Estudo fonológico contribui para resgate de língua
indígena
Uma
pesquisa realizada no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp
ajudou uma comunidade indígena a oferecer para suas crianças,
na escola, o ensino da língua de seus ancestrais. Nhandewa
aywu, dissertação de mestrado defendida por Consuelo
Paiva no dia 21 de fevereiro, é um estudo sobre a fonologia
do dialeto nhadewa da língua guarani, falado por comunidades
indígenas do estado de São Paulo e norte do Paraná.
O trabalho contribuiu para a elaboração de cartilhas
para o ensino do guarani, feita por professores indígenas.
"Na
primeira parte da minha dissertação, trato o nome,
a história e as características dialetais dessa etnia,
além das migrações religiosas e do percurso
até a fixação nas áreas atuais",
diz a pesquisadora. Ela explica que muitos índios migraram
em busca do que eles chamavam de "Terra Sem Males", terminando
sua jornada, muitas vezes, no litoral. Outros seguiram para o interior,
fugindo do extermínio.
Na
segunda parte do trabalho, composta por três capítulos,
a pesquisadora apresenta um inventário fonético, ou
seja, o conjunto de sons produzidos pelos falantes da língua;
propõe uma interpretação para a fonologia do
nhandewa; e destaca processos fonológicos, como o espalhamento
da nasalidade de um fonema (vogal ou consoante) para toda a palavra,
e o desaparecimento de uma determinada consoante, chamada de "fricativa
glotal", em certos contextos específicos.
 |
Dona
Adelaide lembra histórias de seus antepassados.
Foto: Cássio Borges |
Essa
pesquisa é a continuidade de um trabalho que Paiva desenvolveu
em sua iniciação científica, ainda na graduação,
como parte de um projeto iniciado em 1998, para resgatar o nhandewa-guarani
falado na reserva indígena do Araribá, no município
de Avaí, interior de São Paulo. Coordenado pelo lingüista
Wilmar da Rocha D'Angelis, que também orientou a dissertação
de Paiva, esse trabalho de resgate foi encomendado pelos próprios
índios do Araribá e contou com a ajuda dos índios
mais velhos da comunidade.
Paiva
afirma que seu orientador, nas entrevistas, alternava o questionamento
de dados lingüísticos a conversas sobre o tempo, a cultura
dos índios, o seu meio e sua história, para não
torná-las cansativas. Ela conta que no intervalo de uma delas,
enquanto D'Angelis lia um texto em guarani, Seu Francisco e Dona
Adelaide, respectivamente tio e mãe do cacique, reconheceram
a história e fizeram comentários entre si em sua língua.
"Eles reconheceram também seus parentes em algumas fotos
do livro", diz Paiva.
 |
|
Dona
Magnólia sofre com a morte do irmão Francisco.
Foto: Cássio Borges
|
Segundo
a pesquisadora, as crianças e os jovens da aldeia também
demonstraram interesse no resgate de sua cultura. Durante a primeira
entrevista realizada com Dona Magnólia, a filha dela cantou
uma canção em guarani paraguaio, com o acompanhamento
do filho do cacique no violão.
Já
na segunda visita dos pesquisadores à aldeia, no entanto,
a entrevista com Dona Magnólia e seus parentes foi bastante
difícil. Todos na aldeia estavam muito abalados com a morte
dos seus dois irmãos em um curto espaço de tempo;
um deles, seu Francisco. Nessa ocasião, ficou claro que o
fim das poucas pessoas que ainda têm o conhecimento do nhandewa
poderia significar a sua extinção.
Os
frutos do trabalho
Os professores indígenas começaram a dar aulas noturnas
de guarani na escola da comunidade, paralelamente ao estudo lingüístico
que eles haviam solicitado. D'Angelis observou que os três
professores voluntários da comunidade adotavam, para alguns
sons, formas diferentes na sua escrita. Após a análise
fonológica e diversos encontros com a comunidade, os índios
adotaram uma convenção ortográfica do guarani
que eles próprios escolheram, padronizando a escrita entre
os professores.
Os
índios elaboraram uma cartilha e um livro de leitura, e os
lingüistas trabalharam apenas como consultores da comunidade.
"Os textos em guarani, escritos pelos professores para esses
livros, são todos com temática cultural indígena",
conta Paiva. Quando eles inseriram as aulas de guarani na escola
da comunidade, começaram pela tradução de palavras
e frases do português para a língua indígena.
Com o passar do tempo, traduziram orações religiosas
e até mesmo a primeira parte do Hino Nacional Brasileiro.
"Isso tem um valor simbólico para eles, porque torna
a língua viva, coloca a língua indígena em
operação, em lugares de prestígio", comenta
D'Angelis, orientador do trabalho.