O elo entre água, alimentos e energia no Vale do Paraíba e Litoral Norte paulista 

Pesquisa pretende obter dados de  jovens sobre o consumo de água, alimentos e energia e sobre suas percepções quanto à conexão entre esses elementos

Pesquisadores da Faculdade de Engenharia do câmpus da Unesp de Guaratinguetá realizam uma pesquisa com jovens da região do Vale do Paraíba e do Litoral Norte do estado de São Paulo para entender a percepção e vivência sobre o uso de água, energia e alimentos, e como esses recursos estão interligados.

O projeto, intitulado “(Re)Conectando o nexo: experiências e aprendizado de jovens brasileiros sobre alimentos-água-energia, é desenvolvido em parceria com pesquisadores das universidades britânicas de Birmingham, Leicester e Northampton, e é financiado em conjunto pela Fapesp e pelo Conselho de Pesquisa Econômica e Social (ESRC, da sigla em inglês), uma organização que apoia projetos de desenvolvimento social e econômico em países emergentes como o Brasil.

Do lado brasileiro, a equipe de pesquisadores é coordenada por José Antônio Perrella Balestieri, professor e pesquisador da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá. “Nexo é você entender como mexer em uma das variáveis pode impactar outras. É a relação de dependência que temos entre estes três elementos, e de como o uso de um impacta o outro”, explica.

Em um contexto de crescimento populacional, aumento de consumo e mudanças climáticas, faz-se necessário compreender de forma sistêmica as interações entre o ambiente natural e as atividades humanas, de forma a gerenciar racionalmente os recursos. Portanto, a abordagem proposta pela pesquisa é de analisar a complexa e dinâmica inter-relação entre água, alimento e energia, tentando antecipar potenciais trocas e sinergias entre esses recursos e oferecer respostas viáveis, que atendam aos interesses de diferentes setores envolvidos.

Por suas características, a abordagem do projeto exige um trabalho multidisciplinar, que deve levar em conta fatores sociais, econômicos e ambientais. Por conta disso, a equipe tem profissionais de diferentes áreas. Entre os brasileiros envolvidos, há engenheiros, biólogos, geólogos, especialistas em análise de dados e profissionais ligados à área de educação. Já a equipe do Reino Unido é composta por pesquisadores das áreas de ciências sociais e geografia. “Deste modo, o grupo pode abordar as questões de natureza mais técnica – campo das engenharias – para a implantação de boas práticas visando ao uso racional de recursos naturais, mas sem esquecer os aspectos econômicos, sociais e ambientais envolvidos”, explica Balestieri.

Águas do Vale sob ameaça

A região onde é realizada a pesquisa compreende a porção paulista da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, que se estende pelo Vale do Paraíba, no estado de São Paulo, pela Zona da Mata, na divisa entre Minas Gerais e Rio de Janeiro, e por boa parte do interior fluminense. Seu principal rio, o Paraíba do Sul, percorre uma extensão de 1150 km desde a confluência dos reservatórios dos rios Paraibuna e Paraitinga, até desaguar no litoral norte do estado do Rio de Janeiro.

A bacia compreende uma das regiões mais desenvolvidas e povoadas do país, e é responsável pelo abastecimento de importantes centros urbanos, tais como as regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro. No entanto, a despeito de sua importância, o rio Paraíba do Sul é vítima de um descaso histórico, recebendo toneladas de efluentes industriais e esgoto sem qualquer tratamento.

A degradação do bioma da Mata Atlântica e a alteração dos regimes de chuva por eventos climatológicos fazem com que a bacia possa sofrer processos de assoreamento e ter períodos de escassez de água. Para Paulo Valladares Soares, geólogo e um dos membros integrantes da pesquisa, “algumas medidas precisam ser tomadas para que a água cumpra o seu papel na região – de precipitar, infiltrar no solo e abastecer as nascentes dos rios. Com a atual situação, o que temos é uma limpeza do solo e o seu deslocamento para dentro do leito dos rios. Sem a infiltração da água, não a temos disponível para captação e abastecimento dos rios em períodos de escassez de chuvas”.

Foco no público jovem       

A metodologia da pesquisa consiste na captação e interpretação de dados quanti e qualitativos de cerca de 5 mil crianças e jovens entre 10 e 24 anos da porção paulista do Vale do Paraíba e do Litoral Norte de São Paulo por meio da realização de entrevistas e da aplicação de um questionário. O objetivo é entender como eles utilizam os recursos água, alimento e energia no cotidiano e como percebem a conexão entre os três elementos.

A escolha desta faixa etária para a realização da pesquisa é estratégica, já que hoje, no Brasil, correspondem a aproximadamente 24% de toda a população. Além disso, serão agentes de mudanças necessárias nas próximas décadas. “É este público que estará, em alguns anos, à frente da educação, da gestão pública ou de empresas e comércios. Precisamos começar a pensar em como transferir para eles o comprometimento com a sustentabilidade”, explica Balestieri. “Para isso, é preciso primeiramente realizar um diagnóstico de como eles se relacionam com os elementos da pesquisa, para então estabelecer políticas públicas que conduzam a uma educação para a sustentabilidade”.
Segundo Rachel Nunes Leal, bióloga e pesquisadora do projeto, “o simples fato de responder a um questionário leva a refletir seus hábitos”. Ela exemplifica com o caso de uma escola de Taubaté, no Vale do Paraíba, onde a pesquisa levou os alunos a se mobilizarem e adotarem melhores práticas para a economia de água e energia, assim como para evitar o desperdício de alimentos.

“O questionário, por si só, não tem a função de instruir, mas o que eu tenho observado é que os jovens são levados a pensar e resgatar conhecimentos”. Segundo Rachel, a pesquisa é bem recebida não só por jovens em idade escolar, mas também por professores, pais e alunos do EJA (programa de educação de jovens e adultos). “Quando nos apresentamos como pesquisadores da Unesp desenvolvendo uma pesquisa com colaboração internacional que quer ouvi-los, eles se sentem valorizados. Sentem a atenção do poder público para com a sociedade”.

A etapa de coleta de dados se encontra em fase final. Até o momento, mais de 4 mil jovens responderam o questionário e 48 foram entrevistados, em cerca de 20 municípios. A próxima etapa será a análise dos dados para extrair informações que possam resultar em políticas públicas nas questões envolvendo o a relação água-alimento-energia.

Eduardo Cruz Moraes é formado em ciências biológicas e mestre e doutor em biologia funcional e molecular. É aluno do curso de especialização em jornalismo científico no Labjor e bolsista Mídia Ciência (Fapesp).