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Entrevista
Ciência, arte e comunicação
Entrevistado por
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Reportagem
O retrato das atividades no Brasil
Por Enio Rodrigo
10/07/2008

A atividade de divulgação científica no Brasil deu um salto quantitativo nos últimos anos. Somente na última década, centros e museus de ciência passaram de sete para cerca de uma centena, talvez o dobro disso se forem contabilizadas outras instituições, como observatórios e centros de pesquisa com algum tipo de iniciativa na área. Exposições como as recentes “Revolução Genômica” ou “Corpo humano real e fascinante” caíram no gosto do público e o número de títulos de revistas disponíveis também aumentou significativamente. Grande parte desse aumento se deve às políticas públicas, como é o caso, na gestão federal, do Programa de Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia, do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), comandado por Ildeo de Castro Moreira.

Esse aumento, entretanto, não deixa de esconder um dado importante: o Brasil está muito atrás de iniciativas similares desenvolvidas em outros países e a distribuição dos investimentos na área é desigual. As regiões Sul e Sudeste concentram quase todos os projetos, principalmente por conta da ação incisiva de fundações de amparo à Pesquisa locais (como a Fapesp, a Fapemig e a Faperj), e são raras as exceções fora desse eixo, como é o caso do Museu Espaço Ciência de Olinda. Além disso, existem críticas quanto à má qualidade da educação de base que dificulta o desenvolvimento adequado dos projetos existentes.

Museus e centros de ciência

Para José Ribamar Ferreira, ex-presidente da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência (ABCMC), que trabalha atualmente no Museu da Vida da Fiocruz, a divulgação do conhecimento científico capacita o cidadão a participar do debate da interferência da ciência na sociedade e para isso é importante a ênfase que a atual administração federal tem colocado no tema. Ferreira foi um dos coordenadores do estudo que mapeou os centros e museus de ciência no Brasil em 2005. Para ele, os museus e centros de ciência formam parte importante da complementação do ensino formal, oferecido pela escola. Ele destaca que o trabalho não é algo apenas para complementar a formação dos alunos, mas também dos professores.

“Os museus não são alternativas à escola” concorda Marcelo Firer, diretor do Museu Exploratório de Ciências da Unicamp, “criamos programas sofisticados para auxiliar alunos e professores no processo de aprendizado. Mas é na escola que se dá a consolidação desse processo. A divulgação científica através de museus ou centros de ciência deve ser entendida como uma ferramenta de apoio ao ensino da ciência, não somente um espetáculo”, completa. Firer ainda afirma que o museu deve funcionar como a música: “ampliar a percepção ao conectar o aluno com novas sensações geradas pela descoberta, pela dúvida e por resoluções de problema. Ao criar laços e memórias afetivas, faz contato com a percepção do aluno sobre o quê é ciência, e assim pode vir a despertar a paixão pela pesquisa. Ali está o futuro da universidade”.

Tanto Firer, quanto Ferreira concordam que os museus tendem a ser cada vez menos estáticos. “Os museus mais tradicionais são importantes, mostram um pouco da história da ciência, colocam o público em contato com marcos importantes” diz Ferreira. Porém, museus mais interativos como o Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS têm ganhado destaque. Os projetos itinerantes que se deslocam até as escolas são outra aposta. “No programa ‘Projeto Ciência Móvel' do MCT foram aprovados 15 novos projetos” diz Ferreira. São projetos que se somam a outros de sucesso como o Caminhão com Ciência, iniciativa da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e à Oficina Desafio, iniciativa do próprio Museu Exploratório de Ciências.

Para os interessados, a Associação Brasileira Centros e Museus de Ciência disponibiliza em seu site diversas informações sobre centros e museus de ciência, além de cursos, projetos e programas de divulgação científica.

Exposições

A itinerância também é uma característica das exposições montadas pelo Instituto Sangari. O instituto, considerado uma Organização Social de Interesse Público (OSIP), foi fundado pelo físico Ben Sangari com o intuito de divulgar a ciência. Na América Latina sua sede fica na cidade de São Paulo, e mantém parceria com o Museu de Ciências Naturais de Nova Iorque, de onde vêm as exposições. Chegando ao Brasil as exposições são replicadas e entram em um circuito nacional. “Darwin”, por exemplo, foi umas das exposições mais visitadas do Masp no ano passado (175 mil visitantes, em apenas 10 semanas). A exposição ainda percorreu o Rio de Janeiro e Brasília, e está programada para ir a Goiânia e Vitória nos próximos meses. O mesmo deve acontecer com “A revolução genômica”. O instituto ainda pretende aumentar sua gama de divulgação para outros países da América Latina, ao mesmo tempo em que amplia as parcerias com universidades e instituições de pesquisa nos locais das exposições.

De olho nessa linha de grandes exposições de ciência, nisso que se tornou um negócio lucrativo, começam a figurar empresas privadas. “Dinos na Oca”, por exemplo foi uma exposição montada pela Grey Social Link, uma divisão da multinacional de publicidade Grey Global Group, fundada por ex-funcionários da Brasil Connects (empresa ligada ao empesário Cid Ferreira que trouxe “Os guerreiros de Xian” e “Picasso” ao Brasil). Outras como “Corpo humano: real e fascinante” e “Leonardo da Vinci: exposição de um gênio” são resultados da parceria da CIE Brasil com a Fundação Bradesco (que também contribui com o Instituto Sangari). Todas possuem um viés educativo, promovendo cursos e sugestões de atividades para os professores que depois acompanharão os alunos.

Revistas

Para Alicia Ivanissevich, editora chefe da revista Ciência Hoje (editada desde 1982 e considerara a primeira publicação de divulgação científica para o público em geral), o público de revistas que abordam a ciência é fiel, mas poderia ser maior. “Mudamos constantemente para nos adaptar ao público, mas ainda é difícil” diz Alicia. “Para nos aproximarmos do público temos que ser dinâmicos, desdobrar a revista na internet. Hoje, contamos com um podcast, onde jornalistas e cientistas trabalham juntos apresentando temas e discussões atuais em ciências”, complementa ela.

A Ciência Hoje tem ainda uma irmã mais nova de grande sucesso, a Ciência Hoje para Crianças, além da caçula Ciência Hoje na Escola. Para Alicia “ambas podem ser consideradas publicações paradidáticas, uma forma de instrumento na educação científica”. O Instituto Ciência Hoje, que é vinculado à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), mantém também o Programa Ciência Hoje para apoio à educação que, a partir de parcerias com as secretarias de educação municipais, distribui assinaturas das revistas para alunos da rede pública, ao mesmo tempo em que capacita professores para desenvolver atividades tendo a revista como base de diálogo (o que inclui a sugestão de pautas pelos indivíduos atendidos).

Cidades como Osasco, Guarulhos e Embú, em São Paulo e Alfenas, em Minas Gerais, são algumas que, atualmente, participam o projeto. Além disso, a partir de julho de 2008 os bolsistas de iniciação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) passam a receber uma assinatura da revista também. “São 20.000 assinaturas para bolsistas de todo o Brasil. Acho que isso tem a ver com a preocupação do CNPq em formar pesquisadores e cientistas que conheçam a importância de divulgar ciência”.

Para Alicia outras revistas também têm papel importante nessa área como a revista Pesquisa Fapesp (mantida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp) e a edição brasileira da Scientific American. “Só é uma pena que revistas que começaram com o intuito de divulgar a ciência para jovens, como é o caso da Super interessante e similares, tenham acabado por se pautar pelas vendas. Hoje em dia, os temas dessas revistas beiram o misticismo e curiosidades”, critica ela.

Ulisses Capazolli, editor chefe da Scientifc American, considera que as revistas de divulgação científica no Brasil também fazem boa parte do trabalho que deveria estar nos jornais “Os jornais tratam ciência pontualmente, os cadernos sobre ciência são monotemáticos, beiram o sensacionalismo, e não propõem interação entre as informações apresentadas”. Para ele, as publicações disponíveis devem sensibilizar e fornecer à sociedade recursos de discurso para poder opinar sobre ciência, “ao contrário de outras mídias como a internet que não propõe uma discussão contextualizada. Deve-se tratar a divulgação da ciência como algo que tem que ser contextualizado, são assuntos que necessitam de interpretação, principalmente assuntos de ‘fronteira', que é nosso enfoque”, diz.

Outra alternativas

Na busca por alternativas, merecem destaque ainda a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (que ocorre esse ano de 20 a 26 de outubro),que conta com uma programação extensa e um número cada vez maior de instituições e centros de pesquisa, e o Dia do Grande Desafio evento que ocorre semestralmente e é um desdobramento da Oficina Desafio. Em julho, paralelo às palestras e apresentações da 60º reunião anual da SBPC também ocorrerá a 16ª SBPC Jovem, espaço para cursos, workshops e feira voltado ao público em geral, em especial, aos alunos do ensino médio.

Experiências menos tradicionais também podem ser observadas no projeto Biotecnologias de Rua (que propõe experiências em diversos suportes pouco tradicionais como teatro, instalação artística e cartões postais), além do Ciência em Cena mantido pelo Museu da Vida. São propostas inovadoras que seguem a linha de projetos como os espetáculos da companhia francesa “Les bateleurs de la science” (responsáveis pelo “Cabaret Pasteur”, uma comédia onde o famoso cientista é o herói) ou mesmo do “Science in the pub” (esse último um tanto quanto ousado para as leis locais). Na esfera digital a inovação fica por conta dos blogs de divulgação científica como é o caso do “Ciência em Dia”, mantido pelo jornalista Marcelo Leite.

Cursos

A falta de uma disciplina específica nos cursos de jornalismo que trate da cobertura da ciência (com raríssimas exceções) é compensada pela existência de núcleos de excelência na pesquisa da comunicação científica. Na Universidade de São Paulo (USP) o curso do Núcleo José Reis em Divulgação Científica, fundado em 1991, é “primo-irmão” do curso de especialização em jornalismo científico do Laboratório de Estudos Avançado em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, que iniciou suas atividades em 1994.

Para Osmir Nunes, do Núcleo José Reis, “a divulgação científica brasileira está em fase de expansão e ainda tem muito espaço para crescer. É interessante ressaltar que quando falamos em divulgação científica ela não se restringe ao jornalismo científico. A divulgação científica é abrangente, ela é um sistema de comunicação voltada para a ciência”. A partir deste ano, o Labjor passa a contribuir nesse sentido ao contar com o curso de pós-graduação, nível de mestrado, em divulgação científica e cultural. Ainda em São Paulo, o programa de pós-graduação em comunicação social da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) possui mestrado em jornalismo científico. Na região Sul, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) mantém o Núcleo de Pesquisas em Linguagens do Jornalismo Científico, criado em 2006.

Apesar da concentração dos cursos no Sul e Sudeste, Simone Bortoliero, que atualmente é diretora acadêmica da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) indica importantes contribuições dos cursos de universidades como a Universidade Federal de Pernabuco (UFPE) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A pesquisadora, que desenvolve seu pós-doutorado no Laboratório de Ensino de Química e Tecnologias Educativas (Lapeq) da Unicamp, salienta a importância do “1º Encontro do Norte e Nordeste de Jornalismo Científico” que acontece nas dependências da UFPE (mais informações no site da ABJC). Para quem se interessar pela situação da formação para cobertura da ciência, Simone indica o trabalho desenvolvido por Graça Caldas, pesquisadora da Umesp e do Labjor, que fez um mapeamento das disciplinas de jornalismo científico oferecidas em todo o Brasil. O trabalho está disponível online para os interessados.