HQ argentina cria o ‘herói coletivo’

Hector Oesterheld, autor da graphic novel El Eternauta, que virou série da Netflix, está entre os torturados e desaparecidos pela ditadura argentina em 1977

Por Janes Rocha

Em 2025 os brasileiros se emocionaram com a saga de Eunice Paiva, viúva de Rubens Paiva, torturado, morto e desaparecido pela ditadura civil-militar (1964-1985). Contada em livro pelo filho, Marcelo Rubens Paiva, a história se transformou em um longa-metragem dirigido por Walter Salles e trouxe para o país seu primeiro Oscar de filme estrangeiro.

Também no ano passado, a Netflix lançou a série argentina O Eternauta, dirigida por Bruno Stagnaro e estrelada por Ricardo Darín, uma adaptação audiovisual da graphic novel homônima de Hector Oesterleld e Francisco Solano López.

As duas produções têm em comum a resistência de seus autores às ditaduras militares que se instalaram em seus países. Publicado inicialmente em capítulos semanais entre 1957 e 1959, El Eternauta é uma ficção científica pós-apocalíptica que narra a história de Juan Salvo, um homem que enfrenta, com um grupo de familiares, amigos e vizinhos, uma nevasca letal que cobre o país, provocada por alienígenas em meio a uma catástrofe global.

Influenciado, na primeira versão, pelas tensões da Guerra Fria, a obra da dupla Oesterheld-Lopez trazia uma mensagem de valores coletivos e de solidariedade, como definia o próprio autor em um prefácio à edição em português da Editora Martins Fontes (2011): “O verdadeiro herói de O Eternauta é um herói coletivo, um grupo humano”.

Coletivo, solidariedade, grupo humano. Eram palavras que provocavam desconfiança em militares opressores e destoavam da ideia de individualismo, pilar do neoliberalismo imposto à força na América Latina a partir dos anos 1970, e no caso argentino, a partir de 1976. Em 1969 a obra ganhou uma nova versão encomendada pela revista Gente, em que Oesterheld acrescentou críticas políticas sutis.

Em abril de 1977, um ano depois do golpe militar, Oesterheld e suas quatro filhas – Diana, Estela, Beatriz e Marina – foram capturados, levados para um centro de detenção em La Plata, torturados e mortos – seus corpos, desaparecidos. Duas das filhas estavam grávidas e os bebês também desapareceram. Sobraram a esposa de Hector, Élsa, e dois netos, filhos das mais velhas. Assim como Eunice Paiva, Elsa Sánchez de Oesterheld dedicou a vida a buscar por justiça e manter viva a história da família.

Segundo Fabio Bortolazzo Pinto, doutor em letras pela Universidade Federal do Vale dos Sinos (Unisinos) que publicou um estudo acadêmico – “Notícias de uma invasão” – sobre El Eternauta, a obra faz parte do “cânone literário argentino e é, ao mesmo tempo, um símbolo político ao qual foram atribuídas diversas significações”. 

Na visão da argentina Silvia Beatriz Adoue, da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara, as semelhanças entre as duas famílias, Paiva e Oesterheld, param na perseguição pela ditadura. Ela lembra que Oesterheld, assim como suas quatro filhas, era engajado na resistência peronista e militou na organização de esquerda Montoneros, que praticava a luta armada em um contexto de resistência ao golpe militar que derrubou o presidente Juan Domingo Perón. A família de Paiva, ao contrário, só entrou para a militância após a desaparição do ex-deputado.

Adoue afirma que El Eternauta trata de um amplo espectro que não se limita à causa do enfrentamento aos governos da direita neoliberal, mas também se refere às ilusões sobre “líderes salvadores” do campo progressista.

“É verdade, como dizem [Pierre] Dardot e [Christian] Laval, que o neoliberalismo não é apenas um modelo de acumulação ou um regime político. Também é o que eles chamam ‘a nova razão do mundo’: uma perspectiva individualista, de desagregação dos laços societários, uma cultura, uma estrutura de sentimentos”, diz Adoue. “Frente a essa maneira de enxergar e estar no mundo, hoje disseminada em toda a sociedade, o assim chamado ‘progressismo’ tem claudicado, coincidindo com a direita ao tratar os cidadãos como consumidores integrados aos mercados por meio de políticas de auxílio à pobreza extrema também focada em indivíduos.”

Janes Rocha é jornalista e escritora, mestre em Ciências da Sustentabilidade pela EACH-USP e aluna do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor-Unicamp. Tem experiência na cobertura de economia, ciência e tecnologia.

imagem: El Eternauta, de Hector Oesterleld e Francisco Solano López