Leonardo Sakamoto: O futuro das redes sociais está diretamente ligado ao futuro da educação para as redes sociais

Por Gustavo Almeida e Tiago Alcantara

As redes sociais são maravilhosas; elas aproximam pessoas, facilitam revoluções, encurtam distâncias. Mas, ao mesmo tempo, você tornar possível o contato de muita gente que não está preparada para essa comunicação sem prepará-la para isso, pode significar que essas pessoas se tornem veiculadoras de boatos e mentiras que possam criar problemas graves para a sociedade, ou mesmo acreditarem em boatos e mentiras porque não estão acostumadas, inclusive, em entender, por exemplo, que uma matéria bem apurada é mais forte que um meme que foi enviado pelo seu “best friend forever” de algum lugar E, não sendo preparada, ela pode cair mais facilmente numa rede de mentiras ou se tornar, ela mesma, vetor de difusão de mentiras.

As interações entre mídia e política desde sempre se manifestaram e crescentemente vêm se tornando objeto de análise por parte de acadêmicos e jornalistas. Esta intricada relação vem ganhando novas facetas com o advento das Redes Sociais. Os desdobramentos dessas novas interações parecem ainda estar começando a ser entendidos. Enquanto são saudadas em alguns aspectos, como a influência das redes na chamada Primavera Árabe e nos movimentos Occupy, por exemplo, são problematizadas em outros, como a chamada pós-verdade, escolhida como a palavra do ano de 2016 pela tradicional Universidade de Oxford.

O jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo Leonardo Sakamoto acredita que a chamada pós-verdade, a palavra do momento, não é algo novo. Para Sakamoto, a expressão ganhou força pelo contexto em que se deram a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos EUA.

“Pós-verdade não é algo novo. As pessoas se informarem pelas emoções e não pelos fatos, não é algo novo. A internet colocou todo mundo para dentro do debate, mesmo quem não estava preparado para o debate”, comenta o jornalista que também é professor de Jornalismo na PUC-SP e atua como diretor da ONG Repórter Brasil.

Em bate-papo com a equipe da ComCiência, Sakamoto ainda comentou a relação entre mídia e poder e falou da atuação de veículos alternativos na denúncia e cobertura sistemática de abusos dos direitos humanos e pela erradicação do trabalho escravo no Brasil.

ComCiência – Na sua opinião, a internet como instrumento político estaria passando por um processo de amadurecimento, o que, inevitavelmente, traz benefícios e prejuízos durante o percurso? Você acredita que os desdobramentos serão positivos quando ela se consolidar nesse papel?

Leonardo Sakamoto – A internet, como qualquer outra plataforma onde as pessoas vivem, ela está em constante amadurecimento. O amadurecimento da internet é concomitante ao amadurecimento do ser humano como um todo numa série de outros aspectos. Claro que não dá pra se falar, por conta disso, em um avanço linear nesse processo. Eu, como marxista, acredito que isso funcione mais ou menos como uma senoide, onde estamos indo pra algum lugar e eu acredito que esse lugar seja melhor que o lugar onde estávamos. Mas não significa que essa hipótese esteja correta. Pode ser que a internet, por mais que seja uma plataforma que permita ao ser humano desenvolver uma série de atividades e de conexões que antes não eram possíveis, não significa que ela também não vá ser vetor para a criação de outros problemas que possam vir a agravar problemas humanos.

Por enquanto eu sou um otimista. Acho que aos poucos, paulatinamente, estamos ganhando consciência do que significa essa plataforma de construção e de reconstrução da realidade que é a rede, como ela se imbrica com a “plataforma offline”, ou seja, com a nossa vida no dia a dia, e como garantir para que ela seja algo que nos ajude a evoluir como raça humana. Agora, se esse amadurecimento vai chegar ou como ele vai chegar, é minha pergunta, porque, de certa forma, não dá pra imaginar que o ser humano amadureça como um todo e a partir daí ele pare de evoluir. Até porque, o que é amadurecimento? Qual é o ponto a partir do qual a gente estaria maduro?  É uma discussão extremamente complexa. Porque mesmo daqui a 200… 300 anos podem achar que o mundo daqui a 100 anos era imaturo, porque considerava determinados elementos que passem a ser impossíveis de serem concebidos, determinadas  práticas que temos hoje – humanas, médicas, sociais, cientificas – como um completo absurdo. É complicado dizer. Agora, que a internet está nos levando a uma outra etapa da evolução humana, com esse motor, o binômio cultura-tecnologia, se impulsionando mutuamente, disso eu não tenho dúvida nenhuma.

ComCiência – A mídia é realmente o quarto poder?

Leonardo Sakamoto – De forma didática, é muito útil você usar essa expressão quarto poder, como uma espécie de poder moderador, copiando o poder de Dom Pedro durante o império. Não é uma moderação entre os poderes, mas teria um efeito semelhante de monitoramento para garantir uma transparência dos outros poderes no trato público. Eu não sei se isso faz da imprensa um poder em si, porque a imprensa não é soberana. Apesar da mídia ser uma estrutura de interesse público e a imprensa livre ser fundamental para uma democracia livre. Apesar disso, eu acho extremamente complicado você afirmar que a mídia é um quarto poder porque ninguém elegeu, escolheu ou passou por um concurso com base em critérios públicos com relação a isso.

Um veículo de comunicação de um bilionário, seja ele com boas intenções ou não, quem elegeu? Quem escolheu? Foi eleito? Passou por um concurso? Está na Constituição quais são os elementos que devem perfazer uma imprensa livre? Não, a imprensa livre é fundamental, mas acho que ela fica de fora do sistema. Ela entra como mais um instrumento de dentro das instituições da sociedade que dizem respeito ao monitoramento dos outros poderes.

Agora, para a mídia é muito bom que ela aceite o rótulo de quarto poder porque isso dá prestigio, dá força. Só que às vezes a mídia não funciona como um monitoramento dos outros poderes, mas ela mesma funciona como partido político, como juiz ou como poder executivo. É complicado. A mídia não exerce um poder sozinha, é um equívoco achar que uma grande emissora de TV consegue exercer o poder sozinha e, a partir desse poder, coisas são tomadas. Ela desenvolve sua hegemonia a partir de uma relação com os outros três poderes instituídos. Ela é muito poderosa, a mídia, ela é capaz de influenciar sobremaneira um país, mas eu não acredito que ela seja um poder, como pensou Montesquieu na separação original. Ela não é um poder que compõe o estado. Ela é uma força, exerce hegemonia, é mais forte do que governos às vezes, mas de uma maneira diferente do que o padrão de uma divisão de poderes tradicional.

ComCiência – As mídias sociais terão a capacidade de diminuir o poder e o monopólio dos grandes grupos de comunicação e a concentração da informação? Se isso ocorrer, haverá algum preço a pagar?

Leonardo Sakamoto – As redes sociais que operam em plataformas digitais – Instagram, Facebook, Twitter, Snapchat entre outras tantas -, elas têm o mérito de aproximar pessoas, ajudar a criar comunidades, aproximar interesses, fazer grupos de interesse se reunirem e pleitearem seus objetivos. Mas, ao mesmo tempo, têm o seu preço. A humanidade não produz tecnologia de acordo com sua demanda. Ao longo da história da humanidade, principalmente depois da revolução industrial e com o fortalecimento do liberalismo e do capitalismo e tudo mais, a produção de mercadoria possou a ser guiada [de outra maneira]. Não que ela se desenvolva de forma aleatória e alheia ao interesse do consumidor, mas esse interesse passou a ser secundário. Produz-se tecnologia e cria-se no consumidor a necessidade de possuir aquela tecnologia. Se eu entregar um smartphone de hoje pra vocês há 15 anos, vão me perguntar ‘mas o que eu vou fazer com isso?’. Você não precisava de um Instagram e de determinados aplicativos e de um telefone que faz x, y, z. A partir de possibilidades de mercado um produto é lançado e a partir desse lançamento cria-se demanda, cria-se procura a partir da oferta, e não necessariamente a oferta responde a uma procura. Então, de repente, caiu no colo de bilhões de pessoas ao redor do mundo a possibilidade de serem produtoras e receptoras de notícias em grande escala pra grande quantidade de pessoas, mas ninguém entregou um “manual de usuário” junto. Pode parecer arrogante – ‘ah, mas as pessoas sabem se comunicar’. Sim, as pessoas sabem se comunicar desde que inventamos a comunicação interpessoal em algum momento da pré-historia […]. Agora, quando você está comunicando em massa, você não está falando necessariamente com um grupo que detém o mesmo universo simbólico que você, mas com um grupo muito maior. Por exemplo, é um milagre que ironia seja entendida na internet; porque para a ironia ser entendida você, emissor, precisa compartilhar com seu receptor uma série de elementos simbólicos pra que aquele receptor entenda que você está dobrando o sentido original da mensagem em nome de um outro sentido. Só que você não tem isso no dia-a-dia. Você solta nas rede sociais e isso muitas vezes extrapola o seu universo de amigos e cai em pessoas que não entendem o que você está falando; ou mesmo você não entende qual é o alcance que você tem através de um smartphone e de uma rede social. E você divulga informações que podem ser danosas ao coletivo ou a terceiros. Eu sempre brinco: Quer saber qual é o tamanho do impacto da sua comunicação em rede social? Imagina você pegando um megafone, na frente de uma feira pública ou de uma grande manifestação com milhares de pessoas e fala aquilo que você quer postar. Se, ainda assim, você tiver coragem de postar -‘ah, eu falaria em público’ -, então poste; caso contrário, pense duas vezes. De repente, a tecnologia e o barateamento do custo da tecnologia garantiu o acesso de milhões de pessoas a produtos que tornariam possível a amplificação de vozes via redes sociais, mas também o consumo de informação como nunca se fez antes na história da humanidade, sem que esse público estivesse alfabetizado do ponto de vista midiático e informacional para poder absorver essa informação, fazer uma filtragem de discursos falaciosos, de argumentos de autoridade falsos e por ai vai.

As redes sociais são maravilhosas; elas aproximam pessoas, facilitam revoluções, encurtam distâncias. Mas, ao mesmo tempo, você tornar possível o contato de muita gente que não está preparada pra essa comunicação sem prepará-la pra isso, pode significar que estas pessoas se tornem veiculadoras de boatos e mentiras que possam criar problemas graves pra sociedade, ou mesmo acreditarem em boatos e mentiras porque não estão acostumadas, inclusive, em entender, por exemplo, que uma matéria bem apurada em um veiculo de comunicação tradicional é mais forte que um meme que foi enviado pelo seu “best friend forever” de algum lugar. Existe uma diferença grande e as pessoas não foram preparadas pra isso. E, não sendo preparada, ela pode cair mais facilmente numa rede de mentiras ou se tornar, ela mesma, vetor de difusão de mentiras.

O futuro das redes sociais está diretamente ligado ao futuro da educação pras redes sociais. Nós precisamos pensar em […] educação básica, mas também no ensino superior, em formação do público para poder consumir e produzir conteúdo via redes sociais. ‘Ah, mas eu só posto foto de bichinho e de cachorrinho’. Tudo bem, mas você é exceção. Boa parte das pessoas posta […]. A pessoa às vezes sabe que a informação é complicada, mas posta mesmo assim, porque o like é um “lugar quentinho”. Tem pesquisas que mostram que a pessoa, ao receber muitos likes, tem a produção de […] hormônios que trazem felicidade e sentimento de aceitação.

A grande pergunta é:  conseguiremos educar as pessoas para poderem atuar e trabalhar com todas as potencialidades das redes?  Será que a gente vai aprender com os erros, as difamações,  as violências trazidas pela má formação trazida pelas redes sociais? Ou elas estão fadadas, digamos, à autofagia até que desapareçam por conta da sua incapacidade de garantir respeito à empatia ou à solidariedade?

A gente vai ter que avançar com isso.

ComCiência – A expressão do momento é a pós-verdade, como você vê essa situação? Lembrando que você mesmo foi vítima de notícias falsas divulgadas em redes sociais…

Leonardo Sakamoto – A ideia  de pós-verdade ganha contexto porque ela foi escolhida pelo dicionário Oxford como palavra do ano e, ao mesmo tempo, ela é escolhida por conta do contexto em que foi aprovada a saída do Reino Unido da União Europeia e, é claro, a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA. Pós-verdade, não é algo novo. As pessoas se informarem pelas emoções e não pelos fatos não é algo novo. As pessoas se informam pelas emoções desde sempre. A internet trouxe todo mundo para dentro do debate, mesmo as pessoas que não estavam preparadas para o debate público.

A gente não é educado para o debate público desde cedo. A gente é educado a procurar informações que confirmem e ratifiquem a nossa visão de mundo. A gente não é educado para a diferença, para respeitar a informação que contradiz a nossa visão de mundo. A não ter ódio e raiva da informação que contradiz a nossa visão de mundo e, portanto, nos contradiz.

A pós-verdade ganha o contexto [atual], apesar de estar sempre presente na história da humanidade, por conta do impacto das redes sociais, dessa nova tecnologia de comunicação em tempo real em rede, num grupo grande de pessoas. O ponto é que agora você catalisa e amplifica o problema. Então, o grande medo da revolução francesa ou mesmo os boatos de 1938 com A Guerra dos Mundos, transmitido por Orson Wells,  numa rádio nos EUA. É a transmissão de boatos. A pós-verdade é algo diferente, mas dentro do seu DNA é a mesma coisa. O ponto é que hoje você tem a internet que catalisa esses processos, que torna a possibilidade de você jogar a emoção e não os fatos como o formador de uma narrativa que é aceita publicamente.

É um complicador fazer com que o produtor ou o curador de informação de notícias na rede possa garantir que as pessoas consumam a informação que traz dados que são mais próximos possíveis do que a gente convenciona chamar de realidade ao invés de consumir informação que ela [audiência] até pode presumir que não é verdadeira, mas que vai ao encontro dos desejos dela.  É quase impossível garantir isso.

Gustavo Steffen de Almeida é graduado em Ciências dos Alimentos (USP), mestre em Ciência de Alimentos (Unicamp) e especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp.

Tiago Alcantara é jornalista com especialização em Jornalismo Científico  e mestrando em Divulgação Científica e Cultural, com projeto sobre o potencial da infografia na divulgação da ciência,  ambos pelo Labjor/Unicamp.