Por mais que as universidades tenham acenado para uma maior abertura em relação ao tipo de material que utilizam para basear os seus estudos, alguns obstáculos ainda são percebidos pelos especialistas que trabalham com quadrinhos
Por Arthur Almeida
Durante muito tempo, a História enquanto disciplina científica apresentou uma visão muito limitada sobre aquilo que poderia ser utilizado como fonte de pesquisa. Não à toa, foi só no último século que os acadêmicos deixaram de olhar exclusivamente para fontes de pesquisa histórica consolidadas, como cartas, diários, jornais e legislações, e passaram a se abrir – ainda que a passos lentos – para o estudo do passado e do presente a partir de documentos de outras naturezas, como as histórias em quadrinhos (HQs), que mesclam textos e imagens de forma estilizada
As histórias em quadrinhos possuem diversos gêneros, que vão do infantil ao erótico e do humor ao realista, podendo ser publicadas como livros, tirinhas, graphic novels e fanzines. “As HQs permitem um tipo de aprofundamento que outros materiais não proporcionam, contrapondo uma representação gráfica estilizada a uma narrativa pesada de acontecimentos, como guerras e perseguições”, explica Waldomiro Santos Vergueiro, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos.
Assim, uma HQ pode trazer ao pesquisador vislumbres da mentalidade dominante, perspectivas e informações sobre fenômenos históricos importantes, críticas políticas subliminares ou mesmo consequências da vigência de políticas públicas. Tais elementos representam dados valiosos para a compreensão de um momento histórico. E, como destaca a historiadora Priscila Pereira, professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas, não faltam exemplos de produções para ilustrar esse exercício.
Internacionalmente, Persépolis (2000), a autobiografia de Marjane Satrapi, serve como um relato íntimo acerca da Revolução Islâmica no Irã; e O Eternauta (1957), de Héctor Oesterheld e Francisco López, conta sobre a resistência durante a ditadura militar argentina. Já no cenário nacional, Angola Janga (2017), de Marcelo D’Salete, trata dos conflitos no Quilombo dos Palmares; e Os brasileiros (2009), de André Toral, foca nos embates travados entre indígenas e portugueses nas terras do que viria a se tornar o Brasil.
Metodologia tão legítima quanto outras
O historiador Rodrigo Araujo Pedroso, que atualmente realiza pós-doutorado em História na USP, avalia que as HQs ainda são pouco citadas em projetos de estudo por encontrarem muita resistência no processo de incorporação pelas universidades. Na sua visão, existem duas razões principais para isso: o preconceito com a Nona Arte e o comodismo dos acadêmicos.
“Especialmente no Brasil, as HQs ainda são vistas como produtos infantis que não deveriam ser objeto de estudo acadêmico. Já aconteceu de eu estar em algum evento científico apresentando minha pesquisa sobre quadrinhos e outros profissionais me olharem torto”, lembra Pedroso. “Outro problema é a comodidade dos professores titulares. Muitos não querem sair da sua zona de conforto, então não exploram ou não aceitam orientar projetos que utilizem metodologias com que eles não estão acostumados, como a análise de quadrinhos.”
Vale salientar, porém, que essa metodologia compartilha muitas similaridades com outros métodos de pesquisa que foram acatados pela academia com muito mais facilidade. É o caso do cinema, por exemplo, que é utilizado como fonte de pesquisa não somente na História, mas em outras áreas do conhecimento, enquanto os quadrinhos seguem marginalizados.
As similaridades com outras metodologias também se encontram nos cuidados necessários para se trabalhar com as fontes. Como nos jornais e nas obras literárias, a investigação de HQs exige que o especialista interprete o texto sempre considerando o contexto no qual ele foi produzido, mantendo-se atento às subjetividades do autor e até aos seus preconceitos.
“A ausência de pessoas negras em uma história em quadrinhos pode indicar a intenção, declarada ou não, de apagar a presença e a importância deles na sociedade”, alerta Vergueiro. “Da mesma maneira, a representação de mulheres predominantemente em papéis subalternos pode sinalizar para uma visão machista da realidade.”
Tal questão reitera a percepção de que a história de um quadrinho não é uma verdade absoluta, tampouco apenas um fruto da ficção. Mesmo narrativas de super-heróis retratam a realidade de alguma forma, à medida que expõem aspectos do contexto histórico-social em que foi produzida.
Para exemplificar isso, Pedroso lembra de seu mestrado, em que analisou o atentado de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center a partir de uma série do Capitão América. Por mais que o personagem tenha sido criado para encarnar os valores dos Estados Unidos, isso não significa que certas posições do país não fossem criticadas. “Os vilões não foram apresentados como ‘terroristas’, mas como vítimas do imperialismo, cujas ações eram movidas pelo desejo de vingança”, descreve o especialista.
Futuro da pesquisa em quadrinhos
O mercado brasileiro atual de quadrinhos é dominado por obras estrangeiras, sobretudo dos Estados Unidos e do Japão, e pelas produções de Mauricio de Sousa, autor da Turma da Mônica. Mas outros produtores nacionais têm conseguido conquistar certo espaço por meio da internet, em plataformas específicas e nas redes sociais.
Carol Ito é um exemplo disso. A jornalista é conhecida por suas reportagens em formato de histórias em quadrinhos, como Três Mulheres da Craco (2022), publicada na Revista Piauí, que lança luz aos problemas enfrentados pelos frequentadores da Cracolândia, uma região de venda e uso de drogas no centro de São Paulo. De acordo com ela, o desenho traz uma abertura para que o público geral se interesse por certos assuntos que não chegariam até ele de outra forma.
“‘Eu não teria lido uma reportagem sobre Cracolândia se não fosse em quadrinhos’. Ouço muito esse tipo de comentário sobre os meus trabalhos e, por isso, acredito que a subjetividade e a poética do desenho acabam cativando o leitor de uma forma mais imediata e emocional”, pondera Ito. “Fora que suprimir parte do texto em imagem também é um jeito de tornar a comunicação com o leitor mais sintética, sem perder a profundidade e a complexidade da discussão. Em um contexto no qual estamos disputando a atenção do público o tempo inteiro, essa linguagem aparece como um ganho.”
Para além do maior acesso aos leitores da população em geral, o fortalecimento das HQs nos ambientes digitais também pode trazer benefícios aos pesquisadores desse tipo de produto. Isso porque permite uma preservação mais segura das histórias e o uso de hiperlinks e arquivos multimídia, que enriquecem o material. Com isso, o acesso e a utilização desses materiais como fontes de pesquisa são facilitados.
“O crescimento das HQs independentes e digitais amplia o potencial dessas obras como fonte de pesquisa, à medida que facilita enormemente o seu acesso”, observa Pereira. “Obras que antes estavam restritas a publicações físicas ou distribuídas localmente agora podem ser encontradas online, lidas em qualquer lugar e por qualquer pessoa com conexão à internet, inclusive pesquisadores em regiões distantes.”
Mas nem tudo são flores. Pereira aponta que a digitalização dos quadrinhos pode ainda trazer novos desafios metodológicos e conceituais. Ela levanta questões sobre a autoria anônima, a variabilidade de versões e as perdas ou alterações no layout e cores, a depender do dispositivo de leitura. “A HQ digital exige do pesquisador maior rigor para avaliar fontes, contextos de publicação e possíveis vieses de acesso e visibilidade”, ressalva.
Arthur Almeida é graduado em Jornalismo (FAAC/Unesp) e cursa especialização em Jornalismo Científico (Labjor/Unicamp).
imagem: Angola Janga (2017), de Marcelo D’Salete (Editora Veneta)