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Editorial
Manual do novo peregrino*
Por Carlos Vogt
10/06/2015
Para Nelson Brissac Peixoto

Nunca mais construir a imitação da excedência da luz,

nunca, digo, não por vontade de indivíduo pleno ou por

[ensejo,

antes por imposição de pessoa, pacto de imagens,

[planificado e plano,

este que transforma um guarda-roupa de subjetividades

num ícone errante de dor, angústia, programa de saudades.

Nunca mais o cão alarido atrás de grades familiares,

solo de andarilhos, pose de esfinges, solidão de bares,

nesses de gravuras que vendem fórmulas prontas de

[dramas finos,

esses que se fazem das mãos cheias de despojos,

como museus de bobagens nos bolsos de meninos:

pedra de bugalho, guimba de cigarro, luz de vaga-lume,

[canto de cigarra, entulho de desejos.


Posturas, pois, sem erros e atropelos, ali no lugar devido,

como um navio atracado ameaça navegar o cais,

salão em que o mocinho se encontra com o bandido,

e os dois são únicos no mesmo enredo, são um e muitos

[em muitas capitais.

Se já não há perguntas com respostas para a embriaguez

[das circunstâncias,

por simplicidade de método, para encurtar o não,

resumo o programa em que se fundem a linguagem com

[o outro, a imagem com o chão:

agarrar a tolice, como o samurai a mosca, com a espada

[da bebida,

trocar o aéreo pelo sóbrio, a chama pelo jogo, a sombra

[pelo líquido,

ser paciente e boi, nos olhos, no cansaço, nas faltas e

[abundâncias,

ruminar detalhe por detalhe, grama por grama, areia por

[estrela, símbolo por ação,

desconstruir o sonho pela vida, a vida pelo enigma, o enigma

[pelo óbvio,

ser banal e bobo na banalidade de ser um e múltiplo, mas

[não ser ubíquo,

resistir heróica e inutilmente à utilidade da palavra,

como pássaro se perde de si próprio no canto solitário que

[a gaiola agrava.

Nunca mais o estilo decidido, nunca mais a ilusão do real

[pelo real,

tampouco a explosão semântica do símbolo cindido,

no modo ambíguo de falar de si para esconder-se mais;

agora não será preciso correr com o espelho sobre o objeto

[mudo,

no movimento vão de armazenar o mundo,

de construir represas para conter os furos,

de fabricar armários de guardar cascalhos;

não penetrar paisagens pela dimensão da profundidade que

[elas não têm,

ser lateral e plano na exclamação cruzada de suas

[molduras,

ficar parado e móvel nas ruínas de cenários como um

[cenário em ruínas,

habitar a interface do mundo com o muro,

ver e estar sendo visto: janela de néon, poltrona de

[vacâncias, moinho de securas.



* Publicado, originalmente, em: VOGT, Carlos. Metalurgia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 15-17 e retomado em Poesia reunida. São Paulo: Landy editora, 2008, p. 231-233.