Punição na ciência através dos tempos

Por Gustavo Steffen de Almeida

A ciência e o método científico não se dão em um contexto neutro, livre de quaisquer influências. Assim, ainda que a perseguição e as punições ocorram em diferentes épocas e sob distintos motivos, é preciso diferenciar os perseguidos por seu fazer científico (proposição de teorias, formulação de hipóteses e defesa de pontos de vista) daqueles perseguidos por questões políticas ou étnicas. Essa fronteira, entretanto, nem sempre é bem definida.

A ciência atual foi operacionalizada, através do chamado método científico, em meados do século XVI. Antes disso, era, basicamente, compreendida como filosofia; ciência e práticas pretensamente científicas caminhavam juntas, como era o caso da astrologia e astronomia, química e alquimia, entre outras. Até se consolidar como um método, muitos dos que faziam ciência eram vistos, durante o período medieval, como bruxos ou feiticeiros.

Isso, obviamente, não era bem visto pelos poderes estabelecidos. A Igreja Católica passou a analisar mais proximamente o que faziam esses “filósofos-bruxos”. Dada a influência que exercia sobre os poderes políticos, a Igreja, através dos tribunais da inquisição, julgou muitos deles passíveis de serem punidos por heresia – seja com prisão e perda de direitos, seja com a tortura e morte na fogueira. A principal intenção era que tais pensadores abjurassem às suas ideias, ou seja, deixassem de proferi-las publicamente e desmentissem o que uma vez disseram. Quando faziam isso, recebiam – pelo menos em parte das vezes – sanções mais brandas, como prisão domiciliar. Quando se recusavam, poderiam ser torturados ou assassinados. Além disso, frequentemente, suas obras e escritos eram destruídos (não raro na mesma fogueira que seus autores).

“Historicamente falando, na idade média, começo do renascimento, começaram a aparecer ideias mais conflitantes, em que o homem passou a questionar o universo, a natureza, de uma forma mais metódica. E aí começaram a surgir conflitos ligados à religião”, diz Rundsthen Vasques de Nader, pesquisador e professor do programa de pós-graduação em história da ciência, das técnicas e epistemologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (HCTE/UFRJ).

Dentre os pensadores que defendiam pontos de vista aos quais poderíamos atribuir cunho científico a sofrerem perseguições, podemos mencionar Cecco d’Ascoli, Lucilio Vanini, Miguel Servet, Pietro d’Abano, Roger Bacon, Guilherme de Ockhan. Além de Galileu Galilei, que propunha a teoria da Terra girando ao redor do Sol, baseando-se nas ideias de Copérnico. Alguns, como Galileu, abjuraram ou “se arrependeram” do que disseram – ele recebeu a punição de prisão domiciliar e viveu sua vida sem maiores problemas tendo, no entanto, suas obras sob vigilância.

Outros se negaram a mudar de opinião e acabaram passando por horrores indescritíveis, como foi o caso de Lucilio Vanini, que, alega-se, chegou a propor no século XVII uma proto-teoria de que os seres humanos descenderiam de macacos. Se Darwin, duzentos anos depois, desagradou a muitos, não é difícil imaginar o fim de Vanini. Final trágico teve, também, Miguel Servet, pensador espanhol que se dedicou a áreas que iam desde medicina à astronomia e geografia. Conhecido por propor um dos primeiros modelos de circulação pulmonar do corpo humano, foi acusado de heresia por divergências teológicas tanto com católicos quanto protestantes; foram os seguidores de Calvino que o denunciaram aos tribunais da inquisição e que o condenaram à fogueira.

“O pior momento foi na mudança da idade média para o renascimento, quando várias teorias e formas de enxergar o mundo foram contestadas”, examina o pesquisador da UFRJ, citando outro caso emblemático de perseguição aos contestadores: “Giordano Bruno foi queimado na fogueira porque escreveu um livro que falava da pluralidade dos mundos e aventava a possibilidade de existir até vida em outros planetas”.

Não se trata de atacar a Igreja Católica – a instituição, é preciso reconhecer, foi importante inclusive para a criação das primeiras universidades, ainda no período medieval – mas é difícil negar que a inquisição foi um impactante período de perseguição à ciência e ao livre-pensamento, que teve significativa influência histórica. Nader afirma que, apesar de a perseguição da Igreja àqueles que contestavam as ideias estabelecias ser muito forte, isso não afastou as pessoas de tentarem entender o universo. “Com o advento do telescópio, com Galileu mostrando como as coisas realmente pareciam, que a Lua não era perfeita, tinha crateras, que existiam outros planetas e esses planetas tinham satélites […], a igreja começou a ter que, pelo menos, aceitar, de alguma forma, esse tipo de modo diferente de enxergar a natureza”, analisa.

Ciência moderna, perseguição antiga

Tendo sido consolidado o método científico, tampouco seguiu fácil propor ideias novas. Os séculos XIX e XX foram recheados de exemplos de cientistas cujas ideias custaram muitos problemas – e até mesmo a própria vida.

Nas primeiras décadas do século XIX, havia uma grande mortandade das mulheres que davam à luz em hospitais com o auxílio de médicos, chegando a mais de 30% das parturientes. A causa era a chamada febre puerperal. Um jovem médico húngaro, Ignaz Semmelweis, percebeu que isso acontecia no hospital onde trabalhava, em Viena, Áustria. O número de mortes, constatou, era substancialmente maior entre as mulheres atendidas por médicos do que entre aquelas auxiliadas, como antigamente, por parteiras. Investigando as evidências, o jovem deduziu que os médicos eram os responsáveis por contaminar as pacientes, pois usavam os mesmos aventais imundos, com os quais dissecavam cadáveres, na realização dos partos. Modificando-se a prática, os números melhoraram rápida e consistentemente.

Apesar de, hoje, parecer bastante óbvia a conclusão de Semmelweis, à época ela não foi nem um pouco bem recebida. Um avental sujo de sangue e fluídos era um “atestado de qualidade” para o médico; trazia respeitabilidade. Propor que os médicos lavassem seus aventais – e suas mãos! – soou exatamente como um insulto, e o trabalho do húngaro foi desacreditado pela comunidade médica. Por continuar a defender intransigentemente o que propôs, Ignaz acabou – a exemplo dos cientistas medievais – adquirindo vários inimigos, que, por fim, o internaram forçosamente em um sanatório, onde morreu vítima de maus-tratos.

Ditaduras e ciência

Governos autoritários sempre se mostraram lugares pouco propícios ao debate de opiniões e às discussões científicas. Independentemente da matiz ideológica dominante, acadêmicos de diferentes áreas se viram punidos por propor ideias contrárias às únicas aceitas pelos poderes estabelecidos.

Na década de 1940, na União Soviética, uma divergência entre pontos de vista teóricos levou um cientista a altos cargos de confiança e outro à morte na prisão. O botânico russo Nikolai Vavilov construiu uma sólida carreira na pesquisa científica e era reconhecido internacionalmente pelas suas contribuições – ele é até hoje lembrado por ter juntado e catalogado uma coletânea enorme de sementes de plantas alimentícias vindas de muitas partes do mundo, o que, esperava, seria útil para combater períodos de fome na Rússia. Alinhado às modernas tendências científicas, Vavilov era adepto e defensor da genética mendeliana, que era a base conceitual utilizada no mundo todo para as técnicas de melhoramento de plantas, e que contava com sólida fundamentação.

Entretanto, apesar de todo respeito que desfrutava na comunidade científica, as ideias de Nikolai foram preteridas pelas de outro cientista, Trofim Lysenko. Lysenko coadunava às ideias de características adquiridas durante a vida que eram passadas aos descendentes, tendo criado uma leitura particular da teoria lamarckista, batizada de lysenkoísmo. No entendimento do líder soviético Joseph Stalin e do Partido Comunista, as ideias de Trofim eram condizentes com a teoria marxista e, portanto, mereciam apoio. Ele foi, assim, indicado ao cargo máximo da ciência soviética. Por outro lado, Vavilov, que chegou anteriormente a chefiar instituições científicas de prestígio em seu país, foi acusado de defender teorias alinhadas à burguesia e ao grande capital estrangeiro. Foi tratado como traidor e condenado à prisão, em 1943, num gulag na Sibéria onde morreu, literalmente, de fome.

Mais do que Vavilov, a decisão autoritária e anticientífica de Stalin matou por desnutrição milhões de cidadãos soviéticos quando as infundadas ideias de Lysenko, aplicadas à agricultura, trouxeram perdas incalculáveis às safras de trigo. Dando um salto para tempos mais atuais, não parece exagerada a comparação com outros líderes políticos que podem impor perdas irreparáveis ao refutar as evidências científicas em nome de preferências ideológicas, como Donald Trump e sua negação enfática às mudanças climáticas.

Ainda na União Soviética, outro caso que merece nota é o do acadêmico e jurista Evgeni Pachukanis que, por propor uma leitura da teoria do direito diferente da defendida pelo alto- comando soviético, foi preso e assassinado em 1937.

Outro período especialmente complicado para muitos cientistas foi o nazismo. Na Alemanha pré-ascensão de Hitler, muitos cientistas de alto escalão eram judeus. Além de imensamente importantes para o desenvolvimento da própria Alemanha, muitos desses pesquisadores figuravam entre os mais respeitados do mundo em diversas áreas. Uma das primeiras medidas antissemitas do líder nazista foi banir de todos os cargos públicos – situação em que se encontrava quase a totalidade dos cientistas – os judeus. De uma hora para outra, cientistas altamente conceituados foram demitidos, e suas pesquisas, ainda que de ponta, foram simplesmente descontinuadas. Nesse processo de “arianização” do país, cientistas como Erwin Schrödinger e Albert Einstein abandonaram sua terra natal, exilando-se nos EUA e, inclusive, auxiliando os aliados a vencerem a guerra. Como elucida o livro O presente de Hitler, de J. Medawar e D. Pyke (2003), além de moralmente repreensível, a atitude de Hitler foi um tiro no pé para o próprio regime nazista, que, do dia para a noite, se privou dos melhores cientistas do mundo.

O Brasil e boa parte da América Latina também presenciaram, recentemente, regimes que perseguiam cientistas: as ditaduras militares. Essas acabaram levando muitos cientistas ao desemprego, ao exílio, ou mesmo à prisão e ao assassinato.  No caso brasileiro, a ditadura civil-militar, que se estendeu de 1964 a 1985, tolheu direitos políticos de muitas pessoas que, de uma forma ou de outra, discordavam dos rumos da política nacional e exigiam a participação democrática. Os cientistas e acadêmicos, por desenvolverem um trabalho no qual o pensamento livre deve ser a base, se opuseram em grande número aos ditames dos governantes militares. Isso, como era de se esperar, não passou batido e lhes rendeu as mais diversas punições.

Em outros países latino-americanos as ditaduras tampouco perdoaram os cientistas dissidentes. Em El Salvador, o renomado psicólogo espanhol Ignacio Martín-Baró foi assassinado pelo regime militar por defender ativamente modelos políticos menos autoritários.

A autopunição

A atividade científica pode afetar profundamente a vida das pessoas em vários aspectos. Mesmo quando os cientistas têm condições e direitos garantidos para desenvolver seu trabalho, dilemas morais podem exercer pesada influência. Por afetar muitas pessoas, a obra de um cientista pode tornar-se grande e pesada demais até para si mesmo.

No ano de 1978, nos EUA, uma fotógrafa jovem e plenamente saudável caiu subitamente vítima de uma estranha doença. Com pústulas pelo corpo a doença parecia-se muito com a varíola, apesar de ser considerada erradicada do mundo por vacinação em massa alguns anos antes. Infelizmente, o diagnóstico se confirmou e Janet Parker acabou falecendo e tornando-se a última vítima da varíola conhecida. A maneira como ela foi infectada, no entanto, é que permite que sua história seja aqui relatada. Parker foi contaminada no ambiente de trabalho, através dos dutos de ventilação, por cepas do vírus da varíola mantidas pelo professor Henry Bedson, em seu laboratório de virologia, onde realizava pesquisas. O professor Bedson atribuiu como sua culpa a falta de cuidados com o vírus, mantidos em ambiente inadequado quanto aos parâmetros de segurança, e a consequente infecção da jovem. Desolado pelo resultado inesperado e trágico de sua pesquisa, matou-se dias depois de confirmado o diagnóstico da fotógrafa. Uma maneira de se autopunir por sua pesquisa (e negligência) desastrosa.

Um caso bastante próximo dos brasileiros é o de Alberto Santos-Dumont, um de nossos mais renomados inventores. Santos-Dumont teria ficado extremamente triste ao descobrir que sua mais célebre invenção, o avião, estava sendo utilizada como máquina de guerra. Sendo – ao contrário de seus notórios “concorrentes”, os irmãos Wright – pacifista, o brasileiro teria, em virtude disso, cometido suicídio. Ainda que possa haver algo de folclórico nessa história, não há dúvidas de que, já acometido por uma séria depressão, o inventor do avião teria se sentido profundamente consternado com o que foi feito de seu invento, o que contribuiu para agravar seu quadro.

Outro exemplo de autopunição foi o do cientista George Price, num caso um tanto complexo. Price estabeleceu teoremas matemáticos que comprovavam aspectos da teoria da evolução bastante polêmicos. Para ele, suas equações desacreditavam a crença em intervenções divinas nos seres vivos e nos rumos das atividades humanas, confiando tudo à ação dos genes. De maneira um tanto inexplicável, entretanto, em virtude de imaginar-se imbuído de uma missão dada por Deus, Price passou, abruptamente, de ateu a cristão fervoroso. Apesar disso, não conseguia mostrar como suas equações pudessem estar erradas; elas propunham, entre outras coisas, que o altruísmo verdadeiro não existia, sendo, na verdade um tipo de “egoísmo disfarçado” ditado pelos genes. A maneira encontrada por George para desmentir o que ele mesmo tinha proposto foi tornar-se radicalmente altruísta, pois assim demonstraria que é possível realizar ações que não o beneficiassem diretamente, contradizendo as premissas evolutivas. O cientista deu todas as suas posses para mendigos e desabrigados, inclusive sua casa, e passou a morar na rua. A despeito disso, continuou psicologicamente perturbado com as divergências aparentemente incontornáveis entre o que acreditava e o método científico, e tirou a própria vida em 1975.

As punições na ciência de hoje

É importante ressaltar que ainda existem países onde regimes totalitários estão implementados – alguns há décadas – o que influencia sobremaneira a atividade dos cientistas. “Em Estados totalitaristas – Coreia do Norte, por exemplo – eles pegam cientistas para construírem armamentos”, coloca Rundsthen, da UFRJ, “basicamente esses Estados que são mais fechados cooptam cientistas […] para fazer o que eles quiserem, que seja de seu interesse, e não perguntam se você quer. A ciência está cerceada nesses países, nesse sentido. Ou você está com o governo, ou está contra – e não vai fazer mais nada como cientista”, complementa. Outros exemplos que cita o professor são Irã e Síria, onde a atividade cientifica está, em grande medida, atrelada aos ditames dos governantes.

Apesar disso, é evidente que, no mundo contemporâneo, os cientistas passaram de perseguidos a figuras respeitadas, cujas opiniões balizam muitas das decisões tomadas a nível político, econômico e social. No entanto, nesse novo cenário, mesmo em países democráticos, novas formas de perseguição podem se abater sobre a atividade científica.

A comunidade científica pode se tornar extremamente fechada em alguns campos, o que, não raro, pode privar ideias inovadoras de florescer, por não se enquadrarem nas teorias vigentes mais aceitas. “Quando você tem uma ideia muito inovadora sobre determinado aspecto da ciência (por exemplo, tem uma teoria de que o Big Bang, na verdade, não começou do zero; existia uma coisa antes), se você manda para publicação um artigo desses, vai cair, fatalmente, nas mãos de pessoas que já tem todo um trabalho de uma vida inteira calcado naquilo que esse seu trabalho diz que não funciona, que está errado”, comenta Nader. “Obviamente, isto gera um conflito de interesse. É um boicote, um isolamento corporativo da própria ciência, em que você não pode publicar nas revistas de maior prestígio”, critica.

O professor explica que, pela ciência atual ser eminentemente ligada a questões de financiamento, pode ser esse um empecilho para que novas ideias sejam aceitas, uma vez que poderiam retirar verbas das ideias “antigas” já consolidadas. No oposto do que acontece nos citados países onde há forte controle estatal da produção científica, nos países de economia aberta é o poder econômico que dita o que é digno de obter financiamento e, muitas vezes, o que merece e o que não merece credibilidade.

Um exemplo bastante preocupante é o de pesquisadores que, desde o começo do século XXI, se mostraram críticos aos chamados alimentos geneticamente modificados (OGM), essencialmente os transgênicos. É nítido, pelos suntuosos aportes de investimentos despejados, que o tema dos OGM é de interesse das grandes empresas de biotecnologia multinacionais; é um mercado imensamente lucrativo. Deste modo, propor ideias opostas a essa tendência pode trazer, ao invés de financiamento, alguns adversários.

O professor da Universidade de Berkeley, Ignacio Chapela, enfrentou crescente perseguição por entidades científicas quando publicou, em 2001, artigo na revista Nature comprovando a presença de transgenes (genes provenientes de outras espécies) em variedades de milho tradicionais do México. As críticas foram tantas e tão duras que o periódico publicou uma retratação do artigo. Apesar de outros estudos posteriores, repetindo o que fizera Chapela, encontrarem as mesmas evidências de contaminação do milho, os desgastes à imagem e a carreira do pesquisador foram permanentes.

Algo similar aconteceu com Arpad Pusztai, pesquisador húngaro que trabalhava no Reino Unido e passou a sofrer perseguições acadêmicas após publicar, na renomada revista The lancet, artigo demonstrando potenciais problemas intestinais em ratos decorrentes do consumo de batatas geneticamente modificadas. A situação culminou com sua demissão do Instituto de Pesquisa Rowett, na Escócia.

Há alguns anos, o tema voltou à baila em outro caso, o do pesquisador francês Gilles-Éric Serralini. Serralini e sua equipe, da Universidade de Montpellier, demonstraram que o consumo de milho transgênico cultivado com o agrotóxico glifosato pode causar tumores em ratos. O trabalho rendeu um artigo cientifico publicado na revista Food and chemical toxicology, de grande respeitabilidade na área. Não tardou para que defensores dos OGM disparassem ferozes críticas contra a metodologia do trabalho, defendendo que este não possuía mérito. Por grande pressão dessa parte da comunidade científica e também de setores ligados a grandes empresas de biotecnologia, a revista publicou uma retratação do trabalho.

Ainda que seja legítima a discordância e o embate de ideias dentro da ciência, o que marcou foi a virulência com que o trabalho foi atacado e a rapidez com que sofreu o retract. Em sua defesa, Serralini disse que era de se estranhar que seu artigo passasse por um escrutínio público tão minucioso enquanto os testes realizados pelas grandes companhias para “comprovar” a segurança de transgênicos – e viabilizar os plantios comerciais – pouco são questionados, ainda que possuam metodologia débil. Por fim, o trabalho foi republicado na revista Environmental science Europe, mas a controvérsia persiste.

O fato de revistas que estão entre as mais conceituadas do mundo – e que passam por processos de peer-review bastante rígidos – reconsiderarem os artigos que já tinham aceitado pode ser um indicativo de quanto, na ciência moderna, as críticas, com suporte econômico ou não, podem ser devastadoras.

Gustavo Steffen de Almeida é graduado em ciências dos alimentos (USP), mestre em ciências de alimentos (Unicamp) e especialista em jornalismo científico pelo Labjor/Unicamp.