Apesar de ser uma linguagem normalmente associada ao público infantil, pesquisadores apontam tanto a relevância das HQs como fontes históricas para pesquisar o período militar brasileiro quanto sua utilidade pedagógica no ensino de história
Por Luciana Cavalcanti Alvarez
Além de entretenimento e ficção, as histórias em quadrinhos também são utilizadas para contar e documentar processos históricos. As HQs carregam visões de mundo e perspectivas políticas em suas narrativas e nos seus elementos estéticos e gráficos. Esses aspectos são investigados e estudados por pesquisadores interessados em olhar para o período da ditadura militar no Brasil por meio das HQs – que servem tanto como fonte documental de pesquisa sobre o passado quanto como instrumentos pedagógicos valiosos.
Para Thiago Modenesi, historiador e professor na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a imagem tem uma força que supera a escrita pois as pessoas são “seres imagéticos”. Os quadrinhos, ao associarem imagem e texto, têm a capacidade de comunicar ideias para o público de forma muito ampla, marcar o imaginário social, produzir estigmas sobre determinados grupos e críticas à sociedade, além de propagar ideias de diferentes espectros políticos.
Marcelo Fronza, historiador e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), aponta que os quadrinhos são fontes históricas extremamente relevantes para conhecer o passado. Além disso, tais histórias utilizam uma linguagem que dialoga com todos os públicos e, por isso, é um meio útil para a divulgação da história e do pensamento histórico.
Para Fronza, que pesquisa a interface entre educação e histórias em quadrinhos, as HQs têm uma capacidade de sintetizar ideias complexas da teoria da história e a forma do pensamento histórico, que abrange passado, presente e futuro. Elas também contribuem para informar sobre temas difíceis do passado, como a escravidão ou o período da ditadura militar.
“As HQs são excelentes ‘máquinas do tempo’ para trazer temáticas traumáticas do passado, tal como a ditadura militar, e pôr em discussão com os conflitos que os jovens têm hoje em dia”, diz Fronza. Segundo o pesquisador, existe uma grande diversidade de quadrinhos produzidos sobre a temática da ditadura que cumprem um grande papel pedagógico por trazer a dimensão de sofrimento que a ditadura militar trouxe para o Brasil.
Regime militar, críticas e censura
Quando se fala em ditadura militar no Brasil, são vários os exemplos de quadrinistas e personagens que se consagraram ao tecerem críticas e sátiras sobre o regime. Alguns quadrinistas que se tornaram referência são parte de uma geração que se formou em São Paulo nos últimos anos da ditadura. É o caso de Laerte, Angeli, Luiz Gê e Glauco, entre outros, que publicavam quadrinhos críticos ao regime político na revista Balão, da USP.
Outro veículo importante na resistência O Pasquim, criado por Ziraldo, Jaguar e Millôr Fernandes, entre outros jornalistas e artistas. Fundado em 1969, o jornal já nasceu com nome provocativo e atuou como porta-voz de ideias e posições críticas ao regime. Para Fronza, o “Pasquim teve uma importância fundamental” já que muitas histórias eram primeiro publicadas no jornal e depois saíam de forma avulsa em livros.
Outro exemplo é o trabalho de Edgar Vasques, quadrinista gaúcho que criou o personagem Rango, em uma série de quadrinhos publicada de 1970 até 1981. “Rango era um personagem desempregado, barrigudo, sem dinheiro e que vivia num depósito de lixo, que era uma crítica às desigualdades sociais do regime”, conta Modenesi.
Já a famosa Graúna, do mineiro Henrique Filho, o Henfil, foi outra personagem marcante na crítica ao governo militar. Com vários personagens como Ubaldo, o Paranoico, Fradim, Zeferino e Bode Orelana, Henfil produziu um humor ácido e utilizava muitas metáforas para criticar o regime. De acordo com Fronza, o sol e a seca nos cenários da caatinga onde se passavam suas histórias, por exemplo, faziam referência à própria ditadura e denunciavam problemas sociais da época.
De acordo com Amanda Gondim, historiadora e doutora em educação, é importante lembrar que “essas pessoas eram perseguidas pela ditadura, eram presas e no outro dia, quando soltavam, elas iam, voltavam para a Redação, voltavam a escrever, como Henfil e Jaguar. O Jaguar dizia ‘Estão batendo na gente, amanhã a gente volta.’ O Jaguar falava até com comédia, mas é claro que não era comédia. O que eles viviam era a resistência”.
A repressão, de acordo com Fronza, consistiu em censura muito pesada aos conteúdos dos quadrinhos e até em prisões, mas não houve desaparecimentos de quadrinistas como ocorreu na Argentina, com Héctor Oesterheld, criador d’O Eternauta, recentemente transformado em série da Netflix. Oesterheld foi sequestrado em 1977 pela ditadura militar da Argentina e segue desaparecido até os dias de hoje, assim com suas quatro filhas e três de seus genros.
A censura da ditadura também teve como alvo os quadrinhos eróticos publicados pela editora Grafipar, do Paraná, entre 1979 e 1983. É isso que mostram as pesquisas de Leandro dos Santos, designer gráfico e doutor em tecnologia e sociedade pela UFTPR, que investigou os quadrinhos eróticos da personagem Maria Erótica, criada por Claudio Seto, e das revistas Rose e Horóscopo de Rose.
Apesar de não criticarem diretamente a ditadura, essas publicações também foram censuradas pelo regime, que via seus conteúdos como deturpadores da moral e dos bons costumes defendidos pelos militares no poder e pelos setores da sociedade brasileira que os apoiavam. Além disso, essa censura era uma tentativa de reprimir as manifestações e contestações da contracultura, que se propagavam sobretudo por meio das artes, a exemplo da música dos Mutantes ou dos Secos e Molhados.
Assim como os quadrinistas que resistiam ao regime buscavam fazer críticas por meio de metáforas que os censores não entendessem, os editores da Grafipar também encontraram estratégias para se adaptar aos critérios da censura e continuar circulando. Assim, ainda que com embalagens lacradas, em um momento em que a censura começava a se tornar menos rígida, essas publicações circularam nacionalmente e tiveram grande alcance.
Segundo Santos, os quadrinhos são uma mídia de massas e o que eles retratam comunica ideias presentes na sociedade. Por isso, os quadrinhos eróticos publicados ao longo da ditadura militar são uma fonte importante que permite aos pesquisadores olharem para aspectos da sexualidade e da dimensão da intimidade daquele período.
Segundo o pesquisador, esse universo é uma temática difícil de se acessar e sobre a qual há pouco esforço de documentação, especialmente em relação a conteúdos heterodissidentes. Por isso, os quadrinhos eróticos podem ser uma fonte interessante para analisar questões relacionadas à sexualidade de diferentes públicos. Sua tese mostrou que o conteúdo das revistas, a princípio pensado para o público feminino, na verdade tinha como grande maioria de leitores homens gays, o que aos poucos transformou a linha editorial das revistas.
Moral, civismo e bons costumes
Do outro lado da censura e do legado crítico ao regime militar da maior parte dos quadrinistas, Gondim e Modenesi mostram que houve HQs que circularam durante o período que corroboravam os ideais dos militares. Durante seu doutorado, Gondim pesquisou a atuação da Comissão Nacional da Moral (CNMC), instituição criada pela Escola Superior de Guerra (ESG) em 1969 para atuar sobre a política educacional junto ao MEC.
A CNMC determinava o conteúdo da disciplina de Educação Moral e Cívica, presente em todos os níveis de ensino. Para sua surpresa, encontrou entre os materiais pedagógicos aprovados pela comissão histórias em quadrinhos de conteúdo histórico. Em colaboração com Modenesi, Gondim analisou os títulos A viagem da família real, A independência do Brasil em quadrinhos e A Proclamação da República em quadrinhos, produzidos em formato de cartilha.
Esses quadrinhos eram produzidos pela EBAL, a Editora Brasil-América, que segundo Modenesi “foi uma das maiores editoras do Brasil, se não a maior, que tinha um acervo vasto, publicava desde super-heróis da Marvel e da DC, passando por quadrinhos europeus, ingleses, brasileiros, e acabou se tornando uma referência na adaptação de obras literárias”. A editora teve um papel importante na popularização dos quadrinhos no Brasil, mas se adequou aos ideais do regime, como revela a adaptação do personagem Judoka, originalmente de uma editora estadunidense, mas que passou a ser desenhado pela EBAL com roupas nas cores da bandeira brasileira.
Gondim e Modenesi apontam que esses quadrinhos apresentam narrativas falsas e idealizadas sobre a historiografia brasileira e um passado que não existiu. De acordo com os pesquisadores, esses títulos apagam da história os conflitos sociais e as lutas populares presentes ao longo de toda a história da formação do Brasil. Também apresentam figuras como Dom Pedro I e a princesa Isabel como heróis nacionais e exaltam um ideal de civilização centrado na cultura branca e europeia, assim como na religiosidade católica, ignorando a diversidade religiosa e cultural
Depois do fim da ditadura, mais artistas continuaram retratando o período da ditadura militar de ângulos críticos, como é o caso de 1968 – Ditadura abaixo, de Teresa Urban (2008), a ficção Pátria Armada (2016), de Klebs Junior, Ato 5, de André Diniz e José Aguiar (2024) e Subversivos, série de quadrinhos de Diniz publicada entre 1999 e 2001.
Por outro lado, também existem exemplos de tentativas de censura ou narrativas conservadoras no mundo dos quadrinhos. Santos relembra o episódio de censura a uma revista em quadrinhos da Marvel, Os Vingadores, pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, em 2016. Na época, ele determinou o recolhimento da revista, que estampava um beijo entre dois homens na capa. Disse ainda que livros com “conteúdos impróprios para menores” deveriam estar em embalagens pretas e lacradas, com aviso de conteúdo.
Fronza e Modenesi identificam no mercado editorial de quadrinhos atual uma presença crescente de histórias e editoras alinhadas a perspectivas conservadoras, que disputam a forma de contar a história. “Isso é algo que está espraiado na sociedade, não é algo que está fora desse ambiente. A direita é muito forte, os conservadores, inclusive nesse meio de quadrinhos”, observa Modenesi.
imagem: Graúna, de Henfil