Quadrinhos entram em cena para divulgar ciência

Dos mangás às tirinhas de humor, iniciativas revelam como os quadrinhos se transformaram em aliados para aproximar o público da ciência

Por Thabata Fernanda Oliveira

Se as histórias em quadrinhos (HQs) por muito tempo foram vistas apenas como entretenimento ou produto cultural de nicho, hoje ganham novo fôlego como ferramenta para comunicar ciência. Pesquisadores e divulgadores têm explorado a força da narrativa visual para transformar conteúdos complexos em histórias envolventes, capazes de atingir públicos diversos. Nesse movimento, surgem iniciativas que vão do uso do mangá para ensinar conceitos de química e de física à criação de personagens que orientam sobre saúde e meio ambiente, mostrando que a combinação entre ciência e HQs já deixou de ser uma possibilidade para se tornar uma estratégia consolidada de divulgação científica.

Na Universidade de São Paulo (USP), esse processo ganhou força com o Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes (ECA), fundado em 1990 pelo professor Waldomiro Vergueiro com o objetivo de criar um espaço de pesquisa e debate acadêmico sobre HQs. Desde então, o grupo organiza eventos, reúne pesquisadores e publica trabalhos que ajudaram a legitimar o estudo dos quadrinhos no ambiente acadêmico brasileiro. “Somos um ponto de encontro para discussões sobre quadrinhos e ao longo dos anos temos acompanhado o crescimento da área não só na USP, mas em instituições de todo o Brasil”, afirma Vergueiro.

Ele lembra que a universidade teve um papel pioneiro ao abrir espaço para esse tipo de estudo, especialmente na área da comunicação, mas que hoje os quadrinhos estão presentes em pesquisas de quase todas as áreas do conhecimento, da física à literatura. A cada edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da USP, realizadas anualmente em agosto, é possível constatar um crescimento do número de pesquisadores e pesquisas que utilizam ou versam sobre quadrinhos. Para o professor, esse crescimento reflete a maturidade acadêmica do tema e a aceitação cada vez maior dos quadrinhos no ambiente universitário.

Vergueiro aponta que nem sempre foi assim. “No começo havia resistência. Quem trabalhava com quadrinhos era visto como extravagante, esquisito. Hoje isso diminuiu bastante”, conta. Ele, que dedicou 31 anos à carreira acadêmica antes da aposentadoria, afirma ter sido “um privilegiado” por poder passar a vida estudando e lendo gibis como objeto de trabalho.

Quando o assunto é a divulgação científica, Vergueiro vê nos quadrinhos uma ferramenta poderosa. “Eles facilitam a compreensão, tornam a comunicação mais direta e ajudam a esclarecer pontos que, em outros formatos, seriam mais difíceis de entender”, explica. Para ele, o caráter lúdico da linguagem visual é um diferencial importante tanto na educação básica quanto na comunicação com o grande público. Mas alerta para a necessidade de explorar de fato os recursos da mídia: muitas vezes, cientistas e divulgadores se limitam a usar os quadrinhos apenas para representar um professor na lousa ou um cientista explicando conceitos, perdendo o potencial narrativo que a linguagem oferece.

Segundo Vergueiro, o caminho mais interessante é explorar a narrativa dos quadrinhos sem depender da “voz de autoridade”, permitindo que os conceitos científicos sejam transmitidos de forma mais criativa e envolvente. Já existem exemplos bem-sucedidos nesse sentido, tanto no Brasil quanto no exterior. Internacionalmente, figuram nomes como o norte-americano Larry Gonick, autor das séries The Cartoon History of… e The Cartoon Guide to…, além da coleção Graphic Guides, publicada pela editora inglesa Icon Books. No Brasil, observa-se um movimento igualmente expressivo: “Temos trabalhos muito bons no país, inclusive ligados à divulgação científica”, reforça Vergueiro, citando o quadrinista Jão (João Garcia), criador da série de tirinhas Os Cientistas em Quadrinhos e o cartunista Marco Merlin, autor das Cientirinhas.

O mangá na divulgação científica

Os mangás, histórias em quadrinhos originárias do Japão, também vêm sendo explorados na divulgação científica. Um exemplo é a série Guia Mangá, publicada no Brasil pela Novatec Editora em parceria com a americana No Starch Press e a japonesa Ohmsha, uma das editoras mais tradicionais de livros técnicos do Japão. Cada volume é escrito por cientistas ou matemáticos com amplo conhecimento em suas áreas e ilustrado por mangakás profissionais. A coleção aborda temas diversos em nível universitário, que vão da bioquímica e da biologia molecular à teoria da relatividade, além de assuntos técnicos como bancos de dados e microprocessadores.

A ilustradora e química Adriana Iwata, doutora em Ciências pela UFSCar, também se inspirou no estilo do mangá para produzir HQs científicas. Em sua trajetória, investigou como as HQs podem apoiar o ensino e a divulgação da química. Daí nasceram projetos como a coleção Histórias de Vidro em Quadrinhos, as Tirinhas de Vidro e as Tirinhas do INCT-CBIP, HQs curtas que aliam humor, curiosidade científica e conceitos técnicos, mostrando como a narrativa visual pode despertar interesse em temas complexos.

Segundo Iwata, histórias em quadrinhos são ferramentas eficazes tanto para a divulgação científica quanto para o ensino de química. “Mangás e HQs funcionam bem como uma ferramenta para a divulgação de conteúdos científicos e em atividades lúdicas no ensino de química, pois são uma mídia relativamente conhecida por boa parte do público”, afirma. Para ela, a combinação entre imagem e narrativa facilita o engajamento dos leitores: “O fato de utilizarmos a imagem nas HQs permite que o conteúdo de química fique mais claro e acessível do que só com o texto.”

Iwata observa que o impacto varia conforme o público. “O público do fundamental e médio gosta das ilustrações e da história; o público de ensino superior, principalmente os de licenciatura, olha para as HQs como uma ferramenta para utilização em sala de aula; já o público geral aprecia bastante o fator informativo presente nas HQs e também o roteiro”, explica.  Para ela, o uso dos quadrinhos no ensino formal pode ir além da leitura: os alunos podem produzir suas próprias HQs, desenvolvendo criatividade, escrita e trabalho em equipe. E aconselha: qualquer pessoa pode se aventurar a produzir quadrinhos científicos, desde que conheça bem seu público-alvo e tenha clareza sobre os objetivos da proposta, seja conscientizar, ensinar ou divulgar ciência de forma mais ampla.

Atualmente, Iwata expande sua atuação com novos projetos que unem ciência e narrativa visual. Em parceria com o físico Romain Bachelard, do Departamento de Física da UFSCar, ela desenvolve uma HQ sobre temas de física quântica, vinculada à FAPESP e realizada em comemoração ao Ano Internacional da Quântica. A proposta prevê tanto a produção de material impresso e virtual, quanto a realização de uma exposição com páginas da obra. Paralelamente, ela trabalha em Sigma Pi, quadrinho que acompanha um clube de química formado por estudantes do ensino médio. Publicada em 2025 como uma versão “reboot” de um projeto iniciado em 2019, a série ganhou maior ênfase na divulgação científica, aproximando jovens leitores da química por meio de personagens e situações do universo escolar.

Dentitos: HQs que promovem saúde

Dentitos e ABSS é uma série de HQs que busca orientar cuidadores, educadores e a comunidade em geral sobre temas ligados à saúde bucal e infantil. O material é o principal produto do projeto Aprender Brincando sobre Saúde (ABSS), coordenado pela professora Flávia Flório, do Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo Mandic. O projeto tem como objetivo levar à população informações em saúde, baseadas em evidências científicas, de forma leve e lúdica. Os conteúdos das HQs foram validados cientificamente por especialistas da área e por representantes do público-alvo. Após a publicação e distribuição, estudos avaliaram os efeitos das HQs no conhecimento dos leitores sobre os temas abordados.

A série conta com três volumes. O primeiro, O flúor e a saúde bucal, ensina o uso seguro do dentifrício fluoretado – os cremes dentais que contêm flúor – e apresentou resultados positivos tanto no conhecimento de cuidadores e educadores quanto na melhoria de práticas em regiões sem água fluoretada. O segundo, Traumatismo dentário, orienta sobre condutas imediatas em casos de trauma e, em testes, elevou o índice de acertos de 50,5% para 81,2% após a leitura. Já o terceiro, Saúde alimentar, aborda hábitos saudáveis nos primeiros cinco anos de vida e também se mostrou eficaz em ampliar o conhecimento dos cuidadores.

As publicações estão disponíveis gratuitamente em formato digital e também circulam em versões impressas distribuídas em escolas e comunidades, com apoio da FAPESP e de empresas como a Curaprox. Para Flório, os resultados obtidos “reforçam o potencial das HQs como ferramentas educativas eficazes, acessíveis e bem aceitas, contribuindo para a promoção da saúde bucal e infantil em diferentes contextos”.

Turma da Mônica: Cultura oceânica em HQ

Em 2025, a Turma da Mônica ganhou a edição especial Oceanos, criada para celebrar a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). O lançamento, sob coordenação do professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP, foi uma iniciativa da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano e do Instituto Costa Brasilis. O objetivo é estimular a cultura oceânica – a compreensão da influência do mar na vida das pessoas e do impacto das ações humanas sobre ele.

Na história, Franjinha conduz a turma em um passeio submarino que revela ecossistemas, espécies e desafios ambientais. Para Germana Barata, coordenadora da Rede Ressoa Oceano, o alcance da revista entre crianças e jovens transforma essa iniciativa em uma poderosa ferramenta de educação científica. Segundo ela, os leitores não encaram a HQ como conteúdo formal, mas como parte das aventuras de personagens queridos. Essa naturalidade abre espaço para que conceitos ligados à Década da Ciência Oceânica da ONU e aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável sejam apresentados de forma envolvente. “Até o Cascão, que sempre fugiu da água, entra em um submarino e observa o fundo do mar. Essa cena pode marcar o leitor”, diz Barata.

Segundo a pesquisadora, a cultura oceânica se constrói justamente nesse tipo de experiência: em linguagens variadas, com diferentes intensidades de impacto. Ela observa que nem todas as crianças desenvolverão uma relação imediata com o mar, mas que, para algumas, a história pode despertar o fascínio e o respeito pelo oceano. Para Barata, o grande valor está em mostrar que a ciência não precisa estar restrita a escolas e museus – ela pode estar presente em uma revistinha, em um desenho animado ou em uma exposição de bairro. “Isso banaliza a ciência no bom sentido”, afirma. “Mostra que ela pode estar em qualquer lugar, pertencer a todos e fazer parte do nosso cotidiano.”

A revista foi distribuída gratuitamente em escolas e bibliotecas e também está disponível em versão digital . Novas edições já estão previstas, com foco em outros ambientes marinhos.

Thabata Oliveira é bióloga e designer formada pela USP, ilustradora e comunicadora de ciência. Cursa a especialização em Jornalismo Científico no Labjor/Unicamp.

imagem: Sigma Pi, de Adriana Iwata