Arquivo da tag: Gênero

Gênero e raça na interface tecnociência, cultura e política

Por Márcia Maria Tait Lima e Paula Carolina Batista

O saber da ciência moderna e todo saber hegemônico naturalizou a dicotomia masculino/feminino assim como outras como mente e corpo, razão e emoção, cultura e biologia, relacionando o feminino ao polo menos prestigiado dessas dicotomias. Assim, a ciência tem produzido e reproduzido, ao longo da história, conhecimentos que não atendem os interesses emancipatórios feministas, de “produzir e disseminar saberes que não sejam apenas sobre ou por mulheres, mas também de relevância para as mulheres e suas (nossas) lutas”. Continue lendo Gênero e raça na interface tecnociência, cultura e política

Uma árdua batalha entre forma e conteúdo: o herói de ficção científica e a “neutralidade” de gênero

Por Thais Farias Lassali

A ausência de feminilidade no heroísmo faz com que, de uma maneira geral, personagens com muitas características femininas não sejam vistas como possíveis heróis ou como personagens que possam, de fato, solucionar o problema proposto pela narrativa. Nesse sentido se explica com mais espessura as heroínas: para elas serem aceitáveis como dignas do mínimo de heroicidade, elas precisam ser neutralizadas. Continue lendo Uma árdua batalha entre forma e conteúdo: o herói de ficção científica e a “neutralidade” de gênero

Judith Butler: ‘Boa parte de teoria queer foi dirigida contra o policiamento da identidade’

Eu também fiquei desorientada com o surgimento dos estudos queer como uma afirmação de ‘identidades queer’ que ocorreu em certos lugares na Europa. Agora as pessoas dizem: ‘eu sou queer’, e no momento que a teoria começou, tenho bastante certeza de que quase todos achavam que ‘queer’ não deveria ser uma identidade, mas sim nomear algo da trajetória incapturável ou imprevisível de uma vida sexual. Talvez a afirmação ‘eu sou queer’ deva ser a exibição pública de um paradoxo sobre o qual as outras pessoas devem pensar. Entendo que, em certos contextos, a demanda por reconhecimento dentro de estruturas institucionais e públicas é grande, e que uma forma de conseguir isso é estabelecendo uma identidade.” Continue lendo Judith Butler: ‘Boa parte de teoria queer foi dirigida contra o policiamento da identidade’

Algumas considerações acerca do trabalho de campo numa pesquisa sobre o poliamor no Brasil

Por Antonio Cerdeira Pilão

Este artigo apresenta algumas reflexões sobre a pesquisa de campo realizada no mestrado e no doutorado entre 2011 e 2017 no Programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O termo poliamor, criado nos anos 1990 nos Estados Unidos[1], refere-se à possibilidade de estabelecer múltiplas relações afetivo-sexuais de forma concomitante, consensual e igualitária. É possível classificar três modelos básicos de relação poliamorista que se dividem em “abertas” e “fechadas”. Isto é, no primeiro caso, há a possibilidade de novos amores e, no segundo, temos a “polifidelidade”, ou seja, a restrição das experiências amorosas: Continue lendo Algumas considerações acerca do trabalho de campo numa pesquisa sobre o poliamor no Brasil

Toda nudez será castigada? – Tecnologia, corpo e gênero na era das mídias digitais

Por Richard Miskolci

Aplicativos como o Grindr revelam-se não apenas tecnologias comunicacionais mas também de gênero, já que erotizam o homossexual que passa por hétero incentivando que seus usuários se apresentem de forma convencional. Assim, podem ser encarados como tecnologias contemporâneas de reprodução do gay másculo.

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Nem dentro, nem fora: notas sobre a experiência prisional de estrangeiras em São Paulo

Por Bruna Bumachar

Quando entrei pela primeira vez na Penitenciária Feminina da Capital, na capital paulista, em meados de 2008, deparei-me com uma população que girava em torno de 800 presas, sendo cerca de quase metade composta por não nacionais e a outra metade por brasileiras. Lá se encontravam estrangeiras de mais de 60 nacionalidades, com perfis variados, falantes de mais de 30 línguas, mas que traziam em comum, em 76% dos casos, a maternidade, e, em 95% dos casos, o tráfico de drogas como causa do encarceramento, todas na função de mula. A maioria maciça era primária no sistema carcerário (ao menos no brasileiro), residia anteriormente em seus países de origem e não falava português, único idioma dominado pela quase totalidade de presas brasileiras e funcionários. Continue lendo Nem dentro, nem fora: notas sobre a experiência prisional de estrangeiras em São Paulo

O gênero da ciência ou sobre silêncios e temores em torno de uma epistemologia feminista

Por Larissa Pelúcio

“Elas recebem menos convites para avaliar o trabalho de seus pares. E meninas se veem como menos brilhantes desde os 6 anos”. Editoria de Ciências – El País (1)

A notícia saiu no início de 2017, trazendo dados de duas pesquisas científicas sobre o alijamento de mulheres do campo de investigações acadêmicas. A reportagem é ilustrada pela foto de divulgação do hollywoodiano Estrelas além do tempo. Naquele filme, racismo, sexismo, machismo e conservadorismo político se juntam à alta tecnologia beligerante da Guerra Fria. Nada mais representativo do mundo das ciências. O mundo que tem a razão como seu alicerce. A mesma qualidade que sustenta nossas percepções vulgares sobre o comportamento masculino. Homem => razão => civilização => branquitude => ciência => verdade. Equação que não apareceu nos infindos cálculos das protagonistas do filme, mas que definiu calculadamente o silêncio que se instituiria sobre a participação crucial daquelas mulheres na “corrida espacial”.

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