Por Damny Laya e Rogério Bordini
Enquanto o debate público se concentra nos dilemas das grandes plataformas e na concentração de dados, uma outra internet vem sendo tecida silenciosamente por gestores públicos e especialistas em informação. José Murilo é um dos nomes centrais nessa trama. Especialista em políticas públicas voltadas para a tecnologia digital e a internet, desenvolveu os primeiros websites institucionais brasileiros, com passagens pelos ministérios de Administração Federal e Reforma do Estado (1997-99), Ciência e Tecnologia (1999-2003), e Cultura (2003-16). Atualmente coordena e Arquitetura da Informação Museal no Instituto Brasileiro de Museus – Ibram, onde desenvolve a implementação do Projeto Tainacan, para acervos culturais digitalizados.
O que é o Tainacan?
É um repositório digital em software livre. Basicamente, ele trata da publicação de acervos digitais, de instituições de memória, arquivos, bibliotecas e museus. E ele está pronto para publicar qualquer coleção. É uma ferramenta muito interessante porque, por ser um plugin para WordPress, ele facilmente coleta e organiza arquivos. Acervos do YouTube, ou do Flickr, por exemplo, rapidamente viram uma coleção, trazendo metadados que você hospeda localmente. O Tainacan, hoje, é o software que publica os acervos digitais de todos os museus do Ibram, e de muitas outras instituições no Brasil e no exterior.
Você explicou que ele coleta informações, dados de coleções que foram digitalizadas a partir de imagens, vídeos. Que tipos de arquivos, especificamente?
A coleção no Tainacan pode ser de qualquer coisa. Se você tem uma coleção de chaveiros, por exemplo, e quiser publicar, é muito fácil. O site Visite Museus, por exemplo, foi desenvolvido em Tainacan, pois é basicamente um calendário de eventos. Por meio dos metadados de data é possível fazer a apresentação no formato calendário.
Passamos a utilizar o Tainacan em diversas situações. Por exemplo, cadastro de museus. No cadastro.museus.gov.br há quase 4 mil museus cadastrados. E é um Tainacan.
Um aspecto interessante é que ele permite, por exemplo, uma coleção colaborativa, ao abrir a interface para outras pessoas. Há um acervo da Mediateca Capixaba, no Espírito Santo, de camisas dos times do interior do estado. As pessoas colaboram com fotos e, assim, reúnem um grande acervo.
Por que pensar em um software livre na hora de criar o Tainacan?
Se você estiver fazendo uma política pública, não tem o menor sentido se não for com software livre. Porque você pode replicar e adaptar aquele software livre às suas necessidades. Por isso nossa área de TI está focada em desenvolvimento, nas questões da produção do software em cima das demandas específicas da instituição, diferente de outra que trabalha somente contratando ou comprando software – o que faz o pessoal de TI virar especialista em licitação, mas sem entender, necessariamente, de software.
A Brasiliana Museus utiliza Tainacan. Por que foi a melhor opção?
A Brasiliana vem de um desafio quando pensamos a política para acervos digitais, e para nós foi natural implementar a agregação dos diversos acervos a partir do código base do Tainacan. A meta era realizar um agregador e uma máquina de busca nos conteúdos da cultura brasileira, independente do algoritmo do Google, ou seja, que a gente pudesse de alguma forma trabalhar essa instância da pesquisa e exploração em busca como política pública, com o algoritmo dando visibilidade aos conteúdos da cultura brasileira.
E a Brasiliana começa como um agregador de instituições museológicas, mas o grande desafio é trabalhar com esses índices de forma a produzir uma busca de qualidade. Começamos com os museus do Ibram, mas na medida em que a Brasiliana foi lançada, ela já abriu para adesão de outras instituições.
O Ibram também usa redes descentralizadas como o Mastodon?
Sim. Estávamos constatando que o estado das redes sociais era uma coisa calamitosa e que, a partir da política pública, gostaríamos de explorar alternativas na perspectiva dos museus.
Museus utilizam intensamente Instagram e Flickr. E sempre tivemos a ideia de oferecer uma alternativa, uma possibilidade de que se um determinado museu quisesse usar algo alternativo, que houvesse essa possibilidade. Foi a oportunidade para criar contas para os museus no Fediverso. Estamos trabalhando a estratégia ainda.
Pensando nessa mesma linha do uso do Fediverso como política pública, como tem sido essa experiência e os resultados do uso dessas ferramentas para a Brasiliana e o Ibram?
Bom, a gente de museu vai bem devagar. Enquanto as startups vão quebrando tudo, vamos cuidando de criar as pontes para o que estamos fazendo. Já criamos a instância no Mastodon, a social.museus.gov.br, há mais de um ano, fizemos alguns experimentos. O experimento mais ativo é a conta da Brasiliana.
A ideia é criar um bairro-museu no Fediverso para que a coisa surja daí. Estamos no meio de alguns experimentos ainda.
Como poderia a experiência da Brasiliana Museu orientar no uso das redes e plataformas descentralizadas às instituições públicas?
A experiência com a Brasiliana Museus no Fediverso demonstrou como a política pública pode fazer uso da arquitetura pública de rede social, implementada pelo protocolo ActivityPub, para adicionar funcionalidades participativas em seus serviços digitais, sem depender de plataformas proprietárias. No caso dos acervos digitais de cultura, exploramos o diálogo do público online diretamente com os itens das coleções digitalizadas, e este registro torna-se parte integrante do acervo.