Fediverso: outra internet é possível

Rede que conecta pessoas por meio de múltiplas plataformas, sem algoritmos nem publicidade. Usuários podem escolher instâncias baseadas em seus segmentos sociais e regras próprias, e administradores protegem suas comunidades de instâncias de assédio ou desinformação.

Por Thiago Skarnio 

Uma revolução silenciosa está em curso. Conhecido como Fediverso — junção de “federação” e “universo” —, esse conjunto de tecnologias expande-se globalmente, alterando o uso das mídias sociais.

Sua principal característica é a descentralização por meio de protocolos abertos. Usuários podem criar suas próprias redes ou registrar-se em plataformas instaladas em diferentes servidores (instâncias) e, com uma única conta, interagir com todos os perfis da rede. Imagine ter uma conta no X e poder seguir amigos no Facebook, Instagram e YouTube, compartilhando conteúdos entre todas as plataformas. Imagine que sua escola ou sindicato instalassem em seus servidores redes similares, permitindo que alunos e associados criem contas e interajam. Com sua conta, você poderia comentar em um artigo WordPress e republicá-lo para sua rede. Não precisa imaginar: tudo isso já é realidade.

Assim como no e-mail — contas Hotmail e Gmail trocam mensagens —, no Fediverso você segue pessoas em instâncias diferentes. A identificação segue padrão similar: no e-mail, USUÁRIO@SERVIÇO; no Fediverso, @USUARIO@DOMINIOdaINSTÂNCIA.

O Fediverso é uma “rede de redes” que conecta pessoas por meio de múltiplas plataformas, sem algoritmos nem publicidade. Diferente das big techs, os usuários não ficam isolados. Podem escolher instâncias baseadas em seus segmentos sociais e regras próprias. Se decidirem mudar de comunidade, levam seus seguidores consigo. Administradores podem selecionar com quais servidores se conectar, protegendo suas comunidades de instâncias que permitam assédio ou desinformação.

Uma história construída por muitas mãos

Por que essa revolução é silenciosa? Porque essas tecnologias vêm sendo construídas por pessoas, para pessoas, não por corporações que visam à captura de dados. O que move os desenvolvedores são princípios de autonomia, transparência e governança compartilhada.

O Fediverso tem como marco inicial 2008, com o lançamento do Identi.ca, alternativa ao Twitter, por Evan Prodromou. A tecnologia permitia criar plataformas de microblog, mas as redes não se comunicavam. Evan criou então o OStatus, primeiro protocolo de federação, possibilitando a comunicação entre instâncias.

Em 2011, foram lançados Diaspora (por estudantes da NYU) e Friendica (por Mike Macgirvin). Em julho de 2014, o W3C (The World Wide Web Consortium) criou um Grupo de Trabalho sobre Web Social Federada, que desenvolveu o padrão ActivityPub, publicado em 23 de janeiro de 2018. Esse protocolo passou a ser adotado por várias plataformas, expandindo a rede de servidores federados.

Uma das maiores redes a adotá-lo foi o Mastodon, lançado em 2016 por Eugen Rochko como alternativa ao Twitter. Com design próximo ao das plataformas comerciais e versões mobile completas, o Mastodon popularizou-se rapidamente. Em 2022, a crise no Twitter (agora X), agravada pela aquisição de Elon Musk, gerou migração em massa para o Mastodon, que se tornou a plataforma mais popular do Fediverso. Além dele, o ActivityPub passou a ser utilizado no Peertube (vídeos), Pixelfed (imagens) e Lemmy (fóruns).

O futuro é federado, mas em disputa

A disputa não é mais entre modelos centralizados e abertos, mas sobre qual será o principal protocolo. Nesse contexto surge o AT Protocol, desenvolvido pela Bluesky PB (fundada por Jay Graber com financiamento de Jack Dorsey), também com proposta federada. O AT Protocol tem recursos similares ao ActivityPub, mas foca mais na portabilidade da conta. Atualmente, não há comunicação nativa entre os dois protocolos, mas existem projetos experimentais de pontes.

A principal diferença está na governança: o AT Protocol é controlado pela empresa Bluesky, enquanto o ActivityPub é mantido por uma comunidade sob recomendações do W3C, organização que define padrões fundamentais da web.

A Meta também tem observado a Web Social Aberta. Em 2024, passou a integrar o Threads com o Fediverso — ainda em fase experimental. Usuários do Threads podem seguir e ser seguidos por usuários do Fediverso, mas não podem repostar ou comentar posts federados. Potencialmente, 400 milhões de usuários do Threads poderiam interagir com as redes abertas. “Potencialmente” porque muitos administradores de instâncias bloquearam o domínio do Threads para evitar conteúdo tóxico.

Desafios

O Fediverso enfrenta desafios como infraestrutura escalável, sustentabilidade e moderação colaborativa, que sobrecarrega moderadores voluntários. Mas o maior desafio é a difusão para um público acostumado com arquiteturas que o alienam. A barreira cultural é a mais difícil, já que os posts são entregues por ordem cronológica, sem algoritmos. Recomenda-se fazer um post de apresentação com as hashtags #Apresentação ou #Introdução para que a comunidade acolha o novo usuário.

Ideias para uma web social brasileira

O Brasil sempre foi conhecido pelo uso intenso das mídias sociais. Nos anos 2000, o governo passou a dar atenção à Cultura Digital. Iniciativa emblemática foi a plataforma CulturaDigital.Br, lançada pelo MinC em 2009, desenvolvida em WordPress com recursos de mídias sociais.

Atualmente, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) tem dado atenção especial ao Fediverso, mantendo uma instância Mastodon. José Murilo Junior, que esteve à frente da CulturaDigital.Br, lidera esse processo. Também se destacam as experiências do Nudecri, Labjor da Unicamp e Ibict, que mantêm instâncias, além de um projeto para criação de plataformas federadas na USP.

Em países como França e Alemanha, instituições públicas investem em redes federadas como estratégia de soberania digital, alinhando-se a regulamentos como o GDPR (General Data Protection Regulation).

O governo brasileiro tem condições de dar os principais exemplos de uso das mídias sociais abertas na América Latina. Uma instância governamental em servidores nacionais para diálogo direto com a população, sem que brasileiros entreguem seus dados a big techs, teria baixo custo e permitiria que pessoas seguissem parlamentares de suas próprias instâncias.

O Fediverso conta com instituições dedicadas à sua consolidação, como a francesa Framasoft, a Social Web Foundation, a IFTAS e o FediForum. No Brasil, temos a Alquimídia, primeira organização dedicada ao Fediverso no país. A Alquimídia produz tutoriais e campanhas, além de ser parceira na instância Orgânica.Social. Recentemente, propôs ao CGI.br a criação de domínio específico para mídias sociais, resultando na extensão social.br em 1º de setembro.

O WebSocialBR

Para tratar desses temas, a Alquimídia realizou em dezembro de 2025 no MCTI, em Brasília, o 1º WebSocialBR — Fórum do Fediverso Brasileiro, reunindo administradores, gestores, parlamentares, pesquisadores e comunicadores. O evento foi um marco importante para a Web Social Aberta brasileira.

#VemProFediverso!

Thiago Skarnio é coordenador da Alquimídia e membro do Conselho do FediForum.

Referências:
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