As múltiplas identidades na militância de gênero

Por Juliana Passos

A chuva torrencial que caía em Florianópolis no começo daquela tarde já preparava as integrantes do coletivo Marias vão com as outras para receber um menor número de meninas. Se, no dia anterior, tinham recebido a turma completa, com as 31 inscritas, parecia que não receberiam mais de dez. Mas, aos poucos, a sala reservada no horto florestal foi lotada pelas participantes, vindas de todos os cantos da cidade, de escolas públicas e particulares, com idades entre 10 e 14 anos, para participar de diversas oficinas de empoderamento feminino ao longo da semana. 

Uma das atividades foi uma espécie de caça ao tesouro, mas o que tiveram que encontrar eram objetos e frases bastante comuns (e incômodas) no processo de se tornar mulher. Quem nunca se incomodou com a famosa frase “e os namoradinhos?”. Já na roda de conversa, uma das meninas comenta que a pergunta, ouvida há vários anos, e dita até mesmo pelos pais, é bastante constrangedora. “Não preciso disso para ser feliz. Talvez mais tarde, mas não agora”, afirma. Luisa Vieira, psicóloga e uma das ministrantes da oficina, lembra que, além de a cobrança começar muito cedo, não se considera a opção de uma namoradinha, em vez de um namoradinho. E que elas podem, inclusive, não se identificar com o gênero que foram designadas ao nascer, como ficaram sabendo, na conversa, com Nicolas, homem trans, no dia anterior.

A escola foi o local da maioria das experiências em que notaram as divisões de gênero. Uma delas contou que as estudantes foram proibidas de usarem shorts em seu colégio, porque impedia a concentração dos meninos e, indignada, reclamou “em vez de ensinarem os meninos a se comportarem, impediram a gente de usar shorts no calor do verão”. Em outra escola, as meninas que queriam jogar bola ouviam de alguns colegas que são “café com leite” ou que “isso não é coisa de menina”, e o colégio chegou a impedir os jogos mistos, para evitar que os garotos machucassem as meninas por falta de controle no uso da força. Indignadas, recorreram ao grêmio estudantil e conseguiram reverter a decisão da diretoria.

Na oficina seguinte, o grupo discutiu a relação com o próprio corpo e com o dos outros, o excesso de julgamento e o assédio. Para a surpresa da doula e psicóloga Virgínia Vianna, o número de casos de assédio relatados foi expressivo, e causou reação variada nas famílias. Algumas acionaram a loja onde a menina foi abordada, mas não receberam explicações, outras culpabilizam o modo de vestir por atrair comentários ofensivos.

A ideia da criação do curso partiu da professora de português Gabriela da Silva, inspirada no Girls Rock Camp, que acontece em São Paulo. Ela também levou em consideração a notícia da existência de uma escola para princesas, e a aprovação da lei que veta a discussão de gênero nas escolas de Florianópolis – ainda que o tema esteja presente nas diretrizes do Ministério da Educação (MEC). Para colocar a ideia em prática, Silva chamou outras amigas com experiência na discussão de gênero e lançaram um financiamento coletivo para custear o curso e contribuir com quem participou com as oficinas. A simplificação do curso para “desprincesamento” não é a que mais agrada às organizadoras. “Não gostamos dessa oposição direta princesa/desprincesamento. Se é uma opção da mulher ser uma princesa, ter filhos, isso não é um problema. Mas ninguém escolhe ser submissa. Submissão não é uma opção”, comenta Izabele Cristina da Silva.

O curso está inserido dentro de uma das vertentes do feminismo chamada “feminismo interseccional”, que considera importante estar atento à raça e classe. “Eu digo que sou feminista, mas como você perguntou, digo que é interseccional. Eu sou mulher e negra, mas, por ter ensino superior, sou diferente da maioria das mulheres”, diz Silva. “Entendemos que há outros privilégios”, emenda Rafaella Machado.

A pesquisadora do Centro de Estudos da América Latina e Caribe da Universidade de Massachusetts-Amherst, Sônia Alvarez, afirma, em artigo, que a pluralidade do campo feminista tem aumentado desde a década de 1970, dentro da segunda onda do feminismo, embora identifique que a heterogeneidade tenha se amplificado a partir dos anos 2000, e tenha deixado de ser mainstream para uma atuação sidestream, ou seja, mais próximo de organizações autonomistas (sem filiações partidárias), e se organiza de forma horizontal.

Essa organização é colocada pela pesquisadora como uma forma de reação à institucionalização do feminismo que marca a década de 1990. “Mesmo que haja maior visibilidade das negras, das “jovens” e das mulheres dos setores populares e/ou anticapitalistas marginalizadas durante o auge do neoliberalismo, a hegemonia do campo hoje é indeterminada ou, no máximo, disputada. Com o crescente sidestreaming das ideias e práticas feministas, presenciamos, por um lado, uma multiplicação de feminismos populares na cidade e no campo”, escreve.

Didaticamente e para fins de estudos, as pesquisas na temática de gênero trabalham, ainda que para criticar, com a ideia de ondas do feminismo que focam picos de mobilização, especialmente nos Estados Unidos e países europeus. A primeira onda, explica a professora do Departamento de História da UFSC, Joana Pedro, vem como um reflexo da abolição da escravatura, no final do século XIX. As mulheres abolicionistas, intelectualizadas e pertencentes à elite, passaram a lutar pelo direito ao voto, que havia sido concedido aos homens negros anteriormente escravizados. A Segunda Guerra Mundial é outro marco dessa primeira onda, quando as mulheres passam a ser assalariadas – ainda que muitas trabalhassem, era comum que o dinheiro fosse entregue ao homem. Além de lutarem pelo voto, as sufragistas reivindicavam o direito a um salário, ao estudo e à herança.

A chegada de métodos contraceptivos mais eficazes até então, seja com a pílula, diafragma ou DIU, marcam a segunda onda, voltada para o prazer, direito ao corpo, ao aborto, e tem como lema “o privado é político”, como forma de chamar a atenção para o tratamento que tinham em suas casas. No meio dessa segunda onda, a partir dos anos 1980, em vez de luta pela mulher, já havia mudado para mulheres, no plural – porque as mulheres vivem em muitas realidades – passou-se a usar o termo gênero, também com o fortalecimento do ativismo gay.

A proposta era “reforçar a ideia de que as diferenças que se constatavam nos comportamentos de homens e mulheres não eram dependentes do ‘sexo’ como questão biológica, mas definidos pelo ‘gênero’ e, portanto, ligadas à cultura”, escreveu a pesquisadora em artigo publicado em 2005. “Há quem diga que vivemos uma quarta onda desde a década de 1990, com a visibilidade trans”, diz Joana Pedro.

A historiadora reforça que a divisão por ondas é uma maneira didática de olhar para as contestações de gênero. Ao longo desses períodos houve diversas correntes de pensamento, mas de menor repercussão. Ela comenta que as reivindicações pelo direito ao corpo e ao prazer já existiam na primeira onda, mas não com tanta força, assim como na segunda onda emergiu um feminismo mais puritano, que é contra a prostituição e a pornografia. Discussões que permanecem até hoje.

Amara Moira lembra com emoção das manifestações realizadas há dois anos contra as frases transfóbicas encontradas em banheiros da Unicamp. Foi o início do coletivo TransTornar, com cinco estudantes trans da universidade. “Conseguimos apoio de outros movimentos e fomos para o bandejão (restaurante universitário) protestar. Em uma semana, conseguimos duas manchetes com a palavra transfobia no Correio Popular, um jornal bastante conservador de Campinas”, conta, orgulhosa.

Mesmo com a velocidade da Unicamp em conceder o nome social, estudantes trans precisam ter paciência para lidar com a burocracia. Ainda que seja possível imprimir o comprovante de matrícula com o nome social, a biblioteca mantém o antigo.

Há muita dificuldade nas instituições. Muitas vezes, é preciso estar com documentos nas duas formas, com nome antigo e atual, mas obter é difícil, pois já não há mais os dois registros. Moira desistiu de enfrentar a burocracia para a modificação do currículo Lattes. E, no banco, relata novas dores de cabeça. “Deram um cartão com meu nome social, mas, quando vou ao caixa, não consigo provar que sou eu”.

Doutoranda em literatura, Moira é travesti e prostituta, e não vê como dissociar as lutas pela visibilidade trans da prostituição. “O fato de 90% das mulheres trans estarem na prostituição faz com que a sociedade nos veja como 100% prostituta. É preciso lutar contra a compulsoriedade da prostituição e a precariedade do trabalho. A travesti vai receber menos, ficar mais na rua, mais refém de violência. Como não tem inserção no mercado, todas estão lá, aquelas que querem e as que não querem”, diz. A inserção no mercado formal de trabalho é a demanda mais urgente do movimento trans e, dentre as conquistas, Moira cita o abatimento de imposto que algumas prefeituras concederam às empresas que contratarem travestis e transsexuais.

Em encontros militantes e para discussões de gênero e sexualidade, a doutoranda confessa que já não sabe como reagir quando encontra alguém que se diz feminista. “Eu me apresento como feminista, para as pessoas não acharem que só falo de questões trans. Mas já não sei se comemoro, ou não, quando encontro uma mulher feminista”. O embate mais recente com feministas que não aceitam a militância de mulheres trans ou prostitutas enquanto feministas, aconteceu na página da Marcha das Vadias, do Rio de Janeiro, no Facebook, que teve como tema o turismo sexual como tabu. Por usar seu nome social na rede, integrantes dessa vertente do feminismo conseguiram bloquear o perfil de Moira com denúncias de que era falso.

A fragmentação dentro dos movimentos de gênero foi uma preocupação do coletivo Revolta da Lâmpada, criado em 2014, em São Paulo, quatro anos depois de um grupo de pessoas de vários gêneros e orientações sexuais ter sido agredido com lâmpadas fluorescentes.

Para o coletivo, foi essa fragmentação que permitiu o avanço do conservadorismo. “O coletivo surge como uma plataforma para unir as minorias oprimidas, que, juntas, são maioria, contra um inimigo que acreditamos estar muito organizado. A principal tentativa da revolta é transformar a interseccionalidade. Não é só lutando pelo seu próprio umbigo que você vai trazer mudanças estruturais na sociedade”, aponta o coletivo. O grupo organiza uma marcha anual, e tem como mote “a revolta pela liberdade de todo corpo”. Ao longo do ano, faz oficinas em todos os espaços possíveis, em todas as regiões da capital paulista.

Por ser horizontal e reunir muitas demandas, as entrevistas concedidas são sempre creditadas em nome do coletivo, para equilibrar o protagonismo de lutas. Nessa mesma lógica, o coletivo evita aceitar convites para palestras e cursos. “Quando aparecem esses convites, avisamos para as pessoas organizarem algo na sua região, e nós auxiliamos com metodologia e ideias”, explicam.

A filósofa Angela Davis, que integrou o grupo Panteras Negras e Partido Comunista dos Estados Unidos, é citada pelo coletivo Revolta da Lâmpada como uma grande inspiração. Davis assina, com outras mulheres, um manifesto lançado após a Marcha das Mulheres realizada dia 21 de janeiro, nos Estados Unidos. O texto convoca uma greve geral para o 8 de março, dia internacional das mulheres, e reivindica um feminismo para 99% das pessoas. “Usemos a ocasião deste dia internacional de ação para acertar as contas com o feminismo do ‘faça acontecer’ e construir, em seu lugar, um feminismo para os 99%, um feminismo de base, anticapitalista; um feminismo solidário com as trabalhadoras, suas famílias e aliados em todo o mundo”, finaliza o manifesto. Para a historiadora Joana Pedro esse é um feminismo novo, que está emergindo, e ainda precisa ser construído. É um feminismo mais popular, em oposição ao das primeiras ondas, que eram encampados por mulheres de classe média alta e intelectualizadas.