Resistência algorítmica

Letramento digital, boicote a redes comerciais e uso de plataformas descentralizadas, como as do Fediverso, são práticas de ativistas digitais no combate à dataficação e ao colonialismo de dados.

Por Rogério Bordini

Ao ligar o telejornal ou acessar portais de notícia, não é raro vermos manchetes sobre atos de resistência que tomam ruas sempre quando decisões políticas ou situações de opressão geram grande insatisfação popular. Tais ações geralmente vêm em forma de greves, boicotes, protestos, desobediência civil (violenta ou não-violenta, à la Ghandi, Luther King Jr. e Mandela), bloqueios de passagem, rebeliões, mídias radicais etc. Podem ser manifestações de pequeno porte até  mobilizações sociais massivas.

Mais inusitado, talvez, seria abrir o jornal pela manhã e se deparar com notícias como “Trânsito de carros invisíveis é causado por frota de celulares”, ou “Artistas envenenam pixels para impedir que IA roubem suas obras”. Inusitado, mas não incomum. Ações como essas, muitas vezes executadas silenciosamente pela internet, são exemplos de intervenções que grupos de ativistas digitais adotam para questionar e subverter mecanismos de dominância tecnológica exercidos pelas grandes corporações de tecnologia — como já estamos cansados(as) de saber.

Big Techs — Google (Alphabet), Apple, Meta, Amazon e Microsoft, localizadas no Vale do Silício (Califórnia | EUA) — têm estruturado seus modelos de negócio na extração massiva de dados dos usuários de seus serviços digitais, como Facebook, WhatsApp, Google (buscador), Instagram, YouTube. Tais empresas, impulsionadas pela bolha da internet no final dos anos 1990, cresceram combinando capital de risco, inovação rápida e efeito de rede, o que levou bilhões de pessoas a se concentrarem em suas plataformas. Com tantos usuários, passaram a coletar dados como navegação, localização e interações para personalizar serviços, direcionar anúncios e otimizar algoritmos. 

A ausência inicial de regulações rígidas de privacidade e a complexidade dos termos de uso destas empresas também facilitaram a consolidação desse modelo socioeconômico. Hoje, a posição dominante de tais corporações na economia lhes dá considerável poder político, pois controlam infraestruturas que viabilizam a internet, como data centers e cabos de rede submarinos, além de vastos bancos de dados pessoais.

A dataficação, que converte a vida humana em dados comercializados, e a colonização de dados extraídos de populações vulneráveis, como as do Sul Global, têm possibilitado a manipulação de informações para fins de vigilância, discriminação e controle social. Nesse contexto, Shoshana Zuboff introduz o conceito de capitalismo de vigilância: coleta massiva de informações que perfila usuários, orienta ações de acordo com suas preferências e até prevê e influencia comportamentos por meio de algoritmos.

Em contrapartida, tal cenário estimula o surgimento de estratégias de resistência que buscam mitigar os riscos e danos das sociedades orientadas por dados, como reconhecimento de que algoritmos não são neutros, mas veículos de poder que codificam e reproduzem desigualdades estruturais. O próprio Fediverso tem sido adotado como êxodo ao boicote às redes dominantes, como veremos adiante.

Mecanismos de resistência

Resistência, segundo as sociólogas Jocelyn Hollander & Rachel Einwohner, trata-se do conjunto de ações intencionais tomadas em oposição a alguém ou algo, decorrentes da recusa em se conformar com as normas sociais ou aceitar o status quo (ou mudanças dele). Pode variar tanto na visibilidade do ato em si quanto no grau de intenção ou consciência por trás dele. Na esfera digital, Emiliano Treré e Tiziano Bonini, no livro Algorithms of resistance, definem o termo como forma de “habitar as fissuras das infraestruturas algorítmicas. Trata-se de reafirmar a agência humana onde os sistemas tentam automatizar nosso comportamento (…)”.

Longe de declarar guerra às maquinas ou hackeá-las, tais atos traduzem-se em “um convite para imaginar e colocar em prática formas alternativas de engajamento com a tecnologia, baseadas não na dominação e na ação unilateral, mas na cooperação, na solidariedade, na contestação e no cuidado”, segundo os autores italianos. Princípios esses que deixariam qualquer ludita contemporâneo orgulhoso(a). 

Um levantamento da socióloga Stefania Milan classifica táticas de resistência algorítmica em duas macro-categorias: defensiva e produtiva. A primeira foca na infraestrutura de dataficação, com três abordagens principais: autodefesa, que usa VPNs, aplicativos criptografados e navegação anônima; subversão, que visa à desestabilização de sistemas por meio de sabotagem ou poluição de dados; e evitação, a recusa ou redução da presença digital mediante boicotes, ocultação de rostos em câmeras ou desconexão de plataformas. Já resistência produtiva visa à transformação de normas da sociedade orientada por dados, englobando letramento (educação sobre privacidade e criptoparties, como a CryptoRave no Brasil), contra-imaginação (narrativas que contestam discursos algorítmicos) e campanhas de advocacy (pressão política para mudar regras, informar o público e promover litígios estratégicos).

Como exemplo de resistência defensiva, no Brasil, em 2021, a Prefeitura de Recife planejou instalar 108 câmeras de reconhecimento facial, permitindo que dados coletados fossem usados para publicidade durante 20 anos. O movimento Sem Câmera na Minha Cara! alertou que essa tecnologia, importada do Norte Global, poderia intensificar racismo e transfobia, gerando identificações equivocadas e vigilância excessiva. Ativistas digitais mobilizaram bases populares, enviaram cartas ao prefeito, concederam entrevistas e solicitaram ao Ministério Público de Pernambuco a abertura de inquérito civil para investigar possíveis discriminações raciais. A campanha culminou em workshops comunitários que ampliaram a conscientização pública e reforçaram o pedido de proibição total do reconhecimento facial em espaços públicos.

Assim, resistência algorítmica fundamenta-se em três pontos: i) proteção da privacidade que se traduz em práticas de desofuscação (ocultação de sigilo comprometido) e desenvolvimento de softwares abertos capazes de auditar sistemas de recomendação; ii) contestação da manipulação informacional que influencia decisões políticas, eleitorais e de consumo, motivando campanhas de alfabetização algorítmica e criação de plataformas alternativas que priorizam a transparência e; iii) recuperação da agência cognitiva dos usuários, impedindo que filtros e nudges automatizados determinem o acesso ao conhecimento, levando à organização de redes de compartilhamento de dados descentralizadas e ao uso de protocolos de criptografia. 

Em relação ao último ponto, que mescla aspectos de resistência defensiva e produtiva segundo as classificações de Milan, o uso de servidores em comunidades locais tem se tornado uma estratégia fundamental para criar infraestruturas digitais autônomas, estabelecer normas de governança próprias e adotar práticas de design que reflitam valores e necessidades locais.

Federando para resistir

Fediverso, apelido para universo federado, construído com software livre desde 2008, oferece uma alternativa às plataformas das Big Techs. Suas estruturas descentralizadas evitam a censura e violações de privacidade em larga escala, permitindo a interação entre diferentes plataformas e servidores via protocolo ActivityPub, que interconecta usuários, mesmo em diferentes redes. Um usuário do Mastodon, plataforma de microblogging semelhante ao X (ex-Twitter), pode interagir com uma pessoa na rede de imagens, Pixelfed, por exemplo. Funcionalidade essa que deixou até a Meta com inveja.

Dada a natureza descentralizada das comunidades que compõem o Fediverso — também chamadas de instâncias, que podem ser criadas a partir de servidores próprios (sim, você pode montar o seu agora!) — cada instância define suas próprias regras de moderação, funcionalidades e políticas de uso. Um exemplo é a Organica.Social, uma das maiores instâncias brasileiras do Mastodon lançada em 2025 por instituições e movimentos sociais. Ela exibe, em ordem cronológica, livre de algoritmos e anúncios, posts das pessoas que o usuário segue (tanto da mesma instância quanto de outras) e dispõe de sistema próprio de denúncias via contato direto com os moderadores.

Thiago Skárnio, coordenador da Alquimídia, primeira organização brasileira dedicada ao Fediverso que também contribuiu para criação da Organica.Social, destaca que, mesmo que determinadas instâncias possuam governanças próprias, elas são administradas em diálogo com os usuários. “Nossa proposta é que a instância seja cada vez mais coletiva. Participamos da governança junto com outras organizações e pessoas. Fazemos parte da moderação e criamos os termos de uso após muita pesquisa. Também atuamos na parte de acolhimento: temos tutoriais sobre o Fediverso que disponibilizamos para todos(as)”.

O ativista digital também esclarece como instâncias do Mastodon diferem da dinâmica algorítmica das mídias sociais mais populares. “A principal diferença é que o Instagram, por exemplo, é controlado por uma empresa bilionária com código fechado. Não sabemos o que é mostrado, ocultado ou impulsionado. Na Orgânica, usamos o código aberto do Mastodon. Qualquer pessoa pode revisá-lo, entrar em contato com os moderadores e questionar decisões. No Instagram, você só consome o que é oferecido, pois nem sempre o que segue aparece para você. Já no Fediverso, o feed é cronológico: o que você segue aparece quando a pessoa posta, na hora. Não há viralização, nem posts voltando na linha do tempo. É transparente e controlado pela comunidade”, conclui Skárnio.

Rogério Bordini é doutor em artes visuais (Unicamp) e em interação humano-máquina (Helmut Schmidt University), mestre em educação e graduado em educação musical (UFSCar). Atualmente é pós-doutorando e divulgador científico do Laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp, Recod.ai. Ativista digital em prol da privacidade e do software livre e aberto. Perfil no Mastodon: https://ursal.zone/@rgbd