata Atlântica
é uma das maiores do mundo. Segundo a organização
não-governamental Conservation International, esse
Bioma possui mais de 20 mil espécies de plantas, das quais
8 mil ocorrem apenas nessa região e cerca de 1.700 são
vertebrados. Se o número de espécies é imenso,
as interações entre elas podem ser complexas e também
em número muito grande. É o que o pesquisador Wesley
Silva e outros pesquisadores do Instituto de Biologia da Unicamp
observaram no Parque Estadual Intervales, no sul do estado de São
Paulo.
O
projeto enfocou as interações entre vertebrados e
plantas, principalmente as relações de frugivoria,
que é o ato de comer frutos. A frugivoria é uma interação
mutuamente benéfica (mutualismo) tanto para os vertebrados,
por terem uma fonte de alimentos, quanto para as plantas, por terem
suas sementes dispersas por esses animais.
A
idéia da pesquisa surgiu em 1997, na reunião preparatória
para a montagem do Programa Biota/Fapesp, do qual o projeto faz
parte. "Percebi que a diversidade era encarada de uma forma
muito estanque, apenas dentro dos grupos taxonômicos: de plantas,
peixes, borboletas. Por que não ver como dois grupos taxonômicos
interagem? Por que não colocar uma abordagem de interação
entre dois grupos taxonômicos?" explica Wesley Silva.
A pergunta principal era verificar se, de fato, uma grande diversidade
de organismos se reflete na diversidade de interações.
A
pesquisa permitiu constatar que a Mata Atlântica possui uma
rede de mutualismo de frugívoros altamente complexa. As observações
de campo geraram uma lista de frugívoros e outra de plantas,
interligadas por meio das interações existentes entre
um e outro. Esses registros foram únicos, isto é,
cada interação de um animal com uma planta foi anotado
apenas uma vez, o que permitiu verificar a diversidade dessas relações,
resultando em cerca de 1.200 interações.
A
análise dos resultados revelou que o grau de especificidade
das interações entre frugívoros e plantas é
menor do que, por exemplo, entre polinizadores e plantas. Segundo
o pesquisador "as forças que unem os dois grupos são
mais frouxas porque a natureza do fenômeno é diferente.
No caso da polinização, o pólen ao sair de
uma planta deve aterrissar em outra planta, não há
outro substrato possível. Nesse caso, é possível
encontrar adaptações visíveis como os beija-flores
com bicos enormes que se encaixam perfeitamente nas flores".
Em frugivoria isso não ocorre porque não há
um lugar exato para a semente ser colocada. A semente pode cair
em qualquer lugar e, a partir daí, deverá passar por
outras fases do chamado processo de dispersão. "O fato
de um frugívoro comer um fruto, engolir a semente e leva-la
para longe é só uma das etapas de todo um processo
bastante complexo, que poderá resultar na sobrevivência
e germinação da semente e no estabelecimento de uma
nova planta".
Uma
observação que chamou a atenção dos
pesquisadores foi a mudança que ocorreu na comunidade e nas
interações após uma geada, em julho do ano
2000. Após mudanças e o transcorrer do tempo o padrão
de equilíbrio foi novamente alcançado após
cerca de um ano. Para Wesley Silva, isso os fez perceber que "mesmo
em uma comunidade complexa, como a Mata Atlântica, a oferta
de frutos pode ser extremamente sazonal. Nós percebemos a
ausência de vários animais e que poucas plantas conseguiram
continuar com frutos após a geada. Vimos os frugívoros
alternando a dieta, outros comendo insetos, animais que nunca havíamos
visto comendo insetos. Isso indica que mesmo comunidades que tem
uma oferta boa e prolongada de frutos podem passar por gargalos
que as tornam bastante frágeis".
O
número de interações encontrados na pesquisa
"mostra que conseguimos obter um retrato bastante complexo
da comunidade. Mas, ainda achamos necessário mesclar várias
metodologias para termos uma amostragem maior" ressalta. Isso
porque o método utilizado permite saber a diversidade das
interações, mas não os aspectos quantitativos
e mais intensivos como, por exemplo, quantas vezes cada animal visita
a planta. "O ideal é fazer uma análise mais superficial
em que você aumente a chance de encontrar interações
mais raras mas, também, usar métodos de observação
focal em que você aumenta a quantidade de observações
em grupos particulares".
Os
resultados que formam esse retrato complexo das interações
na Mata Atlântica, unidos a informações da literatura
e de pesquisas, foram reunidos em um banco de dados "Banco
de Dados de Frugivoria Neotropical" que, de acordo com
Wesley Silva, tem como finalidade subsidiar estudos acadêmicos,
avaliações da biodiversidade e programas de recuperação
de áreas degradadas.