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Presença do Leitor : "A Língua Portuguesa corre perigo?!", por John Robert Schmitz

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Jorge Claudio Ribeiro
professor da PUC-SP

Oi classe. Hoje todos e todas vão estar fazendo um exercício de desbloqueio lingüístico e mental, bem na linha de um tipo de pensamento complexo. Não significa que eu estou seguindo só o Morin (pronuncia-se Morrã) mas que estou resgatando um pouco do Marx, do Freud, do Paulo Freire, do Pessoa, da Melanie. É algo assim mais holístico, entende?

A gente foi acostumada a uma visão única da realidade, onde aparece no Consenso do Washington e tem raízes profundas no milênio passado, aonde surgiram todas aquelas Cruzadas, Inquisições, estalinismos, fascismos, mecanicismos e vários outros ismos. E quem não estava rezando pela cartilha oficial, pelo dogma, acabava sendo colocado, na melhor das hipóteses, no banco dos réus quando não ia para lugares mais quentes. Isso está ficando de tal forma presente que, a nível do cotidiano, o máximo de vida inteligente a que as pessoas estão se permitindo é assistir televisão.

Estar abrindo um livro se torna quase uma revolução pessoal, um ato subversivo. A indústria cultural está invadindo todos os cantos do nosso cérebro, está parasitando as nossas relações e mesmo a vida política. Estamos virando um bando de consumidores solitários, aprisionados em mais ou menos confortáveis baias, nos alimentando da fast food cultural que estão nos empurrando goela abaixo.

Até na nossa linguagem. Nós estamos nos acostumando a vários tipos de gíria (profissionais, esportivas, sociais). Todo mundo está falando as mesmas palavras, está usando o mesmo jeito de construir frases, está pronunciando com o mesmo sotaque daquelas gracinhas da MTV (vocês já perceberam que elas e eles fazem biquinho pra falar?). É como estava dizendo o bardo Juca Chaves, acho que foi ele: "Vence na vida quem diz sim!".

Nós não podemos estar nos conformando com a idéia de que o arranjo atual das coisas "foi sempre assim", que a História acabou, que estamos vivendo no melhor dos mundos. Por que se assim estivermos fazendo, estaremos dando razão à tradição construída pelos opressores, ao pensamento único, estaremos contribuindo para a morte da biodiversidade.

No entanto, como dizia Copérnico (?): "Eppur si muove".

Então, vamos estar dando as mãos ao filósofo Heráclito onde diz que "não se consegue entrar no mesmo rio duas vezes". Tipo assim: a vida é dinâmica, nada é estático, tudo passa ("até uva passa"... há, há, há!) e, portanto precisamos estar mergulhando ativamente no fluxo da vida. Ao invés de estar repetindo o já dito, e como foi dito, devemos estar criando nossas próprias formas de pensar, de dizer, de agir, de nos relacionarmos e que reflitam o processual da existência, suas contradições.

Para traduzir tudo o que estive falando até agora, vamos estar fazendo o tal exercício de desbloqueio. É assim: à medida em que os pensamentos vierem à sua própria mente, cada um vai estar escrevendo. Depois de um espaço de tempo de cinco minutos, vocês vão estar passando seu texto para o colega à esquerda, que o estará ampliando com a própria criação e assim por diante. Sejam bem criativos em termos de linguagem; assim o pensamento ganhará novos espaços e vocês crescerão à nível de gente.

Então tá...

SOBRE "TÁ"

Meu editor conta que um leitor (não disse quem é, nem perguntei) reclamou de meu texto, "Tá", levado a público outro dia. "Como é que vocês publicam um artigo tão mal escrito?", cobrou ele. Matreira, a editora passou a bola adiante.


O lance é o seguinte. Quem liga quando o coração, o pulmão e adjacências funcionam bem? Quem sente o cheiro do ar puro ou o gosto da água límpida? As mazelas e as impurezas infelizmente são mais percebidas do que as boas condições.

Pois bem. A língua, no caso a portuguesa, é nossa ecologia comum. Se todo mundo falasse e escrevesse direito, sem poluição, ninguém perceberia. Ocorre que, infelizmente, nossa sociedade e (oh, céus!) também a universidade estão falando e escrevendo tão mal, usando uma linguagem tão engessada e cheia de cacoetes, que muito poucos percebem.

Então, caro leitor, para chamar a atenção sobre os atentados à nossa inculta e (ainda) bela, excogitei fazer uma caricatura sobre tais práticas. Sobretudo a mania de usar o "tá", que infesta desde as aulas de pós-graduação até as moças que fazem atendimento de telemarketing, passando por consultórios de psicologia e oficinas de psicopedagogia. Conclamo a todos: vamos estar matando o "tá", como se matam baratas. Abaixo o gerundismo.

Uma das armas é a ironia, que usei. Ridendo castigat mores, dizia um filósofo (quem?). Lembre-se: "A bom entendedor, meia pala... bas...". E acrescento: um verbo, melhor que dois verbos.

 

 

 

Atualizado em 10/08/00

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