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Dolly, a segunda criação
Ian Wilmut, Keith Campbell e Colin Tudge

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Dolly, a segunda criação.
Ian Wilmut, Keith Campbell e Colin Tudge. Ed. Objetiva, 2000.

A clonagem de células humanas pela empresa britânica Advanced Cell Technology (ACT), em outubro, pôs fogo no debate sobre os experimentos com embriões humanos e sobre os aspectos morais envolvidos na clonagem. Menos de dois meses depois, a rainha Elizabeth II, do Reino Unido (e também chefe da Igreja Anglicana), sancionava uma lei que proíbe a clonagem para reprodução humana naquele país. Fala-se sobre o assunto em todos os meios de comunicação, desde notícias de jornal até na arte popular. A técnica, consagrada sombriamente na ficção científica, está na boca do povo.

Mas a realidade raramente segue a ficção muito do perto. O assunto "clonagem" não é tão novo - a rigor, existe pelo menos desde que o ser humano aprendeu a lidar com mudas de plantas -, nem implica necessariamente na replicação de indivíduos (as pesquisas seminais com Dolly e as da ACT visam fins terapêuticos). Em um assunto com tanto apelo emocional e religioso, é fundamental que a sociedade tenha conhecimento de causa suficiente para que possa influir nos processos decisórios, de forma a garantir que a legislação reverta em seu favor.

Por isso, o livro Dolly, a segunda criação, de Ian Wilmut, Keith Campbell e Colin Tudge é bastante oportuno. Wilmut e Campbell, do Instituto Roslin, na Escócia, são os dois principais cientistas do grupo que clonou a ovelha Dolly a partir de células de um indivíduo adulto em 1997. A pesquisa foi publicada na revista Nature de janeiro de 1997 (o texto está traduzido para o português no apêndice do livro). Colin Tudge é um dos principais divulgadores científicos da Inglaterra, e foi quem de fato redigiu o texto do livro, baseado em longas entrevistas com os dois pesquisadores.

Não é apenas um relato das pesquisas com Dolly. A primeira metade trata dos fundamentos da biologia molecular. Ali, o leitor é introduzido aos conceitos fundamentais sobre o DNA, herança genética, divisão celular, reprodução e a própria clonagem. Tudo isso serve de embasamento para a segunda metade, que trata diretamente dos detalhes e do significado das pesquisas com Dolly e dos experimentos posteriores com as ovelhas Polly, Molly e Morag, resultantes das pesquisas subseqüentes do grupo de Roslin.

O assunto é fascinante. A biologia molecular mostra os bastidores da vida, os mecanismos intrincados e fantasticamente precisos pelos quais se processa a reprodução dos invidíduos e a transmissão da herança genética. Só pelo tema em si já vale a pena enveredar pelo assunto. Mas a utilidade dessa exposição vai muito além de simplesmente compreender a clonagem: com ela o leitor pode ter acesso ao conhecimento básico necessário para compreender todo o debate sobre biotecnologia presente na mídia.

Em Dolly, Wilmut, Campbell e Tudge escolheram uma abordagem histórica para expor o assunto, ainda que não totalmente linear. À medida que mostram os porquês de cada passo, vão expondo os fundamentos mais básicos da biotecnologia e passando ao leitor a noção do método científico, da necessidade da abordagem crítica, da precisão e a idéia de que uma descoberta espetacular que aparece nos jornais é a culminação de um extenso período de pesquisa básica anterior. Enfim, noções preciosas para a compreensão do processo científico. Na divulgação científica, o método e a importância da abordagem crítica podem ser tão importantes quanto o assunto em si são eles que vão dar ao leitor a capacidade de usar seu senso crítico no seu cotidiano.

Pelo mesmo motivo, foi necessário que os autores mostrassem as críticas a seu trabalho vindas dos próprios cientistas críticas que não foram fracas. Dolly não é uma unanimidade. A crítica que mais repercutiu na mídia não por ser a mais contundente, mas por ser a que requer menos conceitos técnicos para ser compreendida foi a exigência de alguns cientistas de que o experimento fosse reproduzido. A reprodutibilidade dos resultados dos experimentos é fundamental nas ciências naturais, pois é ela quem garante que o resultado não se deveu à mera sorte (ou mesmo à fraude). Wilmut, Campbell e Tudge defendem-se dessas críticas e de diversas outras.

O assunto não é simples e, como em toda a biologia, proliferam os termos técnicos. Eles são explicados de forma bastante compreensível na primeira vez em que se fala deles, mas são usados copiosamente ao longo de todo o texto. Além disso, a obra peca pela quase total falta de figuras, necessárias na descrição de mecanismos complexos e que envolvem coisas invisíveis a olho nu. Há apenas uma ilustração esquemática, além de algumas fotos dos pesquisadores, das ovelhas e de imagens no microscópio. Isso pode tornar o assunto muito abstrato para o leitor.

Os autores tentam, ao longo de todo o texto, desmistificar vários aspectos da clonagem. Anos de ficção científica e o apelo emocional e religioso do tema tornam difícil separar mitos de realidades. Por exemplo, a clonagem produz indivíduos só fisicamente iguais, mas não há relação entre suas personalidades, pois o ambiente tem papel fundamental. Mesmo gêmeos idênticos vivendo sob o mesmo teto têm em geral personalidades bem diferentes.

O primeiro conceito a ser desmistificado é o da própria clonagem. Os autores não dão uma definição curta e rápida para o termo, mas dão a entender que trata-se de replicação de invidíduos idênticos geneticamente. Por conseguinte, plantar mudas de árvores já constitui clonagem, como eles mesmos observam. Também os autores fazem questão de ressaltar que todas as pesquisas por eles citadas nos últimos 20 anos sobre clonagem de mamíferos teve com objetivo principal não a replicação de indivíduos, mas aperfeiçoar a obtenção de células-tronco, tipo de pesquisa muito promissor na Medicina. Teoricamente, é possível, por exemplo, gerar tecidos ou órgãos a partir dessas células-tronco que podem ser usados em transplantes.

Mesmo assim, os autores reservam um capítulo inteiro ao tema da clonagem humana no final do livro contra a qual fazem questão de se posicionar. "A clonagem humana capturou a imaginação das pessoas, mas isso não passa de desvio, é meramente uma diversão - e uma diversão que nós pessoalmente lamentamos e que nos desagrada", afirma Wilmut.

Atualizado em 10/12/01
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