A lógica do destino

Por Carlos Vogt

Maurice Blanchot, na parte III – “De uma arte sem futuro” – de O livro por vir (Martins Fontes, São Paulo, 2005) ao tratar de Hermann Broch (1886-1951) autor, entre outros, de Os sonâmbulos (1928-1931) e de A morte de Virgílio (1945), seu romance mais famoso e um dos mais importantes da literatura ocidental, aponta e analisa com perspicácia poética a vertigem lógica da obra desse escritor vienense perseguido pelo nazismo e conhecedor, por tê-las vivido, das misérias das prisões de Hitler.

Os sonâmbulos é uma trilogia que trata do destino da Alemanha imperial, do brilho ao desmoronamento em 1918 e é composta dos livros Pasenow ou o romantismo, 1888Esch ou a anarquia, 1903, e Huguenau ou o realismo, 1918.

Escreve Blanchot, no capítulo II, da parte III de seu livro, sob o intertítulo “O destino é a lógica”:

“Em Guerra e paz, Tolstoi também tinha tentado coroar uma obra romanesca com uma interpretação da história. Mas o comentário final não conseguiu desfazer o romance, nem rebaixar a prodigiosa realidade das figuras cuja insignificância ele pretendia demonstrar-nos. Em Os sonâmbulos, assistimos ao aparecimento de uma nova forma de destino: esse destino é a lógica. Não são mais homens que se digladiam, nem acontecimentos que se chocam, mas os valores de que essas pessoas são os protagonistas ignorantes. Não há mais rostos, mas máscaras; não são mais fatos, mas potências abstratas junto às quais os seres agem, como figuras de sonho. O crime de Huguenau é um crime lógico. Ele não mata por motivos ideológicos, ou por frias razões bem meditadas e seguidas até o extremo. Mata por acaso, aproveitando a ocasião oferecida pela desordem dos dias de motim. Mas não há acaso nesse deserto abstrato onde os homens se agitam e onde os valores mais mesquinhos triunfam necessariamente sobre os valores mais vastos e mais complexos. No interior do mundo que é o seu, o mundo do sucesso, Huguenau só pode destruir aquilo que o estorva. Ele não terá nem remorso, nem mesmo lembranças de seu ato. Não percebe, em nenhum momento, o caráter irregular desse ato. Não é um herói de Dostoiévski, o tempo dos Demônios já passou. Temos, em Huguenau, o primeiro dos homens comuns que, protegidos por um sistema e justificados por ele, vão tornar-se, sem nem ao menos o saber, burocratas do crime e contadores da violência.”

Encerrando o capítulo dedicado a Hermann Broch, Maurice Blanchot escreve sobre a obra maior do escritor austríaco:

A morte de Virgílio, de fato, não é apenas o desenvolvimento de uma experiência pessoal, mas um mito, em esforço para representar simbolicamente o saber e o destino de toda a civilização ocidental. Outro traço essencial. Assim como a história de Leopold Bloom deve ser lida no contexto da Odisséia, assim como o destino de Adrian Leverkühn é uma reanimação de Fausto e José e seus irmãos uma tentativa de levar de volta a narração à juventude de suas fontes míticas, da mesma forma Broch buscou, num nome antigo e numa lenda, os recursos de uma narrativa capaz de nos falar, a partir de um mundo que fosse para nós próximo e estranho. Sua tarefa não era fácil. O que é Virgílio para nós? O que é Roma? Mas, na medida do possível, ele conseguiu. Seu livro escapa, em parte, aos artifícios da narrativa histórica, e é com uma real força de verdade que pouco a pouco se impõe a nós a grande presença melancólica do poeta, a gravidade de seu destino, seu mundo, o pressentimento da reversão do tempo que também nós pressentimos.

Seria fácil relacionar a origem de Broch, nascido em Viena, não longe de Hofmannsthal, com a sensibilidade latina que, no momento em que vacila a herança de Roma, o convida a despertar suas sombras, a reconhecer-se nelas – pois Virgílio é Broch – e a garantir sua salvação: é verdade que pela morte. Aqueles que gostam dessas explicações dirão que Broch deve a seu duplo patrimônio, e de seu passado vienense e o de seu passado judaico, a complexidade de dons e a ousadia de tentativas temperadas, mesmo em seus excessos, por certa harmonia clássica. Heinz Politzer, que foi vê-lo em Princeton depois da guerra, reconhece nele um conselheiro da antiga corte da Áustria: nos usos, na polidez, na elegância, na sedução espiritual; mas seu rosto, duramente esculpido, exprime o rigor doloroso de um pensamento muito antigo. Esses traços opostos, mais do que um apanágio de nascimento, são os sinais de uma vocação. Como todo artista moderno, como Joyce, ele teve uma grande preocupação com a arte e uma grande desconfiança dos meios da arte, uma grande cultura e um grande fastio pela cultura, uma paixão intelectual que quer ultrapassar, superar a inteligência e que se exalta em visões místicas. Disseram-nos que ele esteve sempre em grande familiaridade com a morte, no entanto sem pateticismo e com um sentimento alegre, quase mozartiano, que, até nas prisões de Hiltler, permitiu-lhe brincar com ela e mesmo zombar dela. É finalmente essa confiança e essa brandura que se exprimem em A morte de Virgílio: canto fúnebre, réquiem à maneira de Fauré, que nos convida quase ternamente a forçar as portas do terror para descer, precedidos de nossa memória amorosa, até o ponto em que se realiza a felicidade ou o saber do círculo. Estranha felicidade, obscuro saber de que Hofmannsthal também nos falou: ‘Quem conhece o poder do círculo não teme mais a morte’; e Rilke, que é da mesma família: Gosto quando o círculo se fecha, quando uma coisa se junta à outra; ‘Não há nada mais sábio do que o círculo; ‘O anel é rico por seu retorno’”. 

 

Este texto reproduz quase integralmente a parte IV, do ensaio “Clones, utopias e ficções”, do livro A utilidade do conhecimento, Editora Perspectiva, São Paulo, 2014, p.48-50.