A revolução das máquinas

Por Carlos Vogt

O que sabemos sim é que a interação, cada vez maior e mais intensa, do homem com a máquina, da máquina com o homem e da máquina com a máquina, criará, como está criando, novos tipos de intersubjetividade, possibilitando novas formas de emoção e de sensação que também desconhecemos e que, por isso, a exemplo dos estados de consciência, não temos como nomear.

Dentro do hábito de classificar, ordenar e constituir princípios de explicação – o que é também uma tendência, um traço cultural e uma característica das formas de organização do conhecimento –, está o arrolamento de fatos, eventos, datas e acontecimentos que se apresentam como marcos da história da humanidade e de suas transformações.

Assim, no século XX, três grandes marcos do avanço do conhecimento científico e tecnológico são apontados: o Projeto Manhattan, que produziu também a bomba atômica, o Programa Espacial, que, em 1969,  levou o homem à lua, embora boa parte da população do planeta ainda ignore o feito ou nele não acredite;  o Projeto Genoma, possível científica, técnica e tecnologicamente graças, de um  lado, ao desenvolvimento da genética – ao longo do século – e à descoberta do DNA, no início dos anos 1950, e, de outro, ao surgimento da bioinformática e da biotecnologia.

Acrescente-se a isso a velocidade sempre crescente das novas tecnologias de informação e de comunicação, as NTICs, e tem-se o cenário estabelecido das condições propícias a grandes transformações não apenas no mundo das tecnociências, mas no universo, não menos complexo, das relações sociais, políticas e culturais da contemporaneidade.

Estamos, de fato, na iminência de uma nova revolução no mundo moderno? A quarta, na ordem cronológica de grandes acontecimentos indicados como marcos das transformações do homem em sociedade, da sociedade dos homens e do conhecimento, visto como a energia de deslocamento da nave dessa aventura?

Se aceitarmos a cronologia das descobertas e invenções que balizaram as grandes mudanças ocorridas nas relações de produção e de trabalho na história recente da humanidade, a resposta é sim.

De fato, a primeira dessas revoluções tem como marco fundador a descoberta, em fins do século XVII, da máquina a vapor e a transformação da energia térmica em energia mecânica. O padrão de produção manual é substituído pela mecanização numa escala tal que domina o século XVIII e se estende até o começo do século XIX. Com a eletricidade, na metade do século XIX, nova mudança radical, que torna possível a produção em massa.

Um terceiro momento nesse processo transformador se dá após a Segunda Guerra Mundial, no século XX, com o advento da eletrônica e das tecnologias de informação e de comunicação.

Posto assim, parece simples, mas não é. Ao contrário. O impacto de cada uma dessas mudanças sobre o conjunto das relações sociais, políticas, econômicas e culturais foi enorme e definitivo em cada época de suas prevalências e nas consequências acumuladas, nos caminhos estabelecidos e percorridos por sucessivas gerações que, agora, vivem a expectativa, os receios e as esperanças das transformações que se anunciam sob o tópico da quarta revolução industrial, ou  revolução industrial 4.0.

“A quarta revolução industrial”, como diz Klaus Schwab, diretor executivo do Fórum Econômico Mundial e autor de um livro de referência indispensável sobre o tema[1], “não é definida por um conjunto de tecnologias emergentes em si mesmas, mas pela transição em direção a novos sistemas que foram construídos sobre a infraestrutura da revolução digital”.

A automatização total das fábricas, que já vem ocorrendo em um projeto da Alemanha, desde 2013, tornou-se possível graças aos sistemas ciberfísicos tornados realidade pelos avanços da internet, em particular da internet das coisas e da computação em nuvem.

É um mundo totalmente transformado este que se anuncia pela voz, não profética, mas virtual, das tecnociências, sobretudo das TICs e da biotecnologia.

Na hipótese otimista, se as máquinas se ocuparem de tudo, sobrará ao homem o ócio criativo, que é também o título de um dos livros de Domenico De Masi, que marcou época e influenciou leitores espalhados pelo mundo à espera intelectual, às vezes também existencial, desse paraíso da digna vagabundagem na Terra.

Na hipótese mais pessimista, o humanismo e o liberalismo, levados às últimas consequências de seu desenvolvimento, causarão sua própria ruína e o homem, enfim, inútil, militar e economicamente, será vencido e dominado pela inteligência, sem consciência, das máquinas e de super-homens, poderosos, inteligentes e conscientes, embora não se saiba, com quase nenhuma certeza, quais os estados de consciência que os caracterizariam, nos cenários desse mundo transformado e em transformação[2].

Não sabemos, ou sabemos muito pouco ainda sobre esse futuro imediato, até porque o que sabemos sobre o cérebro do homem, embora muito sobre o que já se soube, é pouco em relação à vasta complexidade de seu funcionamento.

O que sabemos sim é que a interação, cada vez maior e mais intensa, do homem com a máquina, da máquina com o homem e da máquina com a máquina, criará, como está criando, novos tipos de intersubjetividade, possibilitando novas formas de emoção e de sensação que também desconhecemos e que, por isso, a exemplo dos estados de consciência, não temos como nomear.

O mundo se transforma e com ele o homem que o transformou, desta vez na companhia das máquinas que são, não apenas a causa, mas também agentes ativos dessa transformação.

[1] Klaus Schwab: A quarta revolução industrial, Edipro, São Paulo, 2016.

[2] Ver, por exemplo, os livros de Yuval Noah Harari, Sapiens – uma breve história da humanidade, LPM, Porto Alegre, 2015 e Homo Deus – uma breve história do amanhã, Cia. das Letras, São Paulo, 2016.