Os rastros ambientais da guerra

Ataques a infraestruturas petrolíferas, bases militares e construções civis no confronto entre EUA-Israel e Irã são vetores de contaminação e aceleração da crise ecológica global

Por Juliana Vicentini

Explosões, manchas de óleo, nuvens escuras e fumaça são cenas clássicas de um confronto militar que traz impactos ambientais de larga escala. “A poluição de solos, água e ar – inclusive pelos milhares de cadáveres em decomposição sob os escombros – não conhece fronteiras”, aponta Luiz Marques, professor aposentado do Departamento de História da Unicamp.

O militarismo é responsável por 5,5% das emissões mundiais de gases de efeito estufa (GEE), destaca o Climate & Community. A indústria da guerra é a maior consumidora de combustíveis fósseis que geram grande quantidade de poluentes. A incineração a céu aberto para queimar tanques avariados, destroços de armas, computadores, baterias, aerossóis, metais e muitos outros resíduos industriais, também emitem gases e agravam o aquecimento global, pontua o Costs of War.

A guerra entre EUA–Israel e Irã já gera impactos climáticos em curto prazo. Nos primeiros 30 dias de confronto, 9 milhões de toneladas de CO₂ foram emitidas, um volume superior às emissões anuais de 84 países juntos. O maior fator de emissão é a destruição de mais de 20 mil edifícios, seguido pelo uso de 270 milhões de combustíveis fósseis para aeronaves e embarcações, e ataques aos depósitos de petróleo que queimaram de 5,9 milhões de barris, detalhou o relatório do Climate and Community Institute.

Há 95 conflitos armados ativos no mundo, segundo a Geneva Academy – dentre eles a guerra entre EUA e Israel contra o Irã. Além de ser um conflito com implicações humanitárias, geopolíticas e econômicas, gera impactos ambientais em um local já fragilizado do ponto de vista ecológico. Antes da chegada do primeiro míssil, o Irã já enfrentava uma severa estiagem há mais de cinco anos, com impactos na qualidade de vida da população e produtividade agrícola. Teerã é uma das cidades mais poluídas do mundo, de acordo com o artigo da AUC Geographica. Nesse lugar já pressionado, “as guerras funcionam como um gigantesco acelerador de desestabilização do sistema climático”, afirma Luiz.

“A infiltração de água poluída nos lençóis freáticos e no mar, e o colapso da gestão de resíduos urbanos, aumentarão os riscos de epidemias por bactérias, vírus, fungos. Tudo isso ganhará outra dimensão nos próximos extremos climáticos, pois os coliformes termotolerantes reproduzem-se intensamente à temperatura de 44 °C”, que é recorrente na região, detalha o professor Marques.

O legado tóxico de destruição da infraestrutura energética

Desde o início do confronto, 300 incidentes foram registrados no Irã, sendo 232 com potenciais riscos ambientais, aponta o Conflict and environment observatory (Ceobs). Os locais mais impactados no perímetro da guerra são infraestruturas petrolíferas e militares, incluindo bases de mísseis, instalações e embarcações navais, depósitos de armas e produção de armamento.

Essas ofensivas são tóxicas porque “liberam fuligem, fumaça, partículas de óleo, compostos de enxofre, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e possivelmente metais pesados ​​e outros materiais inorgânicos provenientes da infraestrutura danificada. Além disso, incêndios em instalações petrolíferas também podem liberar enxofre e nitrogênio que podem formar substâncias ácidas ao se dissolverem na água da chuva”, explica o Akshay Deoras, pesquisador da University of Reading, do Reino Unido.

A “chuva negra” como vetor de contaminação

Em Teerã, as condições climáticas e a proliferação de poluentes formaram uma chuva diferente. “Um sistema de baixa pressão, que costuma se deslocar pelo Irã e pelo oeste da Ásia nesta época, criou condições favoráveis ​​à precipitação. À medida em que as gotas de chuva caíam através do ar poluído, funcionaram como pequenas esponjas, coletando partículas e substâncias químicas da atmosfera. Isso explica porque os moradores descreveram o evento como “chuva negra”. Os ataques e a fumaça resultante não criaram a chuva em si. Em vez disso, ela absorveu poluentes que já estavam suspensos no ar, resultando na chuva escura e tóxica”, diz Akshay.

A chuva negra é uma ameaça ecológica que não se dissipa sem deixar rastros e se infiltra nos ciclos naturais. E os impactos não param por aí. “Entre os efeitos a curto prazo possíveis estão dor de cabeça, irritação nos olhos e na pele e dificuldades respiratórias. São riscos significativos para pessoas com asma ou doenças pulmonares, bem como para idosos, crianças e pessoas com certas condições de saúde ou deficiências. A longo prazo eles podem contribuir para problemas respiratórios mais duradouros e cardiovasculares. Alguns dos compostos envolvidos são cancerígenos”, alerta Deoras.

A geografia e a urbanização da capital do Irã intensificam a concentração de tóxicos, pois está localizada em uma área cercada pela cordilheira de Alborz, fato que ajuda a reter fumaça e poluição dentro da cidade. O agrupamento de prédios dificulta a dispersão desses químicos, piora a qualidade do ar e gera uma inversão térmica que aprisiona essas partículas – cenário que pode durar meses.

Os rastros do petróleo no ecossistema marinho

O mar se tornou uma zona de risco ambiental amplificada pela guerra. Há ao menos 28 incidentes marítimos registrados no Oriente Médio, muitos concentrados no Estreito de Ormuz, que foram mapeados pela International Maritime Organization. As explosões e danos a embarcações petroleiras “não apenas liberam petróleo bruto, geram um coquetel tóxico de hidrocarbonetos parcialmente queimados, metais pesados ​​e partículas que se depositam nas águas circundantes”, detalha a Seven Seas Media.

“Derramamentos de petróleo no Golfo Pérsico, no Golfo de Omã e no Estreito de Ormuz podem afetar a vida marinha, contaminando a água, prejudicando os recifes de coral e danificando ecossistemas que dependem da biodiversidade da região. Adicionalmente, a exposição a substâncias tóxicas presentes no petróleo pode prejudicar as indústrias pesqueiras locais e os meios de subsistência de comunidades que dependem do mar para alimentação e renda”, explica o pesquisador da University of Reading.

O ataque dos EUA a uma fragata iraniana resultou em uma mancha de óleo de 20 km de extensão próxima à costa do Sri Lanka, já o Irã, atacou infraestruturas portuárias e afundou embarcações em Abu Dhabi, Dubai, Jabal Ali e Manama, apurou o Ceobs. O Golfo Pérsico possui 36 metros de profundidade, por isso, “o petróleo derramado atinge o fundo do mar e os habitats costeiros muito mais rapidamente do que em ambientes oceânicos abertos”, explica a Seven Seas Media.

Além da contaminação química, também há a poluição sonora subaquática. Ela é proveniente de operações militares e gera estresses biológico nas espécies marinhas. O som de sonares, detonações e embarcações geram ondas de choque e ruídos que desorientam, ferem ou matam animais desse ecossistema. Os mamíferos marinhos como golfinhos são os mais vulneráveis, pois dependem da comunicação acústica para alimentação, acasalamento e navegação, relata a Deep Sea Reporter.

Impacto do comprometimento de complexos militares

As infraestruturas militares dos países envolvidos são alvo frequente de ataques. Em terra firme, algumas foram explodidas e liberaram diversos contaminantes como óleos, metais pesados, compostos energéticos e PFAS. Outras geraram incêndios secundários, os quais raramente destroem todos os materiais residuais de uma vez, gerando poluição adicional que libera dioxinas e furanos, explica o relatório do Ceobs.

Em águas marítimas, o abatimento de navios de guerra também deixa rastros contínuos de contaminação. Essas embarcações transportam combustível, óleos hidráulicos, lubrificantes e munições que, quando afundadas, contaminam as águas circundantes ao longo de décadas. As condições quentes e rasas do Golfo Pérsico aceleram esse processo em navios recém-afundados, fazendo com que os contaminantes se espalhem mais rapidamente do que em naufrágios ocorridos em águas mais frias e profundas, esclarece o Seven Seas Media.

Acordos e justiça

Os compromissos climáticos já mostram sinais de esgotamento em cenários de paz. “Na prática, esses acordos já vinham sendo sistematicamente descumpridos, pois as emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) continuam em alta”, afirma Luiz Marques. Em 2025, as emissões chegaram a 60,63 bilhões de toneladas, o que representa o novo recorde, alerta o Climate Trace. A agenda climática se torna ainda mais frágil diante de interesses militares e geopolíticos.

A destruição de infraestruturas petrolíferas do Irã é considerada como ecocídio. “Os agressores estão liberando materiais perigosos e substâncias tóxicas no ar, envenenando civis, devastando o meio ambiente e colocando vidas em risco em larga escala. As consequências dessa catástrofe ambiental e humanitária não se limitarão às fronteiras do Irã. Esses ataques constituem crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio — tudo ao mesmo tempo”, desabafou em sua rede social, Shina Ansari, chefe do Departamento de Meio Ambiente do Irã.

Enquanto os danos ambientais se acumulam e persistem por anos ou até décadas, a responsabilização raramente acontece. Isso porque “o crime de ecocídio não foi até agora tipificado em âmbito jurídico internacional. “A advogada e ecologista escocesa Polly Higgins propôs uma emenda ao estatuto do Tribunal Penal Internacional para lhe acrescentar o ecocídio como o quinto crime contra a paz. Sem surpresa, as pressões para a remoção provieram”, expõe Luiz.

Hoje, além das lacunas jurídicas, as condições ecológicas amplificam os impactos do confronto. “Um dano ambiental de mesma escala causado por uma guerra tem hoje efeitos piores do que há décadas, porque esses efeitos agem sobre uma biosfera muito mais degradada e vulnerabilizada. Organismos, florestas, solos, ecossistemas, biomas e mesmo o sistema Terra como um todo recuperam-se sempre mais lentamente, com mais dificuldade e com menor capacidade de restauração quando submetidos a ataques recorrentes em intervalos pequenos”, detalha Luiz Marques.

Juliana Vicentini tem pós-doutorado em comunicação ambiental (USP) e é especialista em jornalismo científico (Labjor/Unicamp).