A ciência na TV brasileira: reflexões sobre a programação de Globo e Record

Por Vanessa Brasil de Carvalho e Luisa Massarani

Identificamos as principais características da programação brasileira relacionada a questões científicas, visando contribuir para os estudos de mídia e de TV sobre a temática. Os resultados são úteis e oportunos para se obter uma visualização ampla da programação diária sobre assuntos de ciência, sob um perfil quantitativo. Por meio deles, construímos um panorama sobre esse tipo de abordagem, relacionando similaridades e diferenças entre o tratamento dessa temática em diferentes tipos de programação.

A ciência está presente nos mais diversos programas da TV brasileira. Podemos observá-la nos conteúdos dos programas voltados para a temática da saúde, que explicam o funcionamento do organismo humano; nos programas dominicais, que destacam “curiosidades” do campo científico; ou ainda nos programas de entretenimento, que debatem assuntos rotineiros, do dia a dia, com o auxílio de especialistas ou cientistas. A ciência também está presente nas notícias sobre novas descobertas da área nos telejornais diários, assim como nos filmes de ficção científica e nos desenhos animados.

Em outras palavras, apesar de não serem o principal assunto abordado na maioria dos programas, as temáticas científicas fazem parte da programação televisiva com certa regularidade. Segundo Siqueira (2008), a ciência disputa espaço com todos os outros assuntos do nosso cotidiano na TV, de maneira que ela acaba sendo diluída, em pequenas partes, durante todo o dia e em vários programas.

Diversos autores se propuseram analisar as programações televisivas que abordaram temáticas científicas, mas apenas recentemente, já após a virada do século XXI, são observadas iniciativas mais sistemáticas e regulares nessa área de pesquisa no Brasil. São investigações voltadas para os telejornais, programas de entretenimento, desenhos animados e até publicidades.

Os estudos sobre o jornalismo científico são mais frequentes, a exemplos do Barca (2004), Alberguini (2007), Santos e Gomes (2010), Ramalho, Polino e Massarani (2012) e Reznik e colaboradores (2014). Neles, observa-se o destaque das novidades da atividade científica, os seus benefícios sociais e a relevância dos cientistas como principais fontes de informação. A área da saúde é, usualmente, a mais abordada pelos telejornais.

As pesquisas em programas de entretenimento, basicamente, voltam-se para a análise do programa dominical da TV Globo, o Fantástico. Siqueira (1999), Rondelli (2004) e Medeiros e colaboradores (2013) investigaram as matérias e reportagens sobre ciência no programa e chegaram a algumas conclusões semelhantes: os assuntos de saúde foram os mais frequentes (Siqueira, 1999; Medeiros et al., 2013); as temáticas científicas foram tratadas como uma verdade, sem controvérsias ou questionamentos, com regularidade (Siqueira, 1999; Rondelli, 2004), e  são apresentadas muitas explicações a termos e conteúdos científicos (Rondelli, 2004; Medeiros et al., 2013).

Os desenhos animados frequentemente apresentam temáticas científicas, principalmente por meio de situações inusitadas envolvendo seus profissionais. Siqueira (2008) observou que a figura do cientista estava presente em vários desenhos animados veiculados na década de 1990 no Brasil. Recorrentemente, a atividade científica estava relacionada à violência e a um maniqueísmo expresso em um duelo entre o “bem e o mal”. Já os desenhos mais recentes trazem uma abordagem mais centrada no estereótipo do cientista em si, do personagem que aparece vestido de jaleco e trabalhando em laboratórios, com um perfil “desajustado” e até “descabelado” (Siqueira, 2008; Rosa, et al., 2005).

Nesse contexto, destacamos também que a TV ainda é o maior veículo de massa do país, pois chega a todo o território nacional, mobiliza os brasileiros e ainda absorve a maior parte dos investimentos publicitários (IBGE, 2016; Kantar Ibope Mídia, 2016). Além disso, é a principal fonte de informações para os cidadãos de temas de ciência no Brasil (MCTI, CGEE, 2015) e em outros países latino-americanos, como a Argentina (Mincyt, 2015), Chile (Conicyt, 2016) e Colômbia (OCyT, 2014).

Portanto, o objetivo de nosso estudo[1] foi analisar a presença de temáticas científicas na programação da TV aberta brasileira, representada pelas duas emissoras de maior audiência: TV Globo e TV Record (Mídia Dados Brasil, 2013). Os dados de nossa pesquisa estão publicados em revistas indexadas nacionais[2]. Neste artigo, fazemos um apanhado dos principais resultados.

Proposta metodológica

Escolhemos a técnica de semana construída para criar a nossa amostra, metodologia muito utilizada por estudos de mídia (Whitelegg et al., 2008; Ramalho, Polino, Massarani, 2012). Essa técnica consiste no sorteio de dias da semana para compor uma semana representativa de um determinado período de tempo. Ou seja, para se analisar a cobertura televisiva durante o mês de abril, por exemplo, em vez de considerar o mês de abril completo, analisa-se uma semana que se considera representativa. Dessa forma, são identificadas todas as segundas-feiras de abril, sorteando aleatoriamente a segunda-feira que irá fazer parte do corpus. O mesmo processo é feito para as terças-feiras, quartas-feiras, quintas-feiras até que se complete uma semana.

Optamos por realizar um recorte de duas semanas construídas, em um total de 14 dias, representativos de seis meses do ano de 2013 (junho a novembro). Durante os dias sorteados, gravamos a programação veiculada ao longo de 24 horas pela TV Globo e pela TV Record. Ao todo, foram 672 horas gravadas e assistidas na íntegra.

Para selecionar as peças a serem analisadas, desenvolvemos quatro critérios com base nos trabalhos da Rede Ibero-Americana de Monitoramento e Capacitação em Jornalismo Científico (Massarani, Ramalho, 2012), Trench (2003) e Rondelli (2004), principalmente. São eles: menção direta à ciência e tecnologia[3], menção a dados e termos científicos[4], presença de ilustração e/ou animações[5] e material de divulgação científica[6].

A análise das programações foi operacionalizada pelo protocolo de análise de conteúdo com perfil quantitativo, composto com a base na ferramenta da Rede Ibero-Americana, novamente. Por meio dele, foi possível estudar programações diferenciadas e, ao mesmo tempo, manter uma unidade de comparação.

A ciência nas emissoras de maior audiência

Das 672 horas assistidas (336 horas de cada emissora), identificamos 1.466 peças da programação televisiva contendo pelo menos um dos critérios pré-estabelecidos para a inclusão no corpus de análise. A soma dessas peças totalizou 47 horas, 54 minutos e 53 segundos de programação, o que representa 7,1% de toda a programação assistida.

A TV Record foi a emissora na qual identificamos a maior quantidade de peças relacionadas à ciência: 847 peças ao todo – que somaram 23 horas, 35 minutos e 09 segundos. Já na TV Globo, apesar de termos identificado uma quantidade menor de peças – 619 itens –, observamos uma duração maior dessa programação: 24 horas, 19 minutos e 44 segundos.

As líderes de audiência apresentaram perfis distintos de abordagem da ciência, o que está em consonância com as diferenciações entre as propostas de cada emissora e do seu público. A TV Record possui uma programação mais centrada no entretenimento, especificamente em programas de variedades que abarcam quase toda a manhã e a tarde da emissora. Ademais, sua ligação com a Igreja Universal do Reino de Deus – cujo bispo fundador, Edir Macedo, é o atual dono da emissora (Mattos, 2010) – também delimita e limita seus programas, de maneira que todos esses fatores contribuíram para uma abordagem da ciência pouco diversa.

A grande maioria das peças identificadas na programação da emissora eram publicidades – ou seja, eram produções de anunciantes.  Nesse sentido, nossos resultados sugerem que a TV Record não possui programações de sua grade fixa que abordem assuntos científicos com regularidade. A maioria das peças identificadas não foram produzidas pela emissora – sendo publicidades, seriados e desenhos animados, principalmente.

Foram esses programas que conferiram a tônica dos conteúdos científicos na vice-líder, porém, mesmo que esses tenham um papel na construção de representações sociais sobre a ciência, não foi uma repercussão direta da proposta da emissora. De fato, foi mais uma consequência do grande enfoque dado aos programas de entretenimento e do espaço conferido aos anunciantes, de maneira que pode ser uma abordagem até não intencional.

Essa característica é importante, pois se trata de uma das principais emissoras de TV aberta do Brasil – considerando que a TV Record foi vice-líder de audiência por quase uma década[7] e permanece entre as três emissoras mais assistidas pelos brasileiros.

Por outro lado, a TV Globo incluiu as questões científicas na própria grade de programação, em várias categorias e gêneros televisivos. Tal abordagem refletiu a variedade de programações da TV Globo, com programas voltados para diferentes grupos e faixas etárias ao longo do dia, alternando entretenimento, educação e informação no seu fluxo televisivo – além da publicidade. O entretenimento, que domina as manhãs, frequentemente debateu assuntos sob diferentes pontos de vista, inclusive o da ciência. Os programas Bem Estar e o Encontro com Fátima Bernardes foram representativos nesse sentido.

De maneira similar, os telejornais também abordaram a temática, seja diretamente, pela menção a pesquisas, ou de maneira mais indireta, com discussões gerais do assunto ou com comentários sobre fatos sociais recentes. Entre os telejornais veiculados pela madrugada e manhã, podemos citar Jornal da Globo, Globo Rural, Bom Dia Brasil e Bom Dia Rio.

Siqueira (1999) já havia observado que a TV Globo confere destaque às suas telenovelas e telejornais no horário nobre (tarde e noite), relegando a ciência para o período da manhã ou diluída ao longo do dia nos mais diversos programas. Vemos, então, que este é o padrão da emissora há algum tempo.

A abordagem mais recorrente de assuntos de ciência na TV Globo, a nosso ver, está mais associada à programação diversificada da líder de audiência do que a um propósito de divulgação científica na emissora. Por ser hegemônica há mais de 40 anos (Mattos, 2010), a emissora carioca exibe uma ampla variedade de programas, que visam diversos públicos, portanto, a possibilidade de se tratar assuntos de ciência é também mais comum. Em contrapartida, a TV Record, possui pouca diversidade em sua programação, apresenta uma forte ligação com a Igreja Universal, de modo que seus programas acabam abordando uma variedade de temas mais reduzidos.

A ciência em diferentes tipos de programação

Foi possível verificar ainda que cada programa, incluindo as peças publicitárias, apresentou as temáticas científicas de uma forma diferenciada ao longo do dia e da semana, de acordo com sua categoria televisiva e sua proposta dentro da lógica da programação diária. A seguir, destacamos algumas reflexões sobre a representação da atividade científica na programação da TV aberta brasileira, considerando as diferentes categorias televisivas propostas por Aronchi (2004): entretenimento, informação e educação[8].

Entretenimento: a ciência como parte integrante do programa

A maior parte da programação televisiva brasileira consiste em programas de entretenimento – um padrão construído desde os primeiros anos da TV no país, com os programas de auditório, sendo o carro chefe da nossa TV (Reimão, 2000). Portanto, o fato de a categoria televisiva de entretenimento ter sido a segunda que mais apresentou conteúdos científicos e de ter registrado a maior duração de tempo é de grande importância.

As programações dessa categoria televisiva representaram 22,7% dos itens identificados nesta pesquisa, contudo, foram as peças com maior duração de tempo: 333 itens que somaram 29 horas 50 minutos e 09 segundos. As emissoras transmitiram quase a mesma quantidade de peças nessa categoria: 165 da TV Globo e 168 da TV Record.

Kehl (1979-1980) ressalta a importância dos programas de TV trabalharem assuntos atuais sob uma perspectiva de distração e entretenimento. De acordo com a autora, a TV Globo reconheceu essa importância antes das demais emissoras e, podemos observar em sua grade programação, mantém essa tendência. Nossos dados mostraram que são várias as produções da líder de audiência que debatem assuntos sérios com uma linguagem mais leve e acessível – como o Fantástico, o Bem Estar e o Encontro com Fátima Bernardes.

A TV Record segue essa tendência, porém em menor grau. A emissora possui muitos programas de entretenimento, porém, poucos abordaram questões científicas com regularidade. Apenas o Hoje em Dia e o Programa da Tarde ganharam destaque, embora também tenhamos registrado peças nos programas Tudo a ver e Domingo Espetacular.

Nesse caso, a ciência presente no entretenimento dessa emissora foi mais representativa nas programações ficcionais, que são apenas reproduzidas pela TV Record, como no caso do seriado Criminal Science Investigation (CSI) e de desenhos animados. Nesse tipo de programação, o foco é o entretenimento puro, de maneira que não existe um “debate” sobre os assuntos trabalhados – e esta é uma grande diferença entre as emissoras analisadas.

Enquanto a TV Globo, literalmente, fez o debate sobre temas diversos incluindo o ponto de vista da ciência (especialmente no Encontro com Fátima Bernardes e Bem Estar), a TV Record incluiu as temáticas científicas em suas narrativas ficcionais, que trazem representações mais tradicionais sobre a atividade científica e seus profissionais.

A maior parte das programações dessa categoria televisiva mencionou termos e/ou dados científicos (87,7% dos itens da categoria entretenimento) e a abordagem direta da ciência foi o segundo critério mais frequente (28,8%), em especial nos programas de variedades. Esse dado indica que a ficção tende a trabalhar os assuntos científicos de uma forma mais indireta, enquanto os programas de variedades conseguem fazer menções claras aos novos resultados de pesquisas com mais frequência.

Os programas de variedades foram os que mais mencionaram assuntos científicos. Nessas programações, o conteúdo científico contribuiu para um debate mais ampliado, mostrando-se como das vozes envolvidas em uma determinada situação. Ou seja, os especialistas ou cientistas foram consultados para conferir um depoimento ou representar um ponto de vista sobre um tema determinado – e este não, necessariamente, científico. Esses profissionais eram uma “voz da ciência”, mesmo que o assunto fosse de outra área – como no caso do neurocientista que participou da discussão sobre vida após a morte no programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.

No caso das programações ficcionais (filmes, telenovelas, seriados e desenhos animados), a ciência colaborou na narrativa como forma de dar seguimento ao enredo, principalmente pela representação de personagens cientistas e especialistas.

Como exemplo, podemos destacar as cenas do seriado norte-americano Criminal Science Investigation (CSI), nas versões CSI Nova York e CSI Miami, exibido pela TV Record nas noites de segunda a sexta-feira. Observamos que a narrativa do seriado foi construída de maneira que a ciência fez parte da trama, ou seja, esse conhecimento foi essencial para a resolução dos casos investigados. Nesse sentido, podemos dizer que o CSI segue a proposta de Dugan (2014) de inserir as explicações científicas no próprio enredo da história, mas apenas o necessário para que o público entenda a resolução do mistério. O objetivo não foi divulgar a ciência ou tratar dos seus conceitos de uma forma geral, ao contrário, a ciência desenvolveu um papel específico dentro da trama.

Também temos um ponto de vista semelhante a Cavender e Deutsch (2007) sobre a grande legitimidade da ciência no seriado. Para os autores, os procedimentos técnicos e científicos têm a função de identificar a verdade contida nas evidências, respondendo a todas as respostas com certeza (quase) absoluta. Há poucas controvérsias e poucos erros nesse processo de investigação de maneira que a ciência é representada como solucionadora de problemas e, portanto, carrega um alto nível de legitimidade.

O sucesso desse seriado vem incentivando pesquisas sobre a sua percepção por parte do público. Esses estudos identificaram o chamado “efeito CSI”: a apropriação de conceitos e procedimentos científicos que, proferidos pelo seriado, passam a ser utilizados por seus telespectadores (Nisbet, Dudo, 2013). No Brasil, não temos pesquisas que identifiquem o “efeito CSI”, porém, sendo um programa veiculado de segunda à sexta-feira em uma das emissoras de maior audiência, podemos considerar que é um seriado muito assistido pelos brasileiros, fazendo com que o CSI tenha o potencial de estimular as audiências do país a pensar sobre essas questões, de maneira que estudos posteriores podem verificar um possível “efeito CSI” entre o público brasileiro.

Os desenhos animados, por sua vez, retrataram a ciência e os cientistas com base nos estereótipos tradicionais, frequentemente, trazendo o personagem “cientista maluco” –identificado nas pesquisas de Rosa e colaboradores (2005) e Siqueira (2008). Esses profissionais da ciência foram retratados como muito inteligentes ou gênios e, na maioria das vezes, tendiam para o “lado do mal”. Nesse caso, é importante lembrar que Whitelegg e colaboradores (2008) afirmam que as narrativas dessas animações permanecem na mente das crianças (futuros jovens e adultos) por um longo período.

Whitelegg e colaboradores (2008) também ressaltam que os desenhos animados tendem a priorizar essa imagem por se basearem, mais fortemente, nos estereótipos consolidados na sociedade. Assim, vemos um duplo efeito de reprodução e reforço desse estereótipo, que enfatiza o “cientista (homem) maluco”.

Concordamos, também, com Siqueira (2008) quando a autora identifica que o modelo de cientista apresentado em desenhos animados é o dos laboratórios, das experiências, dos tubos de ensaios, pipetas e equipamentos eletrônicos – itens que estiveram presentes nos desenhos analisados. Segundo a autora, não são mostrados sociólogos, antropólogos, psicólogos ou cientistas políticos, pois eles não parecem ser reconhecidos como profissionais da ciência no universo das animações.

Entre os programas interativos, o Fala que eu te escuto, transmitido durante as madrugadas pela TV Record se destacou. Apresentado por pastores da Igreja Universal, o programa apresentou um cunho religioso, mas debateu diversas questões – sempre pelo ponto de vista cristão. Sendo um programa interativo, este foi pautado pela participação dos telespectadores ao vivo, por telefone ou Skype, e teve a participação de alguns especialistas em estúdio. Os temas abordados foram variados, incluindo assuntos polêmicos como testes com animais em pesquisas científicas. Esse programa foi um dos que mais apresentou uma abordagem sobre o ponto de vista ético e controverso da ciência.

Houve predominância dos assuntos das ciências da saúde (53,7%), bastante em função do programa matutino Bem Estar, da TV Globo. Também verificamos programações da TV Record sobre a temática, a exemplo do quadro “Além do peso” do Programa da Tarde (similar ao “Medida certa”).

É importante destacar que as controvérsias – científicas e com temáticas que transcendem a ciência – foram mais frequentes nessa categoria televisiva em relação às demais. Nesse caso, os destaques foram os programas Domingo Espetacular, Programa Justus + e, novamente, Fala que eu te escuto – todos veiculados pela TV Record. O principal tema gerador de controvérsia estava relacionado a dietas e formas de emagrecimento.

Informação: ênfase nas explicações e descobertas científicas

A última enquete de percepção pública da ciência registrou que os brasileiros têm na TV a principal fonte de assuntos de C&T e consideram que esse meio de comunicação noticia as descobertas científicas de forma satisfatória. Além disso, os jornalistas são a segunda fonte com mais credibilidade, atrás apenas dos próprios cientistas (MCTI, CGEE, 2015).

De acordo com Siqueira (1999), o lugar específico para a socialização de conteúdos científicos pela televisão são os programas especializados em jornalismo cientifico. Os demais divulgam representações, com possíveis (e recorrentes) equívocos e exageros, contribuindo para consolidação dos lugares-comuns dos mitos da ciência.

Nesse sentido, é importante destacar que os materiais informativos foram os que menos veicularam conteúdos científicos em nossa pesquisa. As peças da categoria totalizaram 140 itens, sendo 103 itens da TV Globo e 37 da TV Record. Ao todo, a categoria representou 9,5% dos itens do nosso corpus de análise, somando 07 horas, 39 minutos e 18 segundos.

Sob o nosso ponto de vista, esses resultados mostram que os materiais informativos não são a única e nem a principal forma de acesso à ciência pela TV. Apesar disso, em razão da credibilidade do jornalismo, são os mais lembrados pelo público quando se trata de “temáticas científicas”, uma vez que as notícias de descobertas e novos resultados são a primeira imagem que vem à mente quando se fala de acesso a conteúdos científicos.

A TV Globo transmitiu quase três quartos dessas peças, evidenciando seu domínio na categoria. Essa porcentagem reflete a variedade de telejornais e outros programas informativos da líder de audiência, em comparação aos dois telejornais da TV Record.

Apesar disso, o telejornal matutino Fala Brasil, da TV Record, foi o que veiculou mais materiais relacionados à ciência (15% das peças da categoria informação), seguido pelo temático Globo Rural (14,3%). O Jornal da Record foi classificado em terceiro lugar (10,7%) e o Jornal da Globo e o Jornal Nacional dividiram a quarta posição nesse ranking (9,3%).

Esses dados mostram uma divergência com os estudos de Barca (2004) e Santos e Gomes (2010), que registraram poucas inserções sobre ciência no Jornal da Record em comparação a outros telejornais brasileiros. Além do tempo decorrido, uma razão para essa diferença pode ser a amplitude dos nossos critérios, mais abrangentes do que nesses estudos.

A maior parte dessas programações foi incluída em nossa análise em razão da menção a termos e dados científicos (83,5%) e à menção direta à ciência (42,1%) – o que indica como a ciência esteve presente de forma mais clara nessa categoria televisiva. De uma forma geral, as notícias destacaram resultados de estudos, novas técnicas desenvolvidas no campo acadêmico e ainda explicaram como se deu o processo de pesquisa, quais os melhoramentos e o que isso representa para o desenvolvimento do conhecimento científico como um todo. Barca (2004), Ramalho, Polino, Massarani (2012) e Reznik e colaboradores (2014) verificaram cenários semelhantes em telejornais brasileiros.

Houve ênfase nos benefícios e promessas, mas poucas menções aos riscos e malefícios da ciência – o que sugere uma abordagem pouco crítica da categoria informativa como um todo. Dados similares foram registrados por Barca (2004), Alberguini (2007), Ramalho, Polino e Massarani (2012) e Reznik e colaboradores (2014).

Por fim, destacamos que a área das ciências da saúde foi a mais frequente nessa categoria televisiva, assim como em outros estudos sobre a cobertura jornalística de ciência (Barca, 2004; Ramalho, Polino, Massarani, 2012; Reznik et al., 2014). Tais programações abordaram doenças como diabetes, câncer e sopro no coração; fatores de alto risco para a saúde, como colesterol alto e fumo; e ainda temáticas mais amplas sobre o bem-estar, como alimentação e exercícios físicos

Educação: ciência como base da educação

A programação educativa foi identificada apenas na TV Globo, mais especificamente no programa Telecurso nas suas versões para o ensino fundamental, médio e profissionalizante. Segundo Mattos (2010), esse é o programa educativo de maior sucesso da TV brasileira. Seu objetivo original era contribuir na redução do déficit educacional do país por meio de teleaulas gratuitas veiculadas pela TV aberta (Kehl, 1979-1980).

No período de coleta desta pesquisa, o programa era veiculado durante as madrugadas: a faixa de horário de menor audiência (Mídia Dados Brasil, 2017). Em 2014, com reformulação da grade de programação, o Telecurso deixou de ser exibido pela líder de audiência e, atualmente, está disponível em uma plataforma digital e é transmitido por outras emissoras, como TV Brasil, TV Cultural, TV Nazaré e o Canal Futura (Telecurso, 2018).

As peças dessa categoria televisiva que abordaram conteúdos científicos somaram um total ligeiramente superior aos materiais informativos. A menção aos termos científicos esteve em quase todas essas peças (97,3% dos itens da categoria educação) e as ilustrações e/ou animações com temáticas da ciência em pouco mais da metade dos itens.

Nessas programações, vimos a ciência como o ponto de partida para o programa educativo, mesmo que ela estivesse de forma indireta, por meio dos termos e conceitos explicados. Eram os conteúdos técnicos, especializados e científicos que estavam sendo explicados para os telespectadores, portanto, era o ensino de ciências de certa forma.

O estudo de Gálvez Díaz e Waldegg (2004) corrobora nossa percepção. Os autores verificaram que a atividade científica foi tratada como uma verdade e como uma acumulação do conhecimento na TV educativa mexicana. Nesse sentido, é a ciência que explica a realidade e que precisa ser compreendida e apreendida com a ajuda dos programas educativos.

O Telecurso para o ensino médio e fundamental priorizou temas da área de ciências exatas e da terra, enquanto que o Telecurso profissionalizante enfatizou as engenharias. A narrativa dessas peças foi pautada pelas explicações de processos científicos e/ou tecnológicos em sua grande maioria, mas também pelo uso de procedimentos científicos e/ou tecnológicos. Esse dado é justificado pela própria proposta dos materiais educativos, que visa o ensino dos seus telespectadores, seja por meio de explicações teóricas ou demonstrações práticas. Quem ofertava essas explicações ou operacionalizava as demonstrações eram os especialistas nos assuntos tratados, sendo que estes se apresentavam de uma maneira professoral. Não registramos cientistas nessa categoria televisiva.

Os benefícios da ciência ganharam pouco destaque (15,4%), uma vez que a proposta desse tipo de programação não era destacar os feitos científicos. Também não registramos menções a controvérsias, riscos ou malefícios da atividade científica – o que está em consonância com a proposta educativa do programa.

Considerações finais

Em nossa pesquisa identificamos as principais características da programação brasileira relacionada a questões científicas, visando contribuir para os estudos de mídia e de TV sobre a temática. Entendemos que nossos resultados são úteis e oportunos para se obter uma visualização ampla da programação diária sobre assuntos de ciência, sob um perfil quantitativo. Por meio deles, construímos um panorama sobre esse tipo de abordagem, relacionando similaridades e diferenças entre o tratamento dessa temática em diferentes tipos de programação – e este é o grande diferencial desta pesquisa.

No entretenimento, observamos que os assuntos científicos representaram um ponto de vista envolvido em uma discussão mais abrangente. O foco foi, na maioria das vezes, em outro assunto: na saúde, no caso do programa Bem Estar; na investigação de crimes, como no CSI; ou nas “aventuras” dos personagens ficcionais dos desenhos animados. Nesse caso, a ciência foi incluída como parte integrante ou da narrativa ficcional ou do debate do programa.

Os materiais informativos analisados possuem muitas similaridades a esses estudos prévios, principalmente em relação à abordagem positiva da ciência e focada nas suas descobertas. De uma forma geral, esses materiais apresentaram “notícias sobre ciência” de uma forma mais clara.

Já em relação à programação educativa, entendemos que nossos resultados sobre esses materiais são bastante iniciais, uma vez que não encontramos outros estudos sobre os conteúdos científicos nessa categoria televisiva. Considerando que a proposta desses programas possui grandes diferenças com as demais categorias televisivas e que o Telecurso deixou de ser exibido diariamente pela TV Globo, é preciso incentivar análises mais direcionadas a esse tipo de programação.

Os resultados apontados aqui não esgotam as possibilidades de análise sobre a realidade televisiva brasileira. Ao contrário, deixam muitas perguntas para estudos subsequentes – em especial estudos qualitativos. Pesquisas com essa perspectiva, direcionadas para as categorias televisivas e que ainda enfoquem na relação do público com essas programações, podem contribuir na composição de um cenário mais complexo sobre ciência na TV, aprofundando os resultados apresentados por este estudo e outros anteriores. Um dos aspectos que certamente precisam ser aprofundados é a relação entre a representação da ciência e do cientista expressa nos materiais veiculados e sua relação com o imaginário social. Esperamos, dessa forma, incentivar novas pesquisas sobre ciência na TV.

Vanessa Brasil de Carvalho é doutoranda do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (UFRJ) e participa do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia. Bolsista Capes.

Luisa Massarani é professora do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (UFRJ), coordenadora do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia e coordenadora do mestrado acadêmico em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde, Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz.

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Notas

[1] Este estudo integra um projeto mais amplo, apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

[2] O estudo sobre a TV Globo foi publicado na revista Galáxia (ISSN 1982-2553), n. 33, p. 184-198, 2016. A análise sobre a TV Record, está na revista Ensaio: Pesquisa em Educação em Ciências (ISSN 1983-2117), v. 19, p. 1-18, 2017. O material sobre os conteúdos das ciências da saúde nas duas emissoras brasileiras, está disponível na Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde (ISSN 1981-6278), v. 10, p. 1-15, 2016. Por fim, as reflexões sobre a presença dos cientistas nas duas emissoras foram publicadas pela Revista Intercom (ISSN 1808-2599) v. 40, p. 213-232, 2017.

[3] Citação às palavras ciência, tecnologia, cientista(s), pesquisa(s), estudo(s), pesquisadores, instituições de pesquisa e universidades e/ou a presença de um cientista/pesquisador, desde identificado dessa forma.

[4] Consideramos como dados científicos informações e/ou reflexões que não poderiam ser oriundas do senso comum, portanto tem origem no campo científico. Os termos científicos são caracterizados por palavras que não se encaixam no vocabulário do cotidiano, no senso comum, sendo atribuídos à ciência.

[5] Contendo informações científicas ou baseadas nelas, podendo ser uma explicação de um fato, um procedimento científico ou um exemplo da realidade.

[6] Voltado para o público amplo ou leigo ou ainda voltado para a popularização da ciência.

[7] De 2007 a 2013, segundo o Mídia Dados Brasil (2017).

[8] Uma análise sobre as publicidades está em fase de avaliação por uma revista indexada.