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Crime e castigo
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Editorial
Olimpíadas de conhecimento
Por Carlos Vogt
10/10/2015
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A Grécia, entre os séculos VI e V a.C., viu nascer, crescer e amadurecer a democracia em Atenas. Com ela e por ela floresce também um novo gênero literário, a tragédia grega, que constitui uma inovação profunda quer como instituição social, quer como forma de expressão artística quer como experiência humana. Com a tragédia, no teatro, com a democracia como forma de governo, consolida-se a polis como espaço de organização da vida e das relações sociais e dos novos valores entre eles o da justiça e os dos julgamentos públicos para as faltas cometidas pelos cidadãos da cidade-estado. Fundam-se, ao mesmo tempo, os concursos de teatro com competições em que concorrem quatro peças trágicas, julgadas pelos cidadãos que, semelhantemente, podem também participar do julgamento público de crimes contra o estado e a sociedade.

Trata-se, pois de um momento fundador na história da humanidade, do ponto de vista político, do ponto de vista social e do ponto de vista artístico-literário.

Nesse processo de inovação e de consolidação do novo estado de coisas, os concursos têm um papel fundamental.

Como escreve Jean-Pierre Vernant, “instaurando cada ano, para as festas de Dionísio, uma prova em que se confrontam três poetas trágicos, selecionados pelos mais altos magistrados, e cujo regulamento obedece às mesmas normas institucionais que as assembléias e os tribunais populares, já que o concurso é organizado, praticado e até mesmo julgado pelos representantes qualificados das diversas tribos, a cidade grega se faz teatro. Ela se põe em cena diante do conjunto de cidadãos em um espetáculo aberto a todos, recebendo os mais pobres, para sua presença na platéia, uma subvenção do Estado.” 

Desse modo, os ritos religiosos dedicados a Dionísio trazem neles embutido o espetáculo da polis, em que competem mitos, deuses, homens e cidadãos, fortalecendo, pelo jogo teatral, dos concursos, a consciência, nascendo forte, da democracia.

Essa experiência ─ da consciência trágica e da consciência democrática ─ permanecerá indelével na história do pensamento ocidental e lançará o germe do sentimento de que os concursos e as competições se entranham na trama da história permanente da democracia.

Também no século V a.C, na cidade de Élis, deu-se o florescimento maior dos jogos olímpicos, no santuário de Olímpia, em homenagem a Zeus, e que vinham já de uma longa tradição que remonta a cerca de 2.000 anos.

É verdade que esses jogos esportivos tinham na origem um caráter guerreiro e fundamentos belicosos que foram, na sua recriação moderna, em 1896, superados, ao menos ideologicamente, por finalidades de harmonia competitiva entre as nações participantes, o que não impediu, contudo, que em algumas de suas edições, tal como em 1936, em 1972, não se perdesse de vista o ideário pacífico com que as Olimpíadas haviam sido concebidas pelo barão de Coubertin no final do século XIX.

Também um desdobramento, agora mais contemporâneo, das competições olímpicas dá-se com as Olimpíadas de Conhecimento, que ocorrem mundialmente e que no Brasil, além da de matemática, iniciada em 1979, acontecem em vinte áreas distintas, que vão da física à história e a linguística, passando pela astronomia, pela filosofia, pela química, pela biologia, pela informática, pela robótica, pela agropecuária e pela saúde e meio ambiente.

É ao tema dessas competições que se dedica este número da ComCiência, com a convicção e o sentimento de que as disputas organizadas nessas olimpíadas emulam nos jovens, que delas participam, o desejo do conhecimento como condição do bem-estar social e do bem-estar cultural de si e da sociedade em que vivem e que vivem para construir.

Tragédie. In: Nourissier, François. Dictionnaire des Genres et Notions Litteraires. 2a.ed. Paris: Encyclopaedia Universalis: Albin Michel, 2001, p. 904.