Pandemia do coronavírus é roteiro de ficção científica encenado na vida real

Por Caroline Marques Maia, Mariana Hafiz e Rafael Revadam [Imagem: Clay Banks/Unsplash]

Seja no cinema ou na literatura, cenários de vírus desconhecidos, contágio globalizado e isolamento eram explorados muito antes da covid-19

Um animal contaminado com um novo vírus capaz de infectar e adoecer gravemente os humanos é consumido num restaurante na China. A nova doença é rapidamente espalhada pela alta capacidade de transmissão do vírus, causando muitas mortes em diferentes partes do mundo. Enquanto isso, fake news levam desinformação e pânico às pessoas, e a busca por uma vacina segura se inicia. Embora pareça real, não se trata da pandemia atual do novo coronavírus. Essa é a sinopse do filme Contágio, ficção científica de 2011.

Contágio, do premiado diretor Steven Soderbergh, retrata bem a relação entre porcos, morcegos e seres humanos na criação de um novo vírus mortal, e é considerado um dos filmes mais realistas do gênero. “Quando o público redescobre Contágio e se espanta com a sua presciência, temos de lembrar que filmes como esse têm conselheiros científicos – neste caso, o dr. Ian Lipkin, professor de epidemiologia e patologia em duas universidades, além de diretor de um centro de pesquisa de imunologia”, explica Cristiano Canguçu, doutor em comunicação e professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. “Um dos traços característicos de quem escreve ficção científica profissionalmente é gostar e acompanhar a própria ciência”, diz ele, citando como exemplos grandes escritores da ficção com trajetória científica: Isaac Asimov, que também atuou como professor de bioquímica, Robert Heinlein, engenheiro aeronáutico e Michael Crichton, ex-médico.

Para Cristiano, é a partir desse conhecimento acadêmico e de analisar a reação da sociedade ao enfrentamento de pandemias no passado que surgem as obras do gênero. “Os escritores e roteiristas dão o passo seguinte, especulando sobre os conflitos, dramas e temas que daí emergem” afirma. “Isso não é pouca coisa: artigo científico e estatísticas sobre esses perigos não faltam, mas nós reagimos mais a uma narrativa que tome essas matérias-primas e as transformem em emoções e significados”.

 

No filme Contágio, o novo vírus que ameaça dizimar a população humana vem de um morcego, origem semelhante à do novo coronavírus sars-cov-2, causador da covid-19. Imagem: Syaibatulhamdi /Pixabay

A aproximação da ficção científica com a realidade vivenciada hoje pela pandemia da covid-19 não se limita às narrativas sobre os vírus em si. As mudanças em velórios e enterros e o isolamento social são elementos que aparecem em demais obras, conforme explica o pesquisador Jayme Soares Chaves, doutor em literatura comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e especialista em universos ficcionais. “Ver os mortos sendo queimados como lixo, sem direito a um funeral, é como na primeira versão para o cinema de Eu sou a lenda (1964); ou ouvir as palavras de ordem ‘fique em casa!’ lembra o segundo filme da nova série de O planeta dos macacos (2014). E isso nos faz sorrir com desconforto”.

Além das semelhanças, Jayme aponta que um dos riscos da ficção científica hoje é ser atropelada pela realidade. “Se a ficção científica tem a capacidade de se espelhar na realidade, essa realidade é acrescida de especulação”, explica, afirmando que o real ganha tons exagerados na ficção. “No entanto, diante da concorrência desleal com a realidade hoje, me parece que a ficção vai servir menos para sabermos como será o futuro, e mais para entendermos o que é o presente”.

A semelhança entre a ficção científica e o coronavírus é presente em diversos enredos. Desde 1971, com o filme O enigma de Andrômeda, a sétima arte vem explorando temas semelhantes. Esse longa, do premiado diretor Robert Wise, traz a população humana sendo dizimada por uma bactéria fatal vinda do espaço, enquanto cientistas trabalham em busca da cura. A história é baseada no livro homônimo de Michael Crichton.

Nas obras literárias, Stephen King, famoso escritor norte-americano de terror, narrou intensas transformações na sociedade causadas por um novo vírus mortal no livro A dança da morte, de 1978. Mesmo com diferenças em relação à covid-19, o autor explica como funciona o contágio de um vírus. Já a série Explicando, da Netflix, também apontou uma situação bem próxima à nossa atual realidade. Em um de seus episódios produzidos em 2019, indicou que a próxima pandemia seria causada por uma gripe viral originada na Ásia.

Olhar nacional à pandemia

“Em 2020, quando a Terceira Realidade terminou de envolver todo o planeta Terra, uma pandemia global matou mais de três bilhões de terráqueos. Foi um momento muito caótico que durou dois anos. Foi uma pandemia viral psicossomática que penetrava somente em corpos incompatíveis com a vibração de amor ao próximo. Não havia para onde fugir”, – explicou Taraia” (trecho do livro A realidade de Madhu).

 No Brasil, a ficção científica na literatura também citou uma pandemia. A realidade de Madhu, de 2014, nasceu de um sonho da autora, Melissa Tobias. É uma trama de ficção futurística centrada na personagem Madhu, abduzida por uma nave alienígena em que passa a sua “quarentena”, buscando autoconhecimento para semear uma nova realidade.

A autora conta que, apesar de as pessoas terem lido essa passagem isoladamente e a interpretarem com medo, a mensagem central do livro é de esperança. “Depois que reli essa passagem me lembrei do contexto da história que me levou a escrever aquilo”, diz, fazendo referência ao momento em que Madhu tenta superar seus desafios e expandir sua consciência para assumir seu papel de criadora de uma nova realidade.

O futuro

Para o professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e doutor em literatura Ramiro Giroldo, a ficção científica não tem caráter de premonição, ela é cultura. “Parece que as pessoas exigem muito da ficção científica e quando a previsão falha, aquela obra também falhou. E não é assim, a principal preocupação da ficção científica é o interesse estético, afinal de contas trata-se de obras de arte. A gente deve considerar a ficção científica como uma manifestação artística”, afirma.

“Uma coisa importante a respeito da ficção científica é que ela não prevê nada. Os bons autores fazem muita pesquisa”, concorda Fábio Fernandes da Silva, professor assistente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para o professor, que tem quatro livros publicados, entre eles A construção do imaginário cyber e Os dias da peste. “Se às vezes a vida imita a arte, é porque o artista vive e está no mundo. Portanto, ele pegou dados do mundo real e traduziu para o ficcional”.

Para o doutor em multimeios e professor da Unicamp, Alfredo Luiz Paes de Oliveira Suppia, a ficção científica é tão comprometida com a realidade que os elementos que mais se aproximam do real são os que mais impressionam quem consome as obras. Seguindo esse pensamento, carros voadores de um filme como Blade runner podem até causar algum espanto, mas são as possibilidades de um futuro desumano, ruinoso, da recriação de novas formas de escravidão e da distopia ambiental que nos deixam mais impressionados ou chocados. “E isso é realidade, são coisas que já existem, são apenas extrapoladas. Ainda não podemos pegar o nosso carro voador na garagem, mas podemos adoecer com a poluição ambiental (lembremos de Cubatão nos anos 1970/80), morrer de trabalhar (como no Japão) ou servir como escravos (em fazendas no Brasil). Fascismos piores do que regimes autoritários fictícios são realidade, e não ficção científica. Eu diria que a ficção é um gênero realista por excelência”, conclui.

Caroline Marques Maia é bióloga e doutora em zoologia (Unesp). É gestora-diretora do Clube Ciência do Instituto GilsonVolpato de Educação Científica, e comanda o blog ConsCIÊNCIA Animal. Cursa especialização em jornalismo científico no Labjor/Unicamp.

Mariana Hafiz é jornalista formada pela Unesp e cursa especialização em jornalismo científico no Labjor/Unicamp. Trabalhou com divulgação científica de astronomia em espaços não formais.

Rafael Revadam  é jornalista formado pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul, pós-graduado em estudos brasileiros pela Fundação-Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Atualmente, cursa a especialização em jornalismo científico do Labjor/Unicamp.