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Bibliotecas virtuais - Carlos Vogt
Reportagens
As bibliotecas virtuais democratizam o acesso ao conteúdo científico?
Francisco F. Zaiden
Acesso aberto ao conhecimento científico tem apoio crescente de cientistas
Cristiane Kämpf
Bibliotecas virtuais aumentam acesso e visibilidade da produção científica
Aline Naoe
A importância da preservação dos acervos digitais
Marta Avancini
Qual o futuro das bibliotecas tradicionais?
Monique Lopes
Artigos
Internet, ciência e sociedade: o que mudou para pesquisadores e cidadãos?
Lena Vania Ribeiro Pinheiro
Acesso livre: uma nova crise no horizonte?
Paulo Cezar Vieira Guanaes e
Maria Cristina Soares Guimarães
Índices bibliográficos na América Latina
Diego Chavarro*
Tradução: Germana Barata
Um caminho para a edição universitária – o Programa de Publicações Digitais da Unesp
Marilza Vieira Cunha Rudge e
Jézio Hernani Bomfim Gutierre
Resenha
Avaliação de fontes de informação na internet
Por Maria Teresa Manfredo
Entrevista
Abel Packer
Entrevistado por Romulo Orlandini
Poema
Vinheta
Carlos Vogt
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Reportagem
Bibliotecas virtuais aumentam acesso e visibilidade da produção científica
Por Aline Naoe
10/06/2012

A revisão crítica das principais publicações relativas a determinado campo de estudo é item fundamental de qualquer pesquisa científica. A rotina de busca e seleção destas publicações foi amplamente transformada com o surgimento da internet, no entanto a imensa quantidade de informação disponível na rede mundial demanda uma triagem cuidadosa. Neste contexto, as bibliotecas virtuais figuram como uma ferramenta altamente proveitosa e praticamente obrigatória na rotina de especialistas e estudantes. Embora caracterizem um fenômeno recente, essas bibliotecas representam hoje, segundo Sandra Gomes, da Universidade Federal Fluminense (UFF), um novo território para a pesquisa científica no Brasil, que reúne informação combinada com recursos que promovem maior integração entre pares.

As bibliotecas virtuais prezam o critério de qualidade para a inserção de informação em suas bases, muito embora descrever a qualidade e medir o impacto das publicações não seja seu propósito, lembra Sandra, que é doutora em ciência da informação. Ainda assim, esses serviços acabam influenciados e também podem influenciar tais critérios. “As bibliotecas virtuais oferecem ampla visibilidade à informação científica, o que tende a impactar os índices de citação da literatura. A informação publicada e que se encontra disponível em acesso aberto na rede tende a ser mais citada e diversos estudos já comprovam isto”, afirma a pesquisadora. Um artigo publicado na revista Nature em 2001, por exemplo, relatou o aumento do impacto das publicações na área de ciências da computação quando disponíveis em acesso livre na internet. O estudo feito por Steve Lawrence, do NEC Research Institute envolveu quase 120 mil artigos e aponta que o índice de citação para publicações impressas é de 2,74%, enquanto que os artigos disponíveis online obtêm 7,03%, um aumento de 157%.

As bibliotecas virtuais também contribuem para ampliar a qualidade da produção científica, afirma Samile Vanz, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Temos à nossa disposição muito mais variedade e quantidade de documentos, artigos, enfim, todo o tipo de informação para usar em nossa própria pesquisa. A qualidade também pode ter ampliado, pois a rede expõe o autor a uma audiência muito maior, forçando-o a publicar o melhor conteúdo/resultado possível”, afirma Samile, que também é doutora em comunicação e informação.

Confrontando diversas visões, Sandra elaborou um conceito que representa o conjunto de ideias sobre o uso da biblioteca virtual para a pesquisa científica, definindo-a como “serviço online de informação especializada, criado para atender as novas exigências da pesquisa acadêmica, sobretudo no que diz respeito à agilidade para a obtenção da informação e para a comunicação entre pares”. Para ela, a facilidade de acesso à informação é um ponto crucial para a pesquisa científica e a internet atua de maneira decisiva nesse processo, promovendo mudanças ligadas à produção, difusão e uso da informação. “Por encontrar-se desterritorializada, a informação disponível nas bibliotecas virtuais supera barreiras geográficas, institucionais e burocráticas, de forma que pesquisadores localizados em qualquer parte acessam com facilidade e rapidez a informação”, afirma a professora. Esse fenômeno é especialmente importante considerando a produção científica de países em desenvolvimento.

Com o papel de abrigar e disseminar a informação produzida no meio eletrônico, já que a revista científica é hoje majoritariamente eletrônica ou digital, a biblioteca virtual adquire importância central no registro e comunicação da informação científica, afirma Gomes. “Neste sentido, a biblioteca virtual é um complemento fundamental para as próprias bibliotecas físicas”. Ela destaca a importância das bibliotecas específicas de cada área, que “reside no fato de os padrões de comunicação variarem muito conforme as diferentes áreas, com reflexos no conjunto de fontes a serem selecionadas, armazenadas e disseminadas pelas bibliotecas, físicas ou virtuais”.

Produção científica: é possível mensurar?

Existem hoje alguns critérios globalmente aceitos pela comunidade científica para calcular e difundir o impacto das publicações, ainda que haja questionamento sobre suas lacunas. O Fator de Impacto, por exemplo, é uma avaliação criada pelo Institute for Scientific Information(ISI), hoje associado à Thomson Reuters, que estabelece a média entre o número de citações dos artigos publicados no periódico nos dois anos anteriores, dividido pelo número total de artigos publicados no mesmo período. O Fator de Impacto é publicado no Journal Citation Reports e representa um dos critérios de busca no Web of Science, também da Thomson Reuters, uma base de dados que indexa publicações científicas de todo o mundo. Há ainda a base SciVerse Scopus, da editora Elsevier, que permite a análise das buscas a partir de um outro tipo de indicador, o índice H (conhecido também como Índice de Hirsch ou Fator H), estabelecido pelo cálculo entre o número de trabalhos publicados por um autor e a frequência com que esses trabalhos são citados por outros autores, na tentativa de comparar a produtividade de pesquisadores.

O desenvolvimento e avaliação desses índices é um dos objetos de estudo da cientometria, área que analisa a dinâmica da ciência a partir da produção, circulação e consumo da produção científica. Há por parte de especialistas e pesquisadores diversas críticas em relação às classificações geradas por esses índices, já que as áreas do conhecimento apresentam, cada uma, certa lógica de produção. Algumas disciplinas, por exemplo, possuem maior número de revistas, o que aumenta a chance de obter maior número de citações. Outro caso é o de artigos que, por conterem falhas conceituais ou outros aspectos discutíveis, acabam sendo citados com muita frequência. A International Society for Informetrics and Scientometrics (ISSI) é uma das comunidades científicas que se dedica à produção e adaptação de indicadores.

Para Samile Vanz, da UFRGS, embora haja limitações, as análises quantitativas são válidas e baseadas em diversos indicadores bibliométricos. “Considero que as análises qualitativas da ciência são úteis, mas, pelo alto custo, demanda de tempo e recursos humanos, são inviáveis. As análises quantitativas não são menos trabalhosas, mas são mais ágeis e demandam menos pessoas envolvidas. É lógico que todo o indicador numérico precisa ser contextualizado, e é aí que a análise qualitativa entra”.

No Brasil, o acesso às publicações científicas é feito, principalmente, por meio da biblioteca virtual SciELO (Scientific Electronic Library Online) e do Portal de Periódicos da Capes, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Além do Portal, a Capes possui também o chamado Qualis, que entre outras avaliações, classifica os periódicos em estratos indicativos da qualidade, entre A1 (o mais alto), A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C. Segundo Rogério Mugnaini, da Universidade de São Paulo (USP), os critérios de avaliação do Qualis passaram a incorporar o Fator de Impacto após a virada deste século. “Resulta que a publicação em revistas de maior Fator de Impacto seja, não só um estímulo, mas uma obrigação crescente. Este processo também estabeleceu um padrão de publicação e gestão editorial, que fez com que muitas revistas brasileiras passassem a aprimorar não apenas sua prática editorial, mas a serem mais seletivas quanto ao conteúdo científico dos artigos que publicam”, afirma Muganini, que é cientista da informação.

Desde abril deste ano, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma das principais agências de fomento à pesquisa no país, passou a exigir que a súmula curricular dos cientistas – exigida na apresentação de propostas de financiamentos – incluísse um link para o MyResearcherID ou MyCitations, dois mecanismos que monitoram e organizam as citações aos trabalhos dos pesquisadores. Para Mugnaini, a medida é positiva no sentido de facilitar um esforço que alguns pareceristas já faziam cada um a sua maneira e por possibilitar levar em consideração não apenas o Fator de Impacto da revista onde os trabalhos foram publicados, mas também o próprio artigo do pesquisador. Mugnaini ressalta, no entanto, que é preciso ponderar sobre como essa informação será utilizada na avaliação dos projetos. “A comunidade carece não apenas de indicadores prontos, mas de compreensão sobre o que eles mensuram e, principalmente, sobre suas limitações. A impressão que dá é que existem dois perfis: os que confiam cegamente, e os que abominam e desprezam”, afirma.

Em meio ao mar de produção de conhecimento científico disponível, os índices cientométricos tornaram-se um guia importante e, por vezes, indispensável para a pesquisa científica, com ferramentas em constante aprimoramento. Num círculo virtuoso, quanto melhor forem os índices, mais direcionada e repetitiva se tornarão as buscas e mais confiável a seleção de informações. No entanto, a revisão bibliográfica sob o exame crítico do pesquisador parece ser ainda o melhor indicador de qualidade e não deve ser substituído, mas complementado e sustentado pelas ferramentas automatizadas.