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Jornalismo de dados oferece maior contexto, profundidade e diversidade de formatos de conteúdos para as narrativas jornalísticas
Por Suzana Barbosa
10/04/2016
No contexto contemporâneo, cada vez mais se assiste à consolidação das bases de dados como estruturantes da atividade jornalística e como agentes singulares no processo de convergência de meios, cuja produção, publicação, circulação e recirculação das informações jornalísticas ocorrem em multiplataformas. Pode-se mesmo indicar as bases de dados como agentes de inovação para o jornalismo, tanto no que diz respeito aos processos como aos produtos.

E uma das modalidades com grande preponderância do uso de bases de dados é o que se denomina jornalismo guiado por dados ou jornalismo de dados (do inglês data driven journalism ou data journalism). Segundo definição mais simples, é aquele produzido com dados, os quais podem ser gerados e disponibilizados por uma diversidade de fontes públicas e privadas – inclusive as próprias organizações jornalísticas do mainstream, por exemplo, dentre outras mais independentes – e podem estar estruturados em sua forma mais bruta, co­mum, em planilhas Excel, ou mesmo publicados segundo padrões de design e formatos diversos para a narrativa jornalística que tiram partido de recursos variados para a melhor apresentação e compreensão do leitor, do usuário.

O termo enfatiza, especialmente, a existência de informações públicas de países, governos, entidades de diversos perfis tornadas cada vez mais acessíveis e diversificadas, ao tempo que permitem o uso, a exploração e a publicação através de formatos diversos e ferramentas de visualização específicas utilizadas para sua apresentação. Esse aumento crescente de informações públicas disponíveis em bases de dados vincula-se ao que estudiosos definem como o fenômeno do “big data” ou “a revolução industrial do dado. Como um dos exemplos mais emblemáticos da força dos dados está a divulgação dos 250 mil te­legramas confidenciais de comunicações diplomáticas de governos, principalmente dos Estados Unidos, por parte da organização WikiLeaks, em novembro de 2010.

Foi a partir desses dados coletados e disponibilizados pelo WikiLeaks – conhecido como cablegate – que o The New York Times, The Guardian, El País, Le Monde e a revista Der Spiegel puderam trabalhar as informações contidas nos dados, relacionando-os, fazendo cruzamentos, análises e, com isso, puderam revelar assuntos que provavelmente jamais seriam conhecidos. Esse é também um exemplo referencial por ter levado as organizações jornalísticas a buscarem recursos e parâmetros que melhor pudessem estruturar as narrativas publicadas nos respectivos sites, com distintos formatos para os conteúdos: de textos a documentos em pdf, videogalerias, infográficos interativos, galerias de foto, mapas interativos, slideshows, base de dados navegável, uso de técnicas de visualização para apresentação das informações contidas nos cables, dentre outros.

O exemplo emblemático do cablegate acima citado contribuiu para que organizações jornalísticas ao redor do mundo passassem a investir na criação de editorias de jornalismo de dados, blogs e seções específicas em seus respectivos sites para divulgação desses conteúdos, denominadas como data ou dados, como ocorreu no The Guardian, que também criou o seu Datablog; Los Angeles Times; La Nación Data e mesmo em marcas nacionais como Gazeta do Povo, Zero Hora, Folha de S. Paulo (com o blog “Afinal de Contas”, de Marcelo Soares); e Estadão. No Brasil, dentre as iniciativas implementadas, a de O Estado de S. Paulo continua ativa.

Neste último, foi criado um dos primeiros núcleos de jornalismo de dados por meio da equipe “Estadão Dados”, composta por jornalistas, designers e programadores, responsável, entre outros, pela concepção do Basômetro. Em 2015, dois integrantes desta equipe (José Roberto de Toledo e Rodrigo Burgarelli, junto com o repórter Paulo Saldaña), foram premiados no Exxonmobil de Jornalismo (antes conhecido como Prêmio Esso), com a reportagem "Farra no Fiés".  Outras iniciativas foram realizadas em revistas semanais como Época; jornais regionais como Correio; em Salvador, agências de jornalismo independente como a Pública; plataformas que unem jornalismo e dados ambientais, como InfoAmazônia e, mais recentemente, a  J++, que se auto intitula a primeira agência de jornalismo de dados do Brasil.

O grande desafio, certamente, é dar continuidade ao trabalho nessas equipes e iniciativas mais independentes, principalmente em um momento crítico como o atual, para as marcas jornalísticas e para o jornalismo. Atualmente, as equipes de jornalismo de dados (compostas por jornalistas, designers, programadores, dentre outros profissionais) estão presentes em algumas redações, reforçando a produção jornalística a partir do uso de base de dados para melhor apuração, verificação, produção, contextualização, aprofundamento e apresentação das informações jornalísticas. O resultado vê-se tanto no jornal impresso, no site web e mesmo em aplicativos para dispositivos móveis (como tablets e smartphones).

O jornalismo de dados é uma modalidade que se consolida cada vez mais também em consonância com as iniciativas para ampliação da transparência em todo o mundo. No Brasil, a Lei de Acesso à Informação – em vigor desde 16/5/2012 – colaborou para se ampliar iniciativas de jornalismo de dados, bem como a realização das chamadas hackathons – maratonas que reúnem hackers, programadores, designers, jornalistas, desenvolvedores, dentre outros, para criar projetos que possam transformar informações de interesse público em soluções digitais, disponibilizadas para todos os cidadãos.

Na pesquisa sobre o uso de bases de dados no jornalismo, temática com a qual venho trabalhando desde o doutorado (defendido em 2007), entende-se o jornalismo de dados como uma das vertentes, um dos aspectos compreendidos pelo que denomino “paradigma jornalismo em base de dados”: o modelo que tem as bases de dados como definidoras da estrutura e da organização, bem como da composição e da apresentação dos conteúdos de natureza jornalística, de acordo com funcionalidades e categorias específicas, que também vão permitir a criação, a manutenção, a atualização, a disponibilização, a publicação, a circulação e a recirculação de produtos jornalísticos dinâmicos em multipla­taformas.

 

Suzana Barbosa é professora do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). É co-coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line (GJOL: http://gjol.net/) e coordenadora do projeto Laboratório de Jornalismo Convergente (CNPq 2014-2016: http://www.labjorconvergente.info/).