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Artigo
A terra nua: política, meio ambiente e feminismo
Por Elio Chaves Flores
09/04/2008

“As árvores foram parte essencial de minha vida e me ensinaram muitas lições. Elas são símbolos vivos de paz e esperança. Uma árvore tem suas raízes no chão e, mesmo assim, ergue-se para o céu. Ela nos diz que, para ter qualquer aspiração, precisamos estar bem assentados e que, por mais alto que possamos chegar, é de nossas raízes que tiramos nossa base de sustentação” (Wangari Maathai)

Para os quicuios, o monte Quênia, mais conhecido como Kirinyaga, isto é, lugar de resplandecência, era um local sagrado no coração da África. Dele parecia vir toda a felicidade da terra: chuvas abundantes, rios, córregos, água potável, etc. Os africanos quicuios, ainda predominantes na moderna sociedade queniana, celebravam, enterravam seus mortos e oravam de frente para o monte, as portas das suas casas abriam-se para ele. Enquanto a montanha estivesse ali, guardando-as, as pessoas acreditavam que nada lhes faltaria, pois quando as nuvens envolviam regularmente o monte Quênia, a chuva logo se fazia presente nos vales e savanas quentes da África oriental. A crença era singela: enquanto as chuvas continuassem caindo, os quicuios e demais povos da região teriam fartura de comida, gado em abundância e a fome continuaria desconhecida. A água potável por toda a parte permitia plantações de milho, feijão, trigo, legumes e a criação de animais tornavam o trabalho das mulheres algo rotineiro, certo de que os dias se sucederiam com as refeições asseguradas.

A ativista política, feminista e ambientalista Wangari Maathai, ao iniciar suas memórias, diz que foi nessa espécie de reduto ainda sustentável de vida comunitária que se reconheceu como pessoa. Deixemos que ela mesma se apresente: “Sou a terceira de uma família de seis filhos, e a primeira mulher depois de dois meninos. Nasci no dia 1° de abril de 1940, no vilarejo de Ihithe, no planalto central do que era então o Quênia britânico. Meus avós e meus pais também nasceram nessa região, próxima à cidade de Nyeri, capital da província, ao pé da cordilheira Aberdare. Ao norte, projetando-se para o céu, fica o monte Quênia” (Maathai, 2007, p. 19).

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Entretanto, na década de 1950, as estruturas sociais e econômicas, que já vinham mudando desde as primeiras décadas do século 20, mudariam mais rapidamente, a tal ponto de ficarem na lembrança perspicaz de Wangari Maathai. Logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, cerca de 40 mil colonos, em sua maioria britânicos, tinham instaurado mais de 2.500 fazendas nas reservas de terras das imediações da capital, Nairóbi, no planalto central seguindo para oeste, além de vastas extensões de pastagens no vale do Rift. Desse modo, boa parte do interior do Quênia tornou-se um “planalto branco”. Logo se seguiu um processo de conversão dos nativos quicuios aos credos ocidentais, como a leitura da Bíblia e os primeiros passos de uma cultura letrada, designada como “cultura athomi, aqueles que lêem”. Esse processo incorporativo de outras tradições às ancestralidades locais foi assim descrito por Wangari:

“Tudo o que representasse a cultura local foi entusiasticamente substituído: o painço deu lugar ao milho, e uma espécie de mingau feito com ele, que era então a bebida mais comum entre os quicuios, foi preterida pelo chá. Com a mudança das plantações, as ferramentas usadas na agricultura e os utensílios de cozinha também passaram a ser outros: vasilhas de zinco em vez das tradicionais feitas de barro, pratos e xícaras em vez de cabaças, colheres em vez de dedos ou varetas. As roupas feitas de pele de animais foram deixadas de lado em função dos vestidos de algodão, para as mulheres, e camisas, shorts e calças, para os homens.

Na sociedade quicuia tradicional, rapazes e moças faziam tranças nos cabelos; depois de casados, raspavam a cabeça inteiramente. Quando se tornavam muthomi (uma pessoa que lê), deixavam de fazer tranças e raspar a cabeça. Os homens cortavam o cabelo bem curto, ao passo que as mulheres deixavam o seu crescer para ficar como as européias. As mulheres também amarravam lenços na cabeça para dar aparência de um véu. Danças, quaisquer outras festividades não-cristãs e ritos iniciáticos eram desencorajados e até demonizados pelos missionários e pelos convertidos. Uma transformação quase completa da cultura local em uma outra, análoga à européia, aconteceu na geração que precedeu ao meu nascimento” (Maathai, 2007: 28-29).

Assim, a nossa memorialista coloca-nos a par de uma nova cultura material que, em pouco mais de meio século, deixaria a terra constrangida, quase nua, incentivando o cultivo de chá e café para exportação. Esse ativo comércio local e regional passou a ser exercido, de forma hegemônica, pelos imigrantes indianos, que se deslocavam para a África oriental desde o final do século 19, chegando a 35 mil no Quênia e cerca de 40 mil no vizinho país de Uganda. Essa diáspora indiana para a África oriental também levou para o cotidiano das populações locais novos padrões alimentares, incluindo o sal, a gordura, o açúcar e o óleo, onde gulas e paladares dantes nunca provados assanhavam doenças por demais tropicalizadas. Por que a obesidade não haveria de chegar à África negro-africana? O certo é que a primeira natureza já se perdia nas brumas do capitalismo agrário do período pré-independência com o plantio de árvores exóticas – na verdade estrangeiras – para fins comerciais, tais como o pinheiro, o eucalipto e a acácia-negra.

Wangari Maathai ausentou-se dessa realidade em transformação para fazer a graduação em ciências e o mestrado em ciências biológicas nos Estados Unidos da América. Entre 1960 e 1966, exatamente no período independentista da década africana, ela apenas podia comparar a costa oriental do continente com o instável clima do extremo nordeste do Kansas, às margens do rio Missouri, onde fixou-se nos primeiros quatro anos. Desta experiência, ela tiraria uma lição tropicalista: “Desde então, passei a dar mais valor ao clima quase perfeito do planalto queniano. Essas mudanças de estação também me ajudaram a entender por que as pessoas que não vivem nos trópicos gostam de se estirar ao sol mesmo quando sua pele já está descascando!” (Maathai, 2007, p. 113). No seu retorno, o país estava independente do colonialismo britânico, mas não menos ocidentalizado. Maathai defrontou-se com barreiras étnicas e de gênero ao ver negado o seu primeiro emprego, na Universidade de Nairóbi, por pertencer à etnia quicuio e ser mulher. Não esmoreceu: acabou como professora na Escola de Medicina Veterinária, da mesma universidade e, em seguida, habilitou-se para cursar o doutorado na Alemanha, tornando-se a primeira mulher com doutorado na África oriental. Casada com um comerciante que depois ajudaria a se eleger para o parlamento queniano, percebeu que, mesmo sendo qualificação máxima nos quadros universitários, ganhava menos do que os homens. Brigou, reivindicou, organizou as mulheres letradas, eram elitizadas à moda ocidental, mesmo assim eram consideradas más mulheres africanas, pois rezava a tradição que jamais poderiam humilhar os homens, ganhando mais ou mesmo tendo mais prestígio social do que os maridos.

No início da década de 1970, o Quênia era o maior país pecuarista da África oriental e as pesquisas avançavam nesse campo. Wangari Maathai iniciou então sua pesquisa de pós-doutorado sobre o ciclo da vida do parasita responsável pela febre da Costa Leste, uma doença comum na região cujo gado nativo não era afetado, mas estava sendo devastadora para o gado importado, de características híbridas. A referida doença é transmitida por um carrapato cujas glândulas salivares abrigam o parasita. As observações sistemáticas de lâminas no laboratório e a arguta percepção das abruptas mudanças no solo e na vegetação regionais e dos modos de vida locais em função da ocidentalização, deram a Wangari o estímulo para a conversão ambientalista, para a necessidade da crítica política e a empurraram para o ativismo. Aqui, uma narrativa densa merece fluir para o leitor:

“Durante o tempo que passei na zona rural nos arredores de Nairóbi então uma cidade com pouco mais de 300 mil habitantes coletando os carrapatos, observei que as águas dos rios, que desciam das colinas e corriam paralelos às trilhas e às estradas quando chovia, estavam inteiramente enlameadas. Era uma visão bem diferente da que eu tinha em criança. (...) Também observei que as vacas estavam tão magras que era possível contar suas costelas. Havia pouca relva ou outro tipo de forragem nos locais onde o gado pastava, e, durante a época das secas, a maior parte dessa vegetação carecia de nutrientes.

Até as pessoas pareciam desnutridas e pobres, e a vegetação em suas roças escassa. O solo nos campos não produzia o que podia, porque seus nutrientes haviam esgotado. Por essas observações, ficou claro para mim que o Quênia e toda a indústria pecuária da região estavam mais ameaçados pela degradação ambiental do que pelos carrapatos nas orelhas dos animais ou pelos parasitas das glândulas salivares desses carrapatos.

Quando fui visitar minha família em Nyeri, tive outra demonstração das mudanças que estavam acontecendo ao nosso redor. Vi rios assoreados, e boa parte da terra que carregavam era proveniente da floresta onde as plantações de árvores com fins comerciais haviam substituído a mata nativa. Percebi que uma boa extensão daquela terra era coberta de árvores, arbustos e gramíneas quando eu era criança tinha sido transformada em plantações de chá e café” (Maathai, pp. 155-6).

Lembra-se a autora de que até o pé de figueira nativa, embaixo da qual ela descansava e colhia frutos havia sido derrubada pelo novo proprietário do terreno, secando também o córrego que nutria as demais plantas ausentes de suas margens. Wangari não deixou de ver algo extraordinário na sua própria tradição “Admirei profundamente a sabedoria do meu povo e o fato de gerações e gerações de mulheres terem passado as suas filhas a tradição cultural pelo simples fato de deixarem as figueiras permanecerem onde estavam. E eu também deveria passar essa tradição a meus filhos”. Descobriu também a lógica do capitalismo avançado: quanto mais rentável e comercial a agricultura de exportação, mais pobreza, fome e desnutrição atingiam as populações da África oriental. Paradoxalmente, também aparecia nessas savanas escarpadas pelo lucro, a desnutrição obesa: as mulheres estavam alimentando suas famílias com uma dieta industrializada, incluindo pão branco, farinha de milho, arroz branco, isto é, comendo carboidratos, uma dieta que carecia de vitaminas, proteínas e minerais. Assim compreendido o fenômeno econômico e cultural da degradação ambiental, Wangari adotou a pragmática da intervenção pela máxima que cultivava em seus pensamentos: “mais vale pensarmos no que pode ser feito do que ficarmos nos preocupando com o que não podemos fazer”. Plantar árvores foi o que deu início ao Movimento Cinturão Verde, uma organização que fez história na África pós-colonial, depois de 1975. O raciocínio do que podia ser feito era demasiado simples: “As árvores dariam a madeira necessária para as mulheres prepararem alimentos nutritivos. Também forneceriam o material para a construção de cercas e forragem para os rebanhos. Dariam sombra para homens e animais, protegeriam os lençóis freáticos e firmariam o solo, e, se fossem frutíferas, produziriam alimento. E também curariam a terra trazendo de volta os pássaros e os pequenos animais, e regenerariam a vitalidade da região” (Maathai, 2007, p. 160).

No dia 05 de junho de 1977, o país comemorou o Dia Internacional do Meio Ambiente plantando árvores em homenagem a sete líderes de diferentes grupos étnicos que lutaram e foram assassinados pelas forças coloniais, entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20. Política e meio ambiente seriam expressões que não mais sairiam do Quênia contemporâneo. Passaram a ser árvores políticas, essas plantadas no primeiro cinturão verde: tulipa-da-áfrica, córdia de folha larga, a figueira africana e o pau-amarelo da África oriental. A máxima para atrair a sensibilidade das pessoas, especialmente as mulheres passou a ser “uma pessoa, uma árvore”. Wangari Maathai intuiu que as mulheres sabiam mais da terra do que os homens e os profissionais das “ciências da natureza”. Assim, as silvicultoras sem diploma constituíram um exército de restauração das árvores nativas e da paisagem dos ancestrais, então em forte dilapidação pela agricultura comercial e de exportação. Plantar árvores em fileiras de mil mudas – pois “ninguém precisa de um diploma para plantar árvores” –, permitiu, segundo a autora, a formação do Movimento Cinturão Verde que, ainda nas décadas de 1980 e 1990, era ridicularizado na África oriental como coisa de mulheres por demais ocidentalizadas.

Com efeito, as tradições culturais quase sempre serviram de justificativa para o enquadramento das mulheres na seara da dominação e do poder masculino - em termos africanos poderíamos falar de ancianidade - no continente africano. A situação da mulher africana, especialmente das camponesas e trabalhadoras, não parece ser nada melhor do que as protagonistas do Ocidente em busca de direitos civis e reprodutivos. Wangari Maathai conta que viveu tempos dificílimos na medida em que um casamento de mais de 20 anos, gerador de três filhos, terminaria num “divórcio à ocidental” (p. 181), com disputas pela imprensa, acusação de que os juízes quenianos eram contra a autonomia das mulheres. Resultado: divórcio sem ônus paterno para Mwangi Mathai na manutenção dos filhos, condenação a seis meses de prisão a Wangari por ter atacado a magistratura queniana e a conseqüente perda do sobrenome até então grafado “Mathai”, apenas com uma vogal. A própria Wangari encontrou uma saída profundamente irônica para tratar dessa situação em que ela narra com mordacidade: “O jeito que arranjei de lidar com o terrível sentimento de rejeição que isso tinha provocado foi acrescentar outro ‘a' ao ‘mathai', e escrever esse nome como ele é pronunciado em quicuio. Foi assim que passei a me chamar ‘Maathai'. A vogal a mais também significava que, embora uma parte de mim fosse estar ligada para sempre a Mwangi e a seu sobrenome, eu tinha agora uma nova identidade. Daquele momento em diante, só eu mesma definiria quem sou: Wangari Muta Maathai” (2007, p. 184). Tal seria essa identidade política, de oposição às novas elites quenianas, que a faria portadora das árduas lutas africanas no ocaso do século 20: o ambientalismo e o feminismo.

Wangari Maathai continuou a falar sobre a proteção e a recuperação da terra, mas também sobre a luta pela democracia, a defesa dos direitos humanos para as mulheres e denunciava a corrupção como condição da cultura do dinheiro. Foi assim que participou da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como a Cúpula da Terra e, para os brasileiros, a ECO-92, realizada na cidade do Rio de Janeiro. Poucos anos depois, ela Maathai estava de volta à América do Sul, na companhia de Al Gore (amigo capitalista), para uma visita ao Haiti, um país de ancestralidade africana cujo tempo presente não o separa do continente em sua dramática historicidade. Ao contrário de seus ancestrais que viam o Caribe, primeiro como uma silhueta e depois como chão aprisionado, Wangari Maathai o viu das nuvens, mas não menos estarrecida:

“Embarquei, então, num helicóptero militar para sobrevoar a zona rural. A visão que tive lá de cima me convenceu de que jamais tinha visto um país tão devastado. As pessoas cultivavam suas lavouras no alto das montanhas e praticamente todas as árvores haviam sido abatidas. Parecia até que alguém tinha pegado uma lâmina e barbeado aquele solo. Quando chovia, a terra simplesmente ia embora.

(...)

Quando, em setembro de 2004, soube que os furacões Ivan e Jeanne tinham causado a morte de mais de três mil pessoas no Haiti, todas vítimas de deslizamentos de terra e inundações, lembrei-me imediatamente do que tinha visto na década anterior. Sempre que vejo quenianos pedindo que as florestas sejam desmatadas para a instalação de lavouras, penso no povo do Haiti e prometo a mim mesma que vou fazer tudo o que puder para evitar no Quênia o que aconteceu por lá” (Maathai, 2007, p. 274).

Assim, atravessamos de um século a o outro com a narrativa de Wangari Maathai explicando-nos como se dispôs a concorrer às eleições presidenciais e a se tornar uma das parlamentares mais atuantes na vida política do Quênia contemporâneo, cuja sociedade, segundo a autora, “ainda estava centrada no culto às personalidades”. No início do novo século o Movimento Cinturão Verde e demais setores avançados da sociedade queniana estão travando uma luta incessante pela preservação das terras públicas, combatendo as privatizações e as invasões, especialmente o que chamam de as “cinco caixas d'água” da África oriental: o monte Quênia, a cordilheira Aberdare, o complexo Mau, as colinas Cherangi e o monte Elgon. Para Wangari, elas “controlam os sistemas aqüíferos do país”, incluindo “a vazão dos rios, o regime das chuvas e os lençóis freáticos, todos eles indispensáveis para a agricultura, a produção de energia, as necessidades diárias da população e a vida selvagem, que é o próprio coração da indústria do turismo do Quênia” (Maathai, 2997, p. 325). Essas lutas estão se estendendo às estruturas florestais da bacia do Congo, no coração da África, onde há mais de cem anos, a exploração capitalista da floresta e da terra tem dizimado populações inteiras juntamente com os seus manejos de ecossistemas intuitivamente preservacionistas.

A história de Wangari Maathai parece se acelerar na medida em que avança o século 21 – será, por acaso, um século de destruição criativa? –, pois foi eleita para o parlamento queniano em 2002, em seguida nomeada como ministra-assistente do Ministério do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais do Quênia, em 2003 e, em outubro de 2004, agraciada com o Prêmio Nobel da Paz, por sua prática de plantar árvores, fomentar e estruturar cinturões verdes na África oriental e por sua luta pelos direitos das mulheres africanas. Enfim, as árvores da esperança, ao vestirem a terra nua, renderam o triunfo em vida dessa extraordinária mulher africana – ocidental demais para uns, pouco tradicional para outros – protagonista de sua própria trindade identitária: política, ambientalista, feminista. Ao explicar as conexões pertinentes a essas três dimensões, Wangari Maatahai afirmou que buscava inspiração no tradicional banquinho africano, com três pés e um assento: “Para mim, os três pés representam os três pilares fundamentais de uma sociedade justa e estável. O primeiro deles é o espaço democrático, onde os direitos são respeitados, sejam eles os direitos humanos, das mulheres, das crianças ou do meio ambiente. O segundo representa o manejo sustentável e eqüitativo dos recursos. E o terceiro, as culturas de paz que são deliberadamente cultivadas no seio das comunidades e das nações. O assento representa a sociedade e suas perspectivas de desenvolvimento. A menos que todos os três pés estejam em seu lugar, sustentando o assento, nenhuma sociedade pode florescer” (Maathai, 2007, p. 348-9).

Por tudo isso, o livro de Wangari Maathai não diz respeito apenas às suas memórias, narradas com verve e estilo, mas expressa as grandes preocupações de nosso tempo, de um mundo à deriva da história, aliás, do fardo da história, e perigosamente confrontado com os seus próprios desafios. Trata-se de uma leitura obrigatória para todos nós que não temos outro lugar para ir e morar, mas também não deixa de ser leitura primordial para os outros que fazem questão de ir para o céu ou para o inferno.

Elio Chaves Flores é doutor em história social (PPGH/UFF). Professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Pesquisador CNPq com projeto de pesquisa sobre a história da África e dos intelectuais afro-brasileiros.

Referência Bibliográfica

MAATHAI, Wangari Muta. Inabalável: memórias. Tradução: Janaína Senna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, 375 p. (1.ª Ed. Inglesa 2006).