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De feiras, ciências e futebol - Carlos Vogt
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Cidades e cidadãos respiram ciência
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Evento promove interação de ciência, tecnologia e sociedade
Ana Paula Morales
Tecnologia a serviço da divulgação científica
Simone Pallone
O despertar de talentos em ciência e tecnologia
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As experiências da Febrace e da Mostratec
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Qual deve ser o papel da escola na formação de uma cultura científica?
José Pichel Andrés, de Salamanca
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Por que a ciência está em todas as partes
Beatriz González Amandi e Ana Victória Pérez
Tradução: Rodrigo Cunha
Monstros, imagens e divulgação científica: políticas da expressão
Susana Oliveira Dias
Fundação atua em pesquisa, divulgação e conservação de patrimônio paleontológico
Fidel Torcida
Tradução: Simone Pallone
Centros públicos de pesquisa do México participam da Empírika
Guadalupe Rivera Loy
Tradução: Rodrigo Cunha
Catavento será parceiro de Unicamp e USP na realização da Empírika 2012
Sérgio da Silva Freitas
Resenha
O preço da solidão
Por Carolina Octaviano
Entrevista
Miguel Quintanilla
Entrevistado por Sabine Righetti e Ana Paula Morales, de Salamanca
Poema
Linear
Carlos Vogt
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Editorial
De feiras, ciências e futebol
Por Carlos Vogt
10/12/2010

O objetivo ideal do divulgador da ciência é que o conhecimento científico, como fenômeno cultural – parte, pois, fundamental da cultura científica própria do mundo contemporâneo -, possa ser tratado e vivenciado como o futebol.

Nesse caso, embora sejam poucos os que efetivamente o jogam, são muitos, na verdade, os que o entendem, conhecem suas regras, sabem como jogar, são críticos de suas realizações, com ele se emocionam e são por ele apaixonados.

Nem todos somos cientistas, como não são muitos os que jogam futebol, profissional e competentemente. Para isso são necessárias, além de talento, condições estruturais de apoio institucional, como recursos, planos de gestão, programas de educação e de formação, que cabem às políticas públicas estabelecer e fazer funcionar, com regularidade e eficácia.

O fato de não jogar futebol não nos impede de amá-lo, de sermos amadores de sua prática, de praticá-lo sempre, mesmo que, na maioria das vezes, “só” pela admiração aficionada de torcedor.

Que seja assim com o conhecimento e com a cultura científica! Que sejamos todos, se não profissionais, amadores da ciência, como torcedores e divulgadores críticos e participantes de sua prática e de seus resultados para o bem-estar social e o bem-estar cultural das populações do planeta.

Nesse sentido, as feiras, os museus, os prêmios e as premiações, os eventos, enfim, de motivação e de mobilização da sociedade para o amor da ciência e do conhecimento, aqueles eventos que nos constituem, não necessariamente como profissionais, mas como amadores da ciência, têm em comum a característica de, na espiral da cultura científica (Vogt, 2003), se situarem no terceiro e no quarto quadrantes, os do “ensino para a ciência” e o da “divulgação científica”, embora, na verdade, se distribuam por todos eles, incluindo, desse modo, o primeiro e o segundo quadrantes, respectivamente, o da “produção e difusão da ciência” e o do “ensino de ciência e formação de cientistas”.

A Feira Empírika é uma iniciativa dessa natureza. Traz em si elementos que marcam todo o processo de desenvolvimento da cultura científica e aponta para a certeza de que, do ponto de vista ético, o compromisso da ciência, da tecnologia e da inovação não só se assina com o bem-estar social das populações, mas se firma também com o seu bem-estar cultural, essa espécie de conforto que diz respeito às relações da sociedade com as tecnociências, envolvendo valores e atitudes, hábitos e informações, com o pressuposto de uma participação ativamente crítica dessa sociedade no conjunto dessas relações.

O bem-estar cultural é, desse modo, como escrevi anteriormente (ComCiência No. 119), um conceito e um estado de espírito que se caracteriza pelo conforto crítico da inquietude gerada pelas provocações sistemáticas do conhecimento.

Poder-se-ia, assim, distinguir duas formas de ignorância que resultariam de duas maneiras distintas de tratar e de relacionar-se com o conhecimento: a ignorância cultural, que se opõe ao conhecimento, propriamente dito, como uma categoria intelectual, no jogo de oposições de conceitos que permitem sua definição relativa e relacional; e a ignorância social, que se opõe ao conhecimento, enquanto saber constituído, ou sabedoria autorizada.

Neste caso, o ignorante é o contrário do sabido ; no outro, opõe-se ao sábio como condição dialética da afirmação de seu conhecimento. Ou seja, a ignorância ou é um estado de carência de conhecimento, ou é um estado crítico de desconfiança em relação ao conhecimento que se tem ou que se pode vir a ter, o que nos permitiria, na forma de um paradoxo, dizer que o objetivo do conhecimento é pôr o homem em estado de constante ignorância cultural.

O que equivaleria a dizer que o bem-estar cultural é um estado paradoxal de qualidade de vida feito, ao mesmo tempo, de conhecimento e de ignorância.

A Feira Empírika é um evento comprometido com o bem-estar social e, de modo particular, com o bem-estar cultural da geografia física e humana desenhada pelo espaço ibero-americano do conhecimento e tem, como um fato da cultura científica, um movimento em espiral que se iniciou em Salamanca, Espanha, em 2010, vem ao Brasil, em 2012, passa por dois outros países da América Latina, em 2014 e 2016, e volta para a Espanha, em 2018, nas comemorações do oitavo centenário da Universidade de Salamanca (USAL).

No ambiente da Feira Empírika, várias iniciativas conjuntas e em colaboração entre instituições foram discutidas e algumas delas apontadas como efetivamente realizáveis nos próximos anos. A primeira delas, já bastante concreta, é, como acima foi dito, a da realização da segunda edição da Feira Empírika, em 2012, no Brasil, mais especificamente na Unicamp, em Campinas, e no Museu Catavento, em São Paulo, que também esteve presente em Salamanca.

Na Unicamp, além do Labjor, deverão estar envolvidos no evento o Museu Exploratório de Ciências e a Agência de Inovação da Unicamp - Inova. A ideia, ainda, é que busquemos a participação da USP e da Unesp e que também o governo do estado, através da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), possa integrar a realização da feira com uma Empírika Virtual, que aconteceria em todos os polos de funcionamento da Univesp espalhados pelo estado. Com esse braço virtual pretende-se também a colaboração de instituições de diversos países que não puderem participar fisicamente da feira, no Brasil, e também a participação do público que estiver distante dos locais onde acontecerão os eventos.

O projeto da II Empírika já está em desenvolvimento e será conduzido de forma conjunta e multilateral, entre as universidades de Salamanca e de Campinas, buscando o apoio de instituições e agências de fomento europeias e brasileiras. A ideia é que, dessa forma, seja possível ampliar ainda mais a participação de outros países ibero-americanos no evento.

A parceria entre o Labjor e o Instituto de Estudos de Ciência e Tecnologia da Universidade de Salamanca (ECyT/USAL), coordenado por Miguel Ángel Quintanilla, prevê, ainda, a publicação da revista eletrônica Empírika, que veiculará conteúdos relacionados à feira, durante o seu funcionamento, e também antes, durante o período de produção do evento. A publicação deve começar em breve na forma de seções na revista ComCiência e na agência de notícias DiCyT.

Também com a USAL, no seu Centro de Estudos Brasileiros, dirigido por Gonzalo Gómez Dacal, foi discutido, na presença de pesquisadores da área de comunicação e de representantes da imprensa de Salamanca, na forma de uma mesa redonda, o projeto de um evento periódico para a discussão sobre as diferenças entre o processo de produção de informação no Brasil e na Espanha, e como tais processos atuam na criação da opinião e percepção pública.

Por último, mas não menos importante, está a cooperação entre Labjor e ECyT, no âmbito acadêmico, que será oficializada em breve na forma de um convênio. Tal parceria visa promover o intercâmbio de conteúdos, professores e alunos dos programas de mestrado entre as instituições. Segundo a vice-reitora de Relações Internacionais e Institucionais da USAL, Noemí Domínguez García, a possibilidade de uma dupla titulação é real e almejada pela instituição.