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Artista propõe sistema para impedir reconhecimento de face por computador
Por Cristiane Kampf
19/10/2011

Como se esconder de uma máquina? Adam Harvey é um artista e tecnólogo americano formado em Telecomunicações Interativas, na Universidade de Nova York, que tem focalizado essa questão em seus trabalhos, como forma de instigar a contra-vigilância e a proteção da privacidade. Os meios que usa para a problematização desses temas, cada vez mais atuais, vão desde a visão computacional até o design interativo, com o uso de computadores que podem ser vestidos (wearable computing). Um de seus projetos é chamado CV Dazzle (Computer Vision Dazzle) e, como o próprio nome diz, é destinado a confundir ou cegar os sistemas de reconhecimento facial. A palavra dazzle faz referência a um tipo de camuflagem utilizada durante a Primeira Guerra Mundial pelos navios, com o objetivo de dificultar a identificação do tamanho e da direção da embarcação pelos radares.

Nesse projeto, o artista monta diferentes combinações de maquiagens, estilos de cabelo e outras modificações do rosto visando impedir que os algoritmos identifiquem as principais partes que permitem o reconhecimento da imagem da face humana, ou seja, a parte entre os olhos, onde testa e nariz se encontram, e a parte abaixo dos olhos, onde ficam as olheiras. Neste sentido, a proposta de Harvey, não é a do uso de um disfarce simplesmente ou de uma máscara (com uso em público proibido em alguns estados nos EUA). O artista propõe modificações simples, mas localizadas nessas partes do rosto que as máquinas reconhecem, de forma que tais mudanças sejam confundidas com uma nova estética, ou moda.

CV Dazzle, que começou como uma proposta de tese, parte, portanto, da compreensão de como funcionam os algoritmos de reconhecimento facial para propor o que o artista chama de ‘anti-rosto’, ou uma face indetectável, que subverta as características faciais e os padrões de contraste normalmente esperados pelas máquinas. A construção desse anti-rosto é obtida a partir de softwares e uma versão open-source do programa está sendo preparada para que outros interessados possam participar, de forma colaborativa, como programadores ou designers.

Disseminação das tecnologias biométricas

Os programas de reconhecimento facial são parte de um conjunto maior de tecnologias biométricas, no qual se incluem também a identificação de pessoas através do mapeamento da retina, da impressão digital e o reconhecimento de voz, dentre outras. Tais características corporais vêm sendo proclamadas como únicas em cada corpo humano e, portanto, como algo que permite a verificação da identidade ou reconhecimento de uma pessoa.

As tecnologias biométricas fazem parte de muitos sistemas de vigilância adotados hoje em dia, como os usados em aeroportos ou mesmo nas ruas, onde pessoas filmadas por câmeras de segurança podem ter sua face reconhecida. No site do CV Dazzle, Harvey afirma que o reconhecimento de faces é a tecnologia biométrica que mais cresce atualmente.

O reconhecimento facial também está presente em redes sociais, como Facebook, o qual Harvey utilizou para testar suas propostas. No link http://vimeo.com/12308527 é possível ver que o sistema automático de reconhecimento do Facebook não consegue detectar a imagem de um rosto com certa maquiagem e estilo de cabelo criados por Harvey. O artista faz o upload de várias imagens do rosto e o sistema responde com a impossibilidade de encontrar faces similares. “O CV Dazzle é uma tecnologia antagônica, pois vai contra a tendência atual da adoção generalizada de reconhecimento de faces. Muitos estudos atuais provam que nos dias de hoje é absolutamente possível identificar pessoas nas ruas, usando uma imagem do rosto e as informações disponíveis nas redes sociais, como revela uma reportagem da Economist, de julho deste ano, intitulada Anônimos nunca mais, informa Harvey.

É interessante notar que nesta reportagem, o Brasil é citado logo no segundo parágrafo como exemplo de país onde as tecnologias de reconhecimento de face passarão a ser cada vez mais usadas, em especial com a Copa de 2014. De acordo com o texto, nesta ocasião policiais usarão óculos com mini-câmeras embutidas para tirar fotos de rostos e comparar com bases de dados de criminosos. Outras matérias internacionais também têm citado o crescimento das possibilidades de vigilância e monitoramento no Brasil a partir dos mega eventos esportivos. Já, em outros países, o mesmo sistema já é usado para identificar participantes em protestos contra o governo, por exemplo. Nesse cenário, as propostas de Harvey adquirem uma concretude que afasta o que seriam possibilidades apenas ficcionais, tais como as tentativas de driblar o reconhecimento das máquinas tematizadas em filmes como Minority report (2002), ambientado em Nova York no ano de 2054, e inspirado no conto de Philip K. Dick. Fugir ao reconhecimento das máquinas não é mais apenas ficção e está nem tão distante de nós.