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Novo jornalista tem de ir muito além de escrever uma reportagem
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Artigo
Novo jornalista tem de ir muito além de escrever uma reportagem
Por Sabine Righetti
10/04/2016
Feche os olhos e imagine um jornalista. Se você visualizou um profissional que vai a um determinado local, entrevista pessoas, volta para uma redação enorme – cheia de outros jornalistas, de fotógrafos e de outros profissionais – e escreve um texto, talvez você esteja enganado. O novo jornalismo tem andado muito diferente dos estereótipos definidos nas últimas décadas e, claro, os novos jornalistas têm de se adaptar. A proposta deste artigo é destrinchar as partes que compõem o jornalista do imaginário coletivo e trazer a discussão para a realidade atual do mercado de trabalho, das redações, dos leitores e das novas tecnologias de informação e de comunicação que estão atropelando os jornalistas e o jornalismo com suas novidades diárias (e bastante atrativas). A pergunta nevrálgica da discussão é se estamos preparados e se estamos formandos os novos profissionais para esse novo cenário. Minha hipótese é negativa.

Começamos o debate nas grandes redações. Grandes redações? A literatura tem mostrado que as redações jornalísticas estão cada vez menores e que têm diminuído conforme a internet ganha espaço no mundo das notícias. Do ponto de vista do modelo de negócios, os grandes e principais jornais do mundo (em termos de audiência e de impacto) estão sendo vendidos – caso de parte do The New York Times, do Washington Post e do Financial Times, que acabou indo parar na mão de um grupo japonês. Muitos jornais no mundo deixaram de circular de maneira impressa. Esse fenômeno talvez tenha sido tratado pela primeira vez com profundidade por Phillip Meyer, da Universidade Estadual do Kansas, que publicou um clássico, em 2004, sobre o desparecimento lento dos jornais impressos diante da concorrência inevitável da internet. Depois de Meyer (2004), muitos autores seguiram publicando trabalhos acadêmicos que travam datas para o jornal em papel acabar. O jornal em papel vai acabar? Talvez, mas o jornalismo escrito continuará de outras formas, reconfigurando-se. E, talvez, as notícias não sairão mais das “grandes redações”.

Hoje, um jornalista pode trabalhar em uma redação grande, em uma redação pequena ou em “coletivos” e co-workings, cada vez mais comuns diante de um mercado que tem cada vez menos profissionais contratados e mais trabalhadores "freelancers". Os freelancers são jornalistas que sugerem ideias de reportagem para diferentes veículos, acordam um valor e executam a tarefa. Vista como canibalismo do trabalho jornalístico por uns, o trabalho freelancer é também analisado como um movimento de empreendedorismo de jornalistas que, muitas vezes, escolhem estar fora das redações para propor suas histórias para quem quiser, como quiser e negociando um valor. O que se diz na literatura, e o que já se observa em redações de países como os Estados Unidos, é que as redações terão cada vez mais editores e “fechadores”, que são os profissionais responsáveis por editar, concluir os textos e colocá-los nas páginas impressas e digitais dos jornais, e cada vez menos repórteres contratados, que atuarão de maneira independente.

Mas não para por aí. Pipocam, no mundo, iniciativas que pretendem ser alternativas às grandes redações ou à mídia tradicional e que são, em sua maioria, de conteúdo eletrônico. Os próprios jornalistas estão se unindo em torno desse tipo de proposta. Aqui mesmo no Brasil, há iniciativas de jornalismo independente de qualidade, cada um com seu modelo de negócios. Caso do jornal eletrônico Nexo, que tem por trás um investidor, e da Agência Pública, quem tem parceiros e patrocinadores para conduzir suas reportagens investigativas.

Vamos fazer uma pausa aqui.

Jornalistas estão preparados para empreender em um mercado freelancer ou para criar modelos de negócios que sustente suas notícias? Esses profissionais são formados para gerenciarem seus próprios trabalhos e negociarem valor? Parece-me que não. No curso de jornalismo que me formou há 15 anos, e que é bem avaliado, nunca tive uma aula sequer sobre negociação ou assuntos correlatos. Fui formada para concorrer por uma vaga em uma grande redação – assim como, na verdade, acontece com engenheiros, administradores, advogados formados no Brasil (a nossa universidade brasileira ainda tem foco em treinar para o emprego existente e não para empreender criando novos modelos de negócios e de trabalhos; nossa história de instabilidade econômica formou gerações atrás de gerações que têm medo do risco). Tampouco tenho visto esse tipo de curso de empreendedorismo em novas graduações de jornalismo. Ou seja: temos um problema entre o curso teórico e a realidade do trabalho do jornalista.

Bom, mas se o jornalista estiver realmente trabalhando em uma redação tradicional, de um jornal, revista ou site, por exemplo, como será o seu dia de trabalho?

Volto à questão da formação do profissional: fui treinada, e tenho visto cursos fazendo o mesmo, para apurar histórias, fazer entrevistas e escrever textos. No mundo ideal do jornalismo acadêmico, as entrevistas devem ser feitas pessoalmente, para que sejam analisados gestos, comportamento, jogadas de cabelo e tom de voz do interlocutor. Os novos jornalistas seguem a mesma linha sucessória de treinamento. O problema é que dificilmente, e cada vez menos, um jornalista conseguirá ir até um local de sua reportagem. Cada vez menos um repórter vai acompanhar as cada vez mais raras “coletivas de imprensa”, que se tratam do anúncio de um fato importante, relevante para a sociedade – desde a divulgação de dados públicos sobre homicídios na cidade de São Paulo ao lançamento do novo Iphone6s. Está cada vez mais raro fazer entrevistas pessoalmente. Não há mais tempo para isso: as notícias estão aceleradas, a velocidade da informação aumenta, os custos de produção de cada notícia estão reduzidos, há trânsito nas cidades. É difícil sair do local de trabalho, seja redação ou não, e isso não vai mudar.

Diante desse novo cenário, em que o jornalista trabalha remotamente, longe da notícia, há, então, duas opções. A primeira, da qual gosto menos, é se digladiar diante do novo formato cada vez mais apressado do jornalismo diário, que não permite olhar nos olhos do seu entrevistado, lamentando exaustivamente e remetendo aos bons e velhos tempos da redação. A segunda alternativa, da qual gosto mais, é encarar o cenário atual, o futuro e fazer dele o melhor possível. E, sim, é possível fazer o melhor em um cenário de mudança irreversível.

Exemplo? Passei muitos anos escrevendo sobre ciência para o jornal Folha de S.Paulo e, invariavelmente, entrevistava cientistas estrangeiros – eram personalidades referências nas áreas, prêmios Nobel, chefe de grandes universidades líderes mundiais etc. Estando no Brasil, eu certamente não poderia falar com esses especialistas pessoalmente. Obviamente, não poderia pegar um voo a cada entrevista porque isso, claro, inviabilizaria todo o trabalho de todas as maneiras possíveis. A minha saída sempre foi o Skype, aquela ferramenta que permite fazer uma “ligação” pela internet e, de certa forma, estar com o interlocutor. Bem, se não há tempo de entrevistar pessoalmente minhas fontes nem na minha cidade, por que não usar as tecnologias para que eu consiga me aproximar delas? É mais produtivo do que lamentar o passado.

É claro que há exceções, e são muitas. Reportagens de revistas mensais e alguns textos analíticos, sim, exigem presença. É o caso, também, dos perfis e das grandes entrevistas – as famosas “páginas amarelas” de Veja ou “entrevista de 2ª” da Folha de S.Paulo. Em alguns casos, esse tipo de texto exige, inclusive, mais de uma entrevista presencial para que o texto seja concluído.

Indo além: há lugares em que não há Skype, mas que precisam de jornalismo e de pessoas entrevistadas. E, sim, há muito lugares assim. A questão é tratar a exceção como tal, no lugar de ignorá-la, e de tratar a regra como dia a dia. Comumente, posso entrevistar pessoas pelo Skype, mas se eu precisar entrevistar índios e garimpeiros em uma reportagem investigativa sobre desmatamento na Amazônia, bom, nesse caso, obviamente eu terei de pegar um avião e ir pessoalmente.

Esse jornalismo pessoalmente e investigativo vai acabar? Não, ao contrário: a internet e as novas ferramentas de comunicação e de participação social estão justamente possibilitando novas formas de se fazer jornalismo investigativo. Prova recente disso foi o trabalho executado conjuntamente por 109 redações em 76 países, que trabalharam em cima do banco de dados com 11,5 milhões de documentos da fábrica de offshores Mossack Fonseca. Um esforço internacional coletivo inédito, guiado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, para produção de uma série de reportagens. Há jornalistas brasileiros envolvidos nisso.

No Brasil, temos a Lei de Acesso à Informação, aprovada em 2012. Hoje, e cada vez mais, é possível encontrar dados, números e indicadores antes completamente obscuros para jornalistas e para a sociedade. Se não os encontramos, é possível buscá-los e solicitá-los. Números, dados e indicadores podem levar a trabalhos que também vão além da reportagem: é o jornalismo de serviços.

O problema, novamente, volta à formação do profissional: os cursos de graduação em jornalismo estão muito pouco preparados para todas essas reconfigurações. Quantos egressos de cursos de graduação ou pós em jornalismo conseguiriam fazer parte do coletivo de investigação da offshores Mossack Fonseca? Quem aí que está lendo este texto, estudou jornalismo e consegue fazer um pedido de dados – e analisá-los – via Lei de Acesso à Informação? Quem está apto a trabalhar com Excel ou com outras bases de processamento de dados? O problema é que sem esse tipo de conhecimento é impossível mexer em bases de dados públicas, cruzar informações e fazer jornalismo investigativo do século XXI.

Jornalismo bom e de qualidade custa caro e, nesse caso, é preciso convencer a sociedade, o leitor, a comprar pela notícia assim como ele compra uma calça, uma entrada no cinema, um almoço. Atrair para o jornalismo é também algo que não aprendemos nos cursos de jornalismo. Sim, precisamos falar sobre audiência. Antes, funcionava assim: você escrevia um texto, ele era publicado (de maneira impressa) e o seu trabalho acabou. Hoje, existem ferramentas que medem se os leitores clicaram no seu texto e, mais, se leram o conteúdo, dependendo da quantidade de segundos e de minutos que permanecem por ali. Isso não significa que os jornalistas estarão condenados a escrever apenas aquilo que grande parte dos leitores buscam na internet. Isso significa, sim, que quem escreve uma reportagem pode pensar também em formas de atrair leitores para o seu conteúdo, seja ele qual for.

Hoje, cabe também ao jornalista criar formas de ampliar a leitura do seu texto, de fazer com que ele chegue cada vez a mais leitores. Para isso, é preciso entender de novas ferramentas de redes socais. Por que não?  Vou aqui falar de algumas: que tal postar o seu texto em redes sociais como Twitter, LinkedIn ou Facebook? Nesse caso, não basta simplesmente colocar um link, é preciso ter estratégia. O algoritmo do Facebook, por exemplo, amplia a audiência quando o conteúdo postado traz uma imagem. Mais: estudos mostram que o público brasileiro prefere clicar em textos nas redes sociais que são compartilhados com alguma frase analítica (do tipo “Vejam que reportagem interessante”).

Já existe um fenômeno ainda mais interessante: jornalistas – e empresas jornalísticas – chamam suas reportagens pelo aplicativo Snapchat, aquele aplicativo que traz vídeos de até dez segundos que expiram em 24 horas e que fazem o maior sucesso no público jovem. Ora, se um dos desafios atuais do jornalismo é justamente atrair o leitor jovem (o leitor de jornal impresso tem, em média, mais de 35 anos), por que não usar a plataforma onde estão os jovens para atraí-los?

No lugar de lutar nostalgicamente por um jornalismo que está perdido do tempo, é hora de reformular os cursos, de formar novos perfis de jornalistas capazes de trabalhar a comunicação de maneira ampla, coletiva, empreendedora, de atrair os leitores e de se comunicar com eles. O novo jornalismo vai muito além das reportagens.


Sabine Righetti é jornalista pela Unesp, doutoranda pela Unicamp e pesquisadora associada ao Labjor/Unicamp. Atua como colunista e colaboradora da Folha de S.Paulo, onde também organiza o RUF – Ranking Universitário Folha e participa do programa de treinamento de novos jornalistas. É também criadora da Data14, empresa de conteúdo e de análise de dados com foco em ciência e em educação.

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Bibliografia

Meyer, P. The vanishing newspapersaving journalism in the information age. Missouri: University of Missouri Press, 2004.

Righetti, S.; Quadros, R. “Impactos da internet no jornalismo impresso”. ComCiência n. 110 Campinas 2009. Disponível em http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-76542009000600009&lng=pt&nrm=iso