Calor extremo: clima impacta cidades e corpos

Pesquisas da Unicamp sobre estresse térmico e ilhas de altas temperaturas explicam como o aquecimento global impacta a saúde humana e revelam que a falta de planejamento urbano agrava o risco, especialmente em cidades médias e pequenas

Por Carolina Branco de Castro Ferreira

As mudanças climáticas impulsionadas principalmente pela emissão de gases de efeito estufa e o consequente aquecimento global têm intensificado a ocorrência de eventos climáticos extremos. O aumento da temperatura e da umidade eleva a incidência do que tem sido definido como estresse térmico. Professora do Instituto de Geociências e pesquisadora no Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas aplicadas a Agricultura da Universidade Estadual de Campinas (Cepagri-Unicamp), Priscila Coltri explica que o estresse térmico se refere à dificuldade que os organismos passam a ter “em continuar a sua função por conta de uma força externa que está muito quente”.

A pesquisadora esclarece que o fenômeno está ligado tanto ao aquecimento quanto ao resfriamento dos organismos, que normalmente se dá à noite. No entanto, se está “tudo muito alto, tanto a mínima quanto a máxima, você perde esse resfriamento, seja corpo de gente ou de animais ou as plantas vão entrando nos seus estresses térmicos e passam a não fazer de forma integral suas funções fisiológicas, porque gastam energia para outras coisas”.

Embora muitas variáveis influenciem na determinação do momento em que seres humanos entram em estresse térmico, há alguns indicadores: “um deles é o que chamamos de temperatura de bulbo seco e bulbo úmido, cálculo feito na década de 1960, quando os soldados norte-americanos foram para a guerra em lugares muito quentes e muito úmidos”.

Coltri refere-se ao que ficou conhecido como o Índice de Temperatura de Globo e Bulbo Úmido (WBGT, na sigla em inglês). O desenvolvimento do índice, na tentativa de mitigar o problema das fatalidades por calor, ocorreu pouco antes da escalada do envolvimento norte-americano no Vietnã. O clima de selva, extremamente quente e úmido do Sudeste Asiático, serviu como um campo de provas em larga escala para o índice. Nessa perspectiva, o WBGT disciplinava as atividades dos soldados – seus ciclos de trabalho, descanso e hidratação – para garantir a máxima performance militar.

Com a intensificação das ondas de calor e seus desdobramentos, uma tendência das pesquisas sobre fenômenos termoclimáticos tem sido o estudo do clima urbano, alterado pela ação humana. Uma das consequências do aumento da temperatura tem sido o fenômeno das Ilhas de Calor Urbanas (ICU’s). Embora frequentemente associadas a grandes metrópoles, a falta de planejamento urbano tem tornado os efeitos de ICU’s cada vez mais presentes em municípios menores.

Larissa Zezzo, doutora em geociências pela Unicamp e especialista no tema, aponta que a pesquisa científica está se voltando para cidades de pequeno e médio porte, especialmente no Sul Global: “Historicamente, os estudos se concentraram em grandes cidades do hemisfério Norte, onde a formação de ilhas de calor é um resultado esperado”, explica Zezzo. Acreditava-se que em cidades menores a diferença de temperatura não seria significativa, mas “essa perspectiva se mostrou falsa, impulsionando novas pesquisas na última década, muitas delas no Brasil”, explica a pesquisadora.

Em sua pesquisa de doutorado, que culminou no artigo Exploring the urban heat island phenomenon in a tropical medium-sized city, publicado na revista Environmental Monitoring and Assessment, Zezzo partiu da instalação de dez sensores em locais-chave de Indaiatua (SP). Durante um ano, foram coletados dados de temperatura e umidade em áreas tão distintas quanto o centro movimentado, a zona industrial, condomínios em expansão e bairros residenciais.

A pesquisa demonstrou um forte efeito de ICU, mais intenso no centro da cidade e mais ameno em áreas verdes. A diferença de temperatura foi drasticamente maior na estação seca, período em que efeitos fortes do aumento de temperatura (de 4 °C a 6 °C) ocorreram na metade do mês, enquanto na estação chuvosa os efeitos foram consideravelmente mais fracos e menos frequentes. O estudo estabeleceu uma clara correlação entre a falta de vegetação e o aumento da intensidade do calor urbano.

Contudo, os dados sobre estresse térmico e ilhas de calor, por si sós, são insuficientes se não forem traduzidos em ação política que confronte desigualdades estruturais. A questão deixa de ser apenas meramente onde uma cidade é mais quente para outra, mais ampla e interdisciplinar: quem vive e trabalha nesses locais e não tem como escapar do calor. Segundo Zezzo, assim, o trabalho não é uma “mera descoberta científica, mas uma denúncia”, expondo o planejamento urbano desigual.

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