As origens da aids (Origines du SIDA, Les; 2003)
Dir.:Peter
Chappell e Catherine Peix Eyrolle
Por Rafael Evangelista
Não
há dúvida de que as populações
pobres tornaram-se as maiores vítimas da aids.
Dois terços da população da África
sub-saariana (região que vai do centro do continente
até a África do Sul) é portadora
do vírus, um contingente de 25 milhões
de pessoas, entre adultos de até 49 anos e
crianças. Para combater a doença, os
remédios produzidos pela indústria farmacêutica
dos países do norte do mundo são excessivamente
caros, dada a pobreza da região. Mas além
de não ajudar, os países ricos, ex-metrópoles
do continente, podem também ser os responsáveis
diretos pela migração do vírus
da doença, originário de chimpanzés,
para o homem. A tese, controversa no meio científico,
é o tema do documentário As origens
da aids .
Em
1992, o jornalista da revista Rolling Stone,
Tom Curtis, foi o primeiro a levantar a hipótese
de que a doença teria se originado do uso de
tecido vivo de macacos para a produção
de uma versão teste da vacina anti-pólio.
Entre 1957 e 1959, mais de um milhão de crianças,
na região do antigo Congo Belga, foram objeto
de teste de uma vacina criada pelo médico polonês,
radicado nos EUA, Hilary Koprowski. Curtis relacionou
as áreas de vacinação com o epicentro
do surgimento da doença. A teoria foi violentamente
combatida pela comunidade científica e rapidamente
refutada. Até hoje a hipótese mais aceita
é de que o vírus tenha passado ao homem
pelo manuseio de facas usadas para cortar macacos
usados como alimento. Mas, outro jornalista, o repórter
da BBC, Edward Hooper, aproveitou a hipótese
e iniciou suas pesquisas.
Dezessete
anos depois, Hooper publicou um livro chamado The
river, reunindo um farto material, tratado com
rigor acadêmico, que retomou a hipótese
de Curtis. A publicação atingiu como
uma lança o coração da comunidade
científica. Em seu trabalho, Hooper acusa o
mesmo Koprowaski de ter usado chimpanzés para
o cultivo de sua vacina experimental, contrariando
as recomendações da classe científica
e de Albert Sabin, de quem era colega e adversário
na corrida para o estabelecimento de uma versão
confiável do medicamento.
As
origens da aids conta essa história
inquietante e traz um fato novo de extrema relevância,
entrevistas e imagens que atestam o uso de mais de
400 chipanzés no laboratório que era
comandado por Koprowski. No ano seguinte à
publicação de The river, a
Royal Society – a sociedade dos cientistas britânicos
– realizou um seminário para debater
o tema e reuniu, frente a frente, Koprowski e Hooper.
Ao final do evento, os cientistas britânicos
anunciaram ter encontrado uma última amostra
da vacina experimental produzida no Congo Belga e
enviada aos EUA. Nela, não haveria nem traços
do HIV, nem de DNA de chimpanzé. E esta seria
a prova definitiva.
Mas
o documentário questiona essa evidência.
A amostra, tida como a última, teve sua existência
negada por muito tempo e passou por diversas mãos
– incluindo um centro de pesquisas para o qual
Koprowski trabalha até hoje. Além disso,
ela pertence a um lote de vacinas CHAT (o modelo criado
por Koprowski) que foi produzida no Congo Belga mas
nunca foi aplicada por lá. Na busca por respostas,
As origens da aids entrevista antigos funcionários
e enfermeiros que trabalhavam para o médico,
que contam como os macacos eram capturados e usados
com crueldade em testes de laboratório. Os
depoimentos são acompanhados por imagens de
filmes institucionais mostrando os macacos e louvando
os benefícios da vacinação para
os africanos. A declaração do próprio
Koprowski para a equipe do documentário, negando
o uso de chimpanzés, soa no mínimo inconsistente.
Prática
questionável
De
acordo com o patologista Cecil Fox, um dos entrevistados,
até hoje as vacinas anti-pólio são
produzidas a partir do cultivo de células de
macacos. Segundo ele, o uso de macacos já poderia
ter sido substituído há muito tempo,
o que só não acontece por causa da indústria
farmacêutica, que já tem procedimentos
e infra-estrutura prontos e teria que gastar muito
para substituí-los.
A
indústria, por sinal, foi o primeiro refúgio
de Koprowski logo no início de sua carreira.
Em 1950, ele foi acusado de usar como cobaias 20 crianças
deficientes de um orfanato em Nova Iorque. Com o escândalo,
ele perdeu o financiamento público mas continuou
seus experimentos de 1952 a 1955, prosseguindo nos
testes com humanos agora patrocinados pela iniciativa
privada. Em 1955, a vacina criada por seu concorrente
direto, John Salk, causou a morte de 11 crianças
e deixou outras 260 adoecidas.
Koprowski,
então, voltou a receber financiamento público
e iniciou, com Albert Sabin, um misto de colaboração
e disputa para conseguirem uma nova versão
da vacina. Sabin entrou em acordo com o governo da
União Soviética e fez testes em milhões
de pessoas no Cazaquistão, Letônia e
Estônia, importando macacos asiáticos.
Koprowski, em acordo envolvendo o governo belga e
estadunidense, montou seu laboratório no Congo,
que foi uma colônia até 1960.
Um
ano após instalar seu laboratório, em
1957, Koprowski foi alertado por Sabin de que a CHAT
desenvolvida por ele era altamente instável
e que tinha encontrado um vírus desconhecido,
a que chamou vírus X. Não necessariamente
este vírus era o antecessor do HIV, pois outros
vírus de macacos já haviam sido encontrados
nas vacinas de Salk. Mas Koprowski apenas respondeu
a Sabin de maneira grosseira e ignorou o alerta.
As
origens da aids é especialmente chocante
por mostrar o desdém e o desrespeito com que
as populações dos países pobres,
especialmente das colônias, são tratadas.
Em casos de saúde pública, o princípio
de precaução deve ser a regra básica.
Além disso, mostra como a classe científica
ainda resiste a tratar publicamente de suas ações
e de seus erros do passado. A mensagem é exatamente
essa, enquanto os problemas não forem tratados
de forma ampla e transparente – o que às
vezes significa transpor os muros da academia –
as tragédias continuarão ocorrendo.
Serviço:
As origens da aids está sendo exibido no canal
a cabo Cinemax.
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