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Avanços e desafios para o ecoturismo em Bonito


Unir geração de renda local e conservação ambiental é o desafio central do ecoturismo, que encontra como modelo a região de Bonito (MS), sempre apontada como uma experiência bem sucedida. Essa idéia, porém, está sendo colocada em questão por alguns pesquisadores que avaliam a pressão causada pelo aumento não planejado do número de turistas nos últimos anos, justificado como a necessidade de melhoria da renda das operadoras e guias locais, mas que, muitas vezes, ocorre em detrimento da sustentabilidade ambiental.

A preocupação que move os pesquisadores José Sabino e Luciana de Andrade na discussão do ecoturismo da região é a perda e a diminuição de indivíduos de algumas espécies de peixes do rio Baía Bonita, o chamado "Aquário Natural" de Bonito. O estudo, publicado na revista Biota Neotropica, foi realizado entre os anos de 2001 e 2002 e monitorou a presença, comportamento alimentar, reprodutivo e social de algumas espécies de peixes da área, como o dourado (Salminus maxillosus) e a joaninha (Crenicichla lepidota), procurando averiguar o impacto da visitação sobre esses animais.

"Até o final de 2001, os peixes não apresentavam redução em riqueza de espécies, representada por cerca de 30 espécies. Entretanto, a partir de meados de 2002, algumas espécies bioindicadoras não foram registradas e outras diminuíram em ocorrência" dizem os pesquisadores. Uma mudança que coincidiu com a ampliação do número de visitantes por dia (de 100 para 200 pessoas) conseguida pela operadora de turismo que atende a área. Sabino e Andrade indicam, também, que houve uma diminuição do tempo e qualidade do treinamento dado aos visitantes para que sua permanência no local tenha o menor impacto possível. Além disso, os estudos de monitoramento ambiental da área, que avaliavam do estado de conservação do local, foram suspensos.

Turista flutuando no Aquário Natural, rio Baía Bonita, Bonito. Foto: José Sabino

Para Sabino e Andrade, a implantação do ecoturismo em Bonito trouxe alguns "avanços conceituais e operacionais, tais como a obrigatoriedade de acompanhamento de guia credenciado e limites na capacidade de visitação em alguns atrativos". Dóris Ruschmann, professora de Planejamento em Turismo da USP, lembra que "o ecoturismo em Bonito foi sempre citado como modelo, porque há um controle da capacidade de carga [número máximo de pessoas que pode entrar na área sem causar impactos] dos ambientes pelas operadoras". Mas, ela enfatiza que, se o número de peixes de uma área está diminuindo, é porque o número de turistas excedeu.

Outro aspecto, citado por Ruschmann, é o impacto no entorno das áreas de visitação causado pelo aumento da estrutura para recebimento dos turistas como, por exemplo, do número de pousadas. O planejamento das atividades de forma ampla e integrada deve contar, segundo ela, com o apoio de equipes multidisciplinares de pesquisadores que possam pensar, juntamente com as comunidades e operadoras de turismo, tanto na sustentabilidade ambiental dessas iniciativas como na econômica.

A discussão proposta pelos pesquisadores traz à tona alguns dos maiores problemas para a implantação de um ecoturismo realmente sustentável: a necessidade de um planejamento das atividades de turismo e de análises contínuas do impacto dessas atividades no ambiente. Há ainda, a necessidade de pensar o ecoturismo como uma das possibilidades de geração de renda para um local, e não como uma "tábua de salvação que irá resolver todos os problemas sócio econômicos de regiões desfavorecidas", como afirma o coordenador do Programa de Turismo e Meio Ambiente do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), Sérgio Salazar Salvati, em artigo que discute o ecoturismo no Brasil.

De acordo com ele, o ecoturismo deve ser integrado com outros programas de desenvolvimento para as comunidades locais, como o apoio ao extrativismo, agricultura, artesanato e "variados pequenos negócios e serviços de apoio", que garantam a geração de renda e emprego locais e os insumos e serviços necessários. Outro aspecto, que Salvati aponta como essencial para o Brasil, é a definição de uma política nacional para o desenvolvimento do setor. "Precisamos de uma política nacional integrada que aproxime o desenvolvimento do ecoturismo aos objetivos de sustentabilidade social, econômica e ambiental", sugere.

 

 

Atualizado em 08/09/03
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