Pesquisa aponta semelhança entre a queima de biodiesel e
óleo diesel
O
biodiesel tem sido apontado como um combustível que poderá,
a médio prazo, reduzir a dependência dos combustíveis
fósseis. Com viabilidade já comprovada, inúmeras
pesquisas têm sido desenvolvidas no sentido de agregar conhecimento
para tornar o uso do biodiesel uma prática que vai além
dos testes em laboratórios. André Valente Bueno, mestre
em engenharia mecânica pela Unicamp, acaba de defender sua
dissertação, onde mostra que a combustão do
diesel misturado a biodiesel é muito semelhante à
do diesel puro, reforçando a possibilidade do biodiesel vir
a tornar-se um importante alternativa ao uso de combustíveis
fósseis, sem precisar alterar os motores já disponíveis.
A vantagem do biodiesel está no fato de ser um combustível
renovável e menos poluente.
A
pesquisa de Bueno testou o processo de queima do diesel com adição
de 20% de biodiesel (B20) e seu rendimento em motor a diesel. Os
testes experimentais analisaram a liberação de energia
no motor em função da variação de pressão
que ocorriam dentro de seus cilindros. Segundo explica o pesquisador,
quando o motor operou com cargas alta e baixa (dois extremos), o
desempenho do motor diminuiu em 3%. Por outro lado, quando o motor
operava com cargas medianas, o rendimento da mistura combustível
aumentou 3% em relação ao diesel convencional. É
importante lembrar que em grande parte do tempo, o motor trabalha
com cargas medianas (nem tão acelerado, nem tão lento).
Embora o resultado não pareça muito animador para
olhos desatentos, ele se destaca por mostrar que a utilização
do biodiesel em motores a diesel convencionais é viável,
sem precisar alterar o motor original. Constatou-se ainda que a
morfologia da queima deste combustível é consideravelmente
semelhante a obtida utilizando-se o óleo diesel puro, o que
assegura a operação adequada com a mistura B20 em
motores preparados para a operação com diesel puro.
Entre
as vantagens da adição do biodiesel no diesel, pode-se
destacar a diminuição da emissão de enxofre
(poluente), a redução significativa na emissão
de partículas para a atmosfera, responsáveis por causar
doenças respiratórias, e na emissão de gás
carbônico (CO2), poluente que contribui para o efeito estufa.
Além disso, trata-se de um combustível biodegradável,
vantagem que já tem sido explorada por reservas ecológicas
nos Estados Unidos, onde só é permitida a entrada
de barcos que sejam movidos por biodiesel, para não agredir
o ambiente.
O
biodiesel é produzido a partir da combinação
de óleos vegetais (soja, girasol, mamona, milho, canola,
amendoim, babaçu e dendê) com um álcool, sendo
o metanol o mais largamente utilizado por pesquisadores europeus
e norte-americanos. O biodiesel feito no Brasil, por sua vez, utiliza
o etanol, álcool produzido a partir da cana-de-açúcar,
matéria-prima abundante no país. Não se trata,
porém, da simples adição de um produto ao outro,
mas de uma reação, chamada de transesterificação,
que consiste em adicionar um catalisador (substância que acelera
a reação química), que mistura de forma eficiente
os dois compostos. Como produtos desta reação, são
produzidos o biodiesel, um pouco de álcool e glicerina, que
pode ser utilizada pela indústria de cosméticos. O
biodiesel utilizado na pesquisa de Bueno, produzido pela Pontífica
Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), colaboradora
da pesquisa, é o resultado de uma mistura de óleo
de soja com etanol, feita a partir da adição de um
catalisador, cuja fórmula está em processo de patente.
A
utilização do biodiesel a partir da mistura com etanol
apresenta vantagem em relação ao diesel e também
ao biodiesel com metanol, porque contribui para um melhor balanço
da quantidade de carbono no ambiente. Antes do carbono ser emitido
na atmosfera, via combustão, a produção do
biodiesel exige a plantação de soja e cana-de-açúcar,
apenas para citar dois exemplos, processo que retira carbono da
atmosfera para auxiliar no crescimento das plantas, também
chamado de "seqüestro de carbono". Ao contrário,
os combustíveis fósseis são estoques de carbono,
antes isolados no subsolo, e que passam a ser emitidos na atmosfera,
desequilibrando o ciclo de carbono (veja reportagem com esquema
do ciclo
de carbono).
No
campo, onde são consumidos cerca de 15% a 20% de diesel no
país, o biodiesel poderia ser produzido localmente, reduzindo
o pagamento de impostos e gerando empregos.
Algumas
barreiras a serem transpostas
Embora esse combustível alternativo já venha sendo
estudado no Brasil desde os anos 80, é preciso que cada vez
mais pesquisas certifiquem os seus benefícios e o seu desempenho.
O biodiesel é mais denso, viscoso e com poder calorífico
(quantidade de energia) menor que o diesel, características
que alteram o desempenho do motor. Assim, vários estudos
têm sido conduzidos no país e no mundo para testar
diferentes proporções de biodiesel adicionado ao diesel
convencional, para determinar as proporções mais adequadas.
A alta viscosidade e a baixa volatilidade (mistura com ar) resultam
em uma queima incompleta do biodiesel, o que provoca a formação
de acúmulos de carbono nos bicos injetores e nos anéis
de pistões. Desta maneira, justifica-se o cuidado durante
a escolha da proporção de biodiesel acrescido na mistura
combustível, atentando-se para a manutenção
das características originais de queima dos motores.
Mas
até o biodiesel tornar-se o combustível preferido
pelos caminhoneiros e donos de caminhonetes, ainda falta rodar um
caminho um pouco complicado. Existe a questão econômica,
que não é nem um pouco simples. Substituir um império
centenário dos combustíveis fósseis é
algo que não será passível de ser realizado
da noite para o dia. Outro obstáculo aparece na produção
do biodiesel, que embora seja uma técnica já dominada,
teria que competir com o espaço de terra disponível
para as plantações que têm como destino a mesa
dos brasileiros ou mesmo os containers dos portos. "É
questão de nos adequarmos. Pode-se começar com uma
pequena proporção, meio por cento, e já vão
começar a ser identificados os problemas de produção;
sobe-se para 2,5%, e assim, poderia-se estabelecer algum limite
que a relação custo-benefício entre substituir
o combustível fóssil e elevar o preço disponível
no mercado se equilibre ", sugere Bueno. "De início,
o que vai se propor é uma mistura de 2,5 a 5% de biodiesel
no diesel. Eu considero isso mais adequado do que colocar uma proporção
maior", diz. Essa proporção maior é praticada
na Alemanha, onde o consumidor escolhe a quantidade de biodiesel
que quer misturar no diesel de seu carro. A operação
com elevada proporção de biodiesel, além de
exigir rígidos padrões de qualidade para o biodiesel,
pode favorecer a formação de substâncias corrosivas
no combustível, caso ele fique armazenado por muito tempo
no veículo.
O
custo não deve ser considerado um entrave, porque até
agora, o biodiesel não tem sido produzido em escala comercial,
o que o baratearia. Na Alemanha e na Áustria, por exemplo,
já existem mais de mil bombas que abastecem veículos
com biodiesel, produzido com base na colza (uma variedade de couve)
ou óleo reciclado, com preço bastante próximo
ao do diesel.
O
Brasil planeja misturar 5% de biodiesel ao diesel usado em veículos,
em uma parceria feita entre universidades e o Ministério
de Ciência e Tecnologia. A Secretaria de Ciência, Tecnologia
e Inovação do Rio de Janeiro começou, em 15
de janeiro, um processo de implantação do programa
Rio-Biodiesel, que deverá produzir biodiesel em larga escala,
de forma a substituir o óleo diesel convencional.
Para
saber mais veja artigo:
"Perspectivas de utilização no Brasil de biodiesel
como substituto parcial do óleo diesel", de Guilherme
Pianovski Jr., José Velásquez e Ricardo Torres, nos
anais do Congresso SAE
Brasil 2002.