Plástico: na maré, nas vidas e na comida das marisqueiras

Por Juliana Schober Gonçalves Lima, Luciana Braga Silveira, Lucas Marquioni de Jesus 

Na maré, em meio a objetos plásticos de todas as cores, formas e texturas, salta aos olhos a forma como as comunidades costeiras lidam com esses resíduos e como o plástico está cada vez mais presente em sua alimentação diária. Em São Cristóvão (SE), caminhar pela zona de transição entre manguezais e áreas urbanas — marcadas por moradias improvisadas e por uma urbanização sem planejamento — revela mais do que um cenário: expõe um modo de vida profundamente moldado e sustentado pelo plástico. O plástico não apenas aparece, ele também organiza a vida cotidiana.

Entre as marisqueiras que vivem e trabalham nesses territórios, o plástico funciona como um indicador silencioso de vulnerabilidade social e ambiental. Ele evidencia a desigualdade entre quem consome e descarta resíduos plásticos longe de onde vive e aqueles que convivem diariamente com o plástico acumulando nos limites de suas casas, no ambiente de trabalho e nos alimentos que coletam na maré para consumo. Nesse contexto, materiais considerados descartáveis ganham novos usos. Fraldas descartáveis, que geralmente seriam jogadas fora após o primeiro uso, são lavadas e penduradas no varal para reutilização.

Marisqueiras voltando da maré carregando na cabeça baldes plásticos contendo mariscos catados no manguezal em São Cristóvão, Sergipe. Autora: Juliana Schober Gonçalves Lima

Garrafas plásticas de cinco litros encontradas à deriva no manguezal contam uma história de desigualdade. Em São Cristóvão, antes de se tornarem resíduo, elas costumam ser reutilizadas repetidas vezes para transportar água de fontes de água mineral distantes até as casas de famílias de marisqueiras que não têm acesso à água potável. O trajeto desses recipientes expõe o impacto desproporcional de desafios ambientais sobre as populações costeiras tradicionais vulneráveis, e evidencia a insegurança hídrica que marca a região. Carregado pela maré, o plástico escancara a injustiça ambiental: ele não atravessa apenas o território, mas também o cotidiano dessas comunidades, influenciando o que se come e a forma como se vive.

Em cada objeto resgatado, reaproveitado ou abandonado, há uma história de necessidade, resistência e adaptação. Assim, baldes plásticos que um dia armazenaram margarina transformam-se em recipientes para carregar mariscos nas longas caminhadas diárias das marisqueiras. No cotidiano delas, o plástico não é apenas resíduo: é ferramenta de trabalho, solução improvisada e, ao mesmo tempo, símbolo da desigualdade que se acumula — assim como ele — na maré.

 Plástico: uma experiência visceral

Segundo as marisqueiras, o plástico é o tipo de lixo mais encontrado nos manguezais, especialmente garrafas utilizadas para armazenar refrigerante ou água e sacolas plásticas de supermercado. Elas também relatam encontrar plástico dentro dos peixes. “Em peixe eu já vi. Dentro de peixe encontro saquinho plástico. Dentro de peixe, eu já encontrei sim”, afirma uma marisqueira que coleta mariscos na região estuarina do rio Vaza-Barris, no município de São Cristóvão.

De acordo com o pesquisador Roberto Schwarz Junior, professor do Departamento de Engenharia de Pesca e Aquicultura da Universidade Federal de Sergipe (UFS), o plástico tem sido uma presença constante no conteúdo alimentar de peixes e outros vertebrados. “Esses animais acabam consumindo acidentalmente fragmentos plásticos ao confundi-los com alimento natural, como invertebrados e pequenos peixes”, explica.

No dia a dia, as marisqueiras observam o lixo no vai e vem das marés. “Se a maré está secando, o lixo vai embora. Quando a maré enche, ele volta tudo de novo, porque fica preso ali, enganchado nas raízes do mangue. Ontem mesmo eu estava passando no canal e vi um saco de plástico cheio de lixo rodando dentro da água. Eu pensei: ‘Isso aí já vai tudo para a maré, vai se espalhar’. É uma judiação”, relata uma delas.

A alimentação das marisqueiras, dos pescadores e de suas famílias é diretamente afetada pela presença cada vez maior de plástico nos manguezais. O plástico não está apenas na paisagem, mas também nos organismos aquáticos e, por fim, na comida diária. Animais marinhos mortos encontrados nas praias de Sergipe são testemunhas dessa realidade.

“Constatamos a presença de fragmentos plásticos em diversos animais encontrados encalhados em praias sergipanas, como aves, tartarugas, mamíferos e peixes. Em aves, foram encontrados com maior frequência pequenos fragmentos de plástico duro, geralmente coloridos, muito provavelmente confundidos com pequenos invertebrados, como moluscos. Já tartarugas e mamíferos marinhos apresentaram, em seus tratos digestivos, diferentes fragmentos de plástico maleável, ingeridos ao serem confundidos com cnidários e peixes”, comenta Schwarz Junior, ao apresentar resultados de suas pesquisas sobre o conteúdo alimentar de animais marinhos na costa de Sergipe.

Segundo o pesquisador, crustáceos (como caranguejos) e moluscos (como ostras), frequentemente consumidos pelas marisqueiras, também contêm resíduos plásticos. “Por serem invertebrados detritívoros ou filtradores, que consomem pequenas partículas de matéria orgânica, é muito provável que ingiram micro e nanoplásticos. Além disso, como muitos desses recursos são consumidos inteiros, sem a retirada do estômago e do intestino, a ingestão dessas partículas por humanos acaba ocorrendo”, alerta.

Surpresas e lembranças de lugares distantes

Mesmo para pesquisadores acostumados a encontrar lixo plástico em animais marinhos, há sempre surpresas. Schwarz Junior relata ter encontrado mais de 50 fragmentos plásticos no estômago de uma única ave, além de um grande pedaço de plástico no interior de um golfinho morto. A atividade pesqueira também gera grande quantidade de resíduos, como linhas de pesca, pedaços de corda e anzóis, frequentemente observados no interior de animais marinhos.

Determinar a origem exata desse lixo plástico é uma tarefa difícil. Segundo o pesquisador, os resíduos podem ser transportados por longas distâncias pelas correntes e giros oceânicos ou pela própria ação humana, por meio da navegação. Ao longo desse trajeto, são ingeridos por animais marinhos, muitos deles migratórios, e passam a integrar a cadeia trófica.

O plástico encontrado nos ecossistemas costeiros sergipanos pode vir de muito longe ou de muito perto — e olhares atentos nos revelam suas origens. Enquanto as marisqueiras identificam rapidamente as sacolas plásticas de uma conhecida rede local de supermercados, o pesquisador Schwarz Junior já se deparou com resíduos plásticos com inscrições em língua árabe no interior de uma tartaruga-verde, indicando um plástico vindo de muito longe, reproduzido na obra intitulada “Mydas” mostrada a seguir.

Mydas. Ela reúne imagens reais de resíduos plásticos encontrados no interior de uma tartaruga-verde (Chelonia mydas), identificada pelo código VSA-BCO-FAI000576, durante pesquisas conduzidas pelo pesquisador Roberto Schwarz Junior. O animal foi encontrado sem vida no litoral de Sergipe. Entre os materiais encontrados, destacam-se fragmentos de plástico com inscrições em língua árabe, linhas de pesca, pellets plásticos esféricos e plásticos flexíveis que, à deriva no oceano, mimetizam algas marinhas — armadilhas visuais que transformam o lixo humano em causa silenciosa de morte. A obra expõe os atravessamentos globais da poluição plástica e suas consequências sobre a vida marinha. Autora: Juliana Schober Gonçalves Lima
Autor: Lucas Marquioni de Jesus

Juliana Schober Gonçalves Lima é coordenadora do Laboratório  Artes, Comunicação e Ecossistemas Aquáticos (LACEA) do Departamento de Engenharia de Pesca e Aquicultura da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp (Labjor). julianaschober@academico.ufs.br

Luciana Braga Silveira é professora e pesquisadora da Universidade Federal de Lavras, integrante do Laboratório Artes, Comunicação e Ecossistemas Aquáticos (LACEA) do Departamento de Engenharia de Pesca e Aquicultura da Universidade Federal de Sergipe. lucianabraga@ufla.br

Lucas Marquioni de Jesus é mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp. marquioni.lucas@gmail.com