Muito embora os mangás tenham ganhado espaços crescentes em diferentes países desde meados do século 20, por muito tempo não houve uma estratégia deliberada do Japão para utilizá-los a fim de se projetar internacionalmente; sua instrumentalização como ativos de soft power pelo Japão teve início nos primeiros anos do século 21
Por Danilo Augusto da Silva Horta
Piratas, ninjas, alienígenas superpoderosos, colegiais e demônios são partes constitutivas das produções culturais mais populares do Japão: os mangás, um formato de história em quadrinhos com tradição secular no país. Desde o século 18 ocorre a popularização dos mangás na sociedade japonesa, tanto por conta da crescente diversidade de histórias quanto pelos diferentes públicos aos quais tais histórias interessam. Além da popularização na sociedade japonesa, ao longo do século 20 e, em especial do 21, os mangás passaram a ser crescentemente consumidos em todo o mundo. Obras como Akira, Astro Boy, Dragon Ball, Naruto, One Piece e Sailor Moon influenciaram e influenciam gerações em países a milhares de quilômetros do Japão. A crescente importância dos mangás levaram à expansão e ao fortalecimento da indústria de quadrinhos japonesa, tornando-a tanto uma das principais indústrias culturais do país quanto a responsável pela criação dos principais produtos culturais exportados.
Essa indústria está diretamente conectada à de animes, muitos dos quais são recepcionados com mais facilidade no Ocidente e constituem uma porta de entrada para o mercado de mangás. Em 2024, por exemplo, o Brasil tornou-se o 3º maior mercado consumidor de animes japoneses fora do Japão e da China. Para além do âmbito econômico, os mangás possuem um papel central para a diplomacia japonesa, que os utiliza, em conjunto com as animações, como instrumento de soft power.
O conceito de soft power foi desenvolvido pelo cientista político Joseph Samuel Nye Jr (1937-2025), sendo muito mobilizado por diversos autores em disciplinas como Relações Internacionais e Comunicação. De acordo com Mayara Soares Lopes de Araújo, doutora em comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora associada do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT-DSI), Nye Jr. desenvolveu esse conceito para discorrer acerca de ativos de poder que são opostos àqueles de cunho militar e econômico, ou seja, aqueles ativos que compõe o denominado hard power.
“Quando falamos de hard power, falamos de poder bélico, de sanção econômica, de uma espécie de imposição da sua vontade sobre o outro através de um mecanismo coercitivo, do uso da força. E quando vamos falar de soft power, trabalhamos com a ideia de cooptar corações e mentes. Digamos assim, de convencer o outro a fazer o que você quer, sem que você tenha que impor a sua vontade de uma maneira brusca”, explica Araújo.
Cristine Koehler Zanella, professora do departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), compreende que o conceito de soft power foi desenvolvido por Nye Jr. para ofertar à burocracia dos Estados Unidos um ferramental teórico que lhe possibilitasse incrementar a dominação sobre outros povos. “Perceba que no termo existe um elemento de poder, ou seja, se trata de estabelecer uma relação hierárquica”, resume Zanella. Essa dominação perpassa pela construção de imaginários, ideias e ideais sobre determinado país. Dentro dessa perspectiva de dominação ou da conquista de corações e mentes, a dimensão cultural ganha centralidade, visto que é possível mobilizá-la a fim de exercer poder e influência sobre outros atores, tornando-os mais propícios a atenderem aos interesses particulares do ator que instrumentaliza seus ativos culturais.
Não são poucos os exemplos de meios culturais mobilizados por diferentes Estados para criar imaginários favoráveis em indivíduos, povos e nações estrangeiras, e, consequentemente, aumentar seus poderes e influências no Sistema Internacional. Dentre os vários exemplos de países que mobilizam recursos culturais como forma de exercer o soft power estão os Estados Unidos, que exportam, por meio dos filmes de Hollywood e de seus HQs, o American way of life e visões de mundo neoliberais; a Coreia do Sul, com seus produtos culturais característicos tal como o KPOP e os doramas, crescentemente influentes no Ocidente; a China, com os Institutos Confúcio e com suas crescentes produções cinematográficas, que não só cumprem o objetivo de apresentar a cultura chinesa e os valores de sua sociedade ao mundo, mas também tem objetivos político-econômicos definidos.
No caso do Japão, um dos grandes ativos culturais mobilizados como instrumento de soft power são os mangás e os animes, que foram elevados à ideia de alta cultura na sociedade japonesa por causa de sua crescente importância político-econômica nos níveis doméstico e externo.
Muito embora os mangás tenham ganhado crescentes espaços em diferentes países ocidentais e orientais desde meados do século 20, por muito tempo não houve uma estratégia deliberada do Japão para utilizá-los a fim de se projetar internacionalmente. A instrumentalização dos mangás como ativos de soft power teve início nos primeiros anos do século 21. De acordo com Araújo, tal instrumentalização teve início em 2004/2005, muito por conta do termo cool Japan, cunhado pelo jornalista Douglas McGray em 2002. Esse termo foi adotado como guia da diplomacia japonesa, que passou a investir politicamente na exportação de bens culturais a fim de melhorar as concepções sobre o Japão e sobre a sociedade japonesa por não-japoneses.
Uma das medidas diplomáticas do cool Japan foi a criação do Japan International Manga Awards em 2007, política adotada com o fim de moldar a forma de se fazer mangá e premiar os melhores trabalhos realizados nesse âmbito. Segundo Araújo, a criação do prêmio foi fundamental porque “discursivamente ele posiciona o mangá como algo que qualquer um pode fazer; qualquer país pode produzir mangá. E quando ele cria um prêmio, ele também se atribui a responsabilidade de validar o mangá dos outros. Isto é, a partir de si mesmo. Ou seja, posiciona o Japão como dono do mangá”.
Isso é importante pois outros países também buscam utilizar-se dos mangás (ou suas variações nacionais como os webtoons/manhwas sul-coreanos ou os manhuas chineses) para exercer soft power. Mas por essas produções serem identificadas como japonesas, a instrumentalização dos ativos culturais por outros países acaba beneficiando, ao menos indiretamente, o Japão.
Até mesmo brasileiros produzem e exportam mangás para outros países, contribuindo para a melhora das concepções de não-brasileiros sobre o Brasil. Em 2025, o ganhador do 18º Prêmio Internacional de Mangá do Japão foi um brasileiro, Hiro Kawahara, com sua obra A Sereia da Floresta. Além de Kawahara, outros brasileiros também foram premiados nesta e em outras edições do prêmio.
Por causa da estratégia diplomática do cool Japan, os mangás, em conjunto com outros ativos culturais japoneses como os animes e a culinária, tornaram-se cada vez mais presentes em diferentes sociedades.
Para avaliar a força e efetividade do soft power de um país, pesquisadores desenvolveram o Nation Brands Index (NBI), que avalia percepção global sobre cada um dos 60 países politicamente e economicamente mais importantes do Sistema Internacional. Os dados, publicados pela Anholt & Co., empresa responsável pelas pesquisas do NBI, mostram que em 2023 o Japão possuía a melhor imagem internacional dentre os países analisados, o que demonstra a força de seu soft power.
imagem: A Sereia da Floresta, de Hiro Kawahara, ganhador do 18º Prêmio Internacional de Mangá do Japão