Uma rede institucional deve reorganizar os incentivos que moldam a arena digital para preservar a capacidade de influência recíproca. Isso exige governança legítima com regras claras e transparentes, participação efetiva da comunidade, instâncias reconhecidas de mediação e possibilidade de recurso.
Por Márcio Moretto Ribeiro e Roberta Silva de Lima
Há uma crítica, recorrente e pertinente, de que as universidades públicas brasileiras operam de forma autocentrada, distantes dos conflitos e dos circuitos em que a sociedade disputa sentidos. A universidade deveria ser mais integrada à sociedade, não apenas difundindo melhor seu conhecimento, mas transformando sua própria produção científica no diálogo com outros públicos. A legitimidade da ciência depende da capacidade de participar do debate social com responsabilidade e compromisso com o interesse comum.
Hoje, essa interação ocorre majoritariamente nas mídias sociais. Plataformas comerciais tornaram-se a infraestrutura de facto da circulação pública de ideias, inclusive do conhecimento universitário. Nelas, porém, a universidade é apenas usuária, ela não define regras, critérios de visibilidade ou padrões de moderação. A arena em que a universidade busca cumprir sua missão é mediada por estruturas externas, orientadas por lógicas comerciais e com pouca transparência.
A mesma infraestrutura organiza também dimensões centrais da vida universitária como a formação de coletivos, a preservação de memória, o reconhecimento de grupos e a construção de pertencimento. As políticas de moderação dessas plataformas, assim, influenciam quem permanece, quem se cala e que tipo de debate se sustenta.
Há ainda a questão da soberania informacional. Ao operar em plataformas comerciais, a universidade cede o controle sobre o ciclo de vida dos dados produzidos por sua comunidade. Interações acadêmicas e iniciativas de divulgação tornam-se ativos regidos por termos unilaterais, o que compromete autonomia e dificulta acesso a dados para pesquisa. Recuperar essa soberania restituiria à universidade a capacidade de definir critérios públicos de uso, acesso e proteção dessas informações.
Um problema estrutural das arenas abertas
É compreensível que redes digitais tenham sido celebradas como promessa de democratização da esfera pública. Ao reduzir a dependência de poucos emissores e viabilizar comunicação de muitos para muitos, elas ampliaram vozes e formas de associação. Parte do debate antes concentrado em canais centralizados passou a circular por vias alternativas, alterando regimes de visibilidade e coordenação. Essa mesma arquitetura, porém, transformou o ambiente de interação, redefinindo como reputações se constroem, conflitos escalam e a convivência se sustenta.
Interações presenciais tipicamente têm públicos relativamente definidos, papéis reconhecíveis e expectativas compartilhadas. Esse caráter situado garante, mesmo sob conflitos, certo grau de estabilidade. Nas redes abertas, em contraste, múltiplas audiências coabitam o mesmo espaço. Colegas, alunos, familiares e desconhecidos formam uma audiência indistinta, dificultando a diferenciação contextual que usamos nos encontros face a face. O “colapso de contextos” nessas arenas torna a gestão do discurso mais tensa e defensiva.
Um efeito dessa dinâmica é a instabilidade da solidariedade. A estima depende de horizontes compartilhados de valores, por isso, a mistura constante de públicos torna incertos os critérios de reconhecimento. Cresce a sensibilidade a sinais de desrespeito e a busca por pertencimentos mais nítidos, que ofereçam validação previsível. Duas estratégias, que se reforçam mutuamente, emergem desse contexto: a polarização afetiva, em que o conflito vira distância moral entre coletivos; e a busca de reconhecimento via visibilidade, quando alcance e engajamento substituem a estima social.
A tragédia dos comuns da atenção e da influência
O valor de uma arena aberta depende da possibilidade de influência recíproca. Não basta que as posições coexistam, é preciso que se encontrem, sejam testadas e possam se transformar. Uma arena tem valor quando argumentos alteram convicções, críticas geram revisões e desacordos produzem aprendizado. Essa permeabilidade é um bem comum usufruído pelos usuários.
Como todo bem comum, porém, ela é vulnerável à “tragédia dos comuns”. Decisões racionalmente vantajosas no plano individual podem gerar resultados coletivamente indesejáveis. Em arenas digitais, ajustar a fala para maximizar visibilidade, proteger reputação e reforçar pertencimentos é compreensível. Agregadas, porém, essas escolhas estreitam a permeabilidade do debate, reduzindo escuta e ampliando polarização.
Comunidades podem evitar a tragédia ao criar arranjos institucionais com regras claras, monitoramento e instâncias legítimas de decisão. Recursos comuns não colapsam por natureza, mas quando faltam instituições capazes de sustentar compromissos e resolver conflitos.
Além da falta de instâncias legítimas de moderação, as plataformas comerciais, orientadas por lucro, agravam o problema ao reforçar essas estratégias identitárias e conflituosas, desalinhando-se de valores acadêmicos como revisão pública, justificativa e contestação.
O que uma rede institucional permite fazer diferente
Se o problema é estrutural, a resposta também deve ser. Uma rede institucional deve reorganizar os incentivos que moldam a arena digital para preservar a capacidade de influência recíproca.
Isso exige governança legítima com regras claras e transparentes, participação efetiva da comunidade, instâncias reconhecidas de mediação e possibilidade de recurso. A moderação institucional deve ser um processo justificável e sujeito a prestação de contas.
Além disso, a arquitetura deve proteger o valor epistêmico do debate. Em vez de premiar a viralização, ela deve privilegiar a argumentação, a justificativa pública e a disposição à revisão.
Por fim, há a questão da soberania informacional. A universidade deve prezar por uma gestão de dados orientada por critérios éticos e compatíveis com a LGPD, governados por regras transparentes e, quando adequado, disponíveis para pesquisa.
Rede federada
Uma rede federada reúne instâncias autônomas que compartilham um mesmo protocolo de comunicação. Cada instituição mantém sua infraestrutura e define suas próprias regras de participação e moderação, mas permanece conectada às demais por padrões comuns. Ao contrário de plataformas centralizadas, que concentram decisões em uma única autoridade, a federação distribui responsabilidade sem fragmentar a comunicação. Assim, ela combina escala e autonomia. O valor da rede cresce com o número de participantes interconectados, sem exigir concentração de controle.
Do ponto de vista da governança, redes federadas viabilizam um modelo policêntrico. Cada comunidade alinha normas e procedimentos a seus valores institucionais, preservando transparência e responsabilidade locais, enquanto mantém diálogo com outras instâncias. Essa arquitetura — efeito de rede sem centralização excessiva — é especialmente adequada a instituições públicas que buscam autonomia sem abdicar de um espaço comunicativo amplo.
Esse modelo não depende de inovação tecnológica. O protocolo aberto ActivityPub, recomendado pela W3C (The World Wide Web Consortium), permite que múltiplas instâncias autônomas se comuniquem preservando a governança local. Ele sustenta o chamado fediverso, implementado por sistemas como Mastodon, PeerTube e Pixelfed entre outros. O modelo é maduro, testado e mantido por comunidades ativas. Um piloto na USP teria valor estratégico como modelo replicável. Sua escala e diversidade permitiria experimentar, em condições reais, uma arquitetura digital governável — um laboratório institucional.
Conclusão
O desafio, portanto, não é aspirar a uma esfera pública sem conflitos. Pelo contrário, o dissenso é constitutivo da vida acadêmica e democrática. O que está em jogo é a preservação, em ambientes digitais, das condições que tornam possível a influência mútua. Sem permeabilidade entre posições, sem a expectativa de que argumentos possam produzir revisões, o debate se esvazia de sua função epistêmica e política. Resta apenas a afirmação estratégica, a disputa por visibilidade e o reforço das identidades.
Se a universidade abdica a tarefa de gestão da sua arena digital, ela aceita que a arquitetura da esfera pública digital — onde hoje circulam ciência, controvérsias e formas de pertencimento — seja definida exclusivamente por incentivos comerciais. Ela aceita, em outras palavras, que as regras do debate que a envolve e a constitui sejam moldadas por finalidades que não são as suas.
A criação de uma rede social institucional pode ser um experimento republicano de governança digital, uma iniciativa replicável, capaz de inspirar outras organizações e, acima de tudo, uma decisão estratégica sobre como a universidade pretende habitar e moldar o espaço público no século XXI.
Márcio Moretto Ribeiro é doutor em ciência da computação, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), pesquisador do Cebrap e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital.
Roberta Silva de Lima é estudante de graduação em gestão de políticas públicas na EACH-USP e membra do Monitor do Debate Político e da Coalizão Direitos na Rede.
Referências
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