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Aromas naturais produzidos por microrganismos
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Viajando pelos sentidos
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O perfume - história de um assassino
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Entrevista
Roman Kaiser
Entrevistado por Por Germana Barata
Poema
Ufa!
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Entrevistas
Roman Kaiser
Ele é químico, botânico e perfumista, há mais de 30 anos, da empresa que, desde 1796, desponta como a principal representante do ramo no mundo. Roman Kaiser foi o responsável por desenvolver, nos anos 1970, a técnica headspace
Por Germana Barata
10/09/2007
Em 2006, a Amazônia perdeu uma área de 14.039 quilômetros quadrados em desmatamentos. A taxa, menor que a de outros anos, foi comemorada pelo governo e ambientalistas, mas ainda assim representa um prejuízo inestimável para inúmeras espécies de plantas e animais. Desaparecem com elas os perfumes da floresta tropical, detentora de fonte inspiradora para indústrias de fragrâncias como a franco-suíça Givaudan, que possui um verdadeiro arquivo de cheiros, dos quais 1500 acordes (combinações de cheiros) foram reconstituídos e sintetizados a partir da natureza.

Utilizada mundialmente por perfumistas, a técnica headspace (leia reportagem sobre a técnica) pode identificar quimicamente, no local, moléculas e as proporções que compõe os perfumes de flores, folhas, cascas, raízes, entre outras, para então reproduzi-los com compostos sintéticos similares. Nesta entrevista, concedida por email, Kaiser fala sobre o processo de desenvolvimento de fragrâncias, das técnicas para criá-las e da importância da biodiversidade no seu ramo. Para ele, “um perfume precisa proporcionar bem-estar, fazer lembrar de todas as coisas boas que o mundo pode lhe oferecer”. As expedições em florestas tropicais, que Kaiser e sua equipe realizam para a captura de perfumes de espécies exóticas, proporcionaram a investigação das fascinantes orquídeas. “Nenhuma outra família de plantas oferece tamanha variedade de formas, cores e, sobretudo, perfumes”, disse descrevendo as orquídeas, cuja espécie Coryanthes kaiseriana foi batizada para homenageá-lo. Seu “último grande projeto” reunirá, em um livro, o perfume da flora ameaçada: The Scent of the Vanishing Flora.

ComCiência – Um perfume pode ser composto de um grande número de elementos. No entanto, parece ser bastante complicado manipular fragrâncias – como pode ser notado em novas variedades de flores que são belas, mas são quase inodoras. O senhor desenvolveu, nos anos 1970, a técnica headspace para investigar e reconstituir perfumes naturais na forma sintética. A tecnologia permite a reconstituição de qualquer tipo de perfume ou ainda existem alguns que são difíceis de serem apreendidos, recriados?

Kaiser – Durantes os últimos 30 anos investigamos cerca de 2500 espécies de plantas com fragrâncias através de nossa técnica headspace, incluindo a fragrância de flores, folhas, madeiras, resinas, frutas ou mesmo raízes. Uma seleção de aproximadamente 470 destes perfumes foi reconstituída com base em compostos sintéticos individuais. É sabido que perfumes naturais não podem jamais ser 100% reconstituídos já que, por definição, eles servem como padrões. Mas técnicas modernas e a nossa experiência tornaram possível nos aproximarmos bastante desse valor, freqüentemente a mais de 95%, e, em alguns casos, a apenas ou dificilmente 90%, dependendo da estrutura molecular de um constituinte do perfume. Uma vez que apenas os compostos de fragrâncias oficialmente introduzidas podem ser usados para reconstituições usadas comercialmente, certos constituintes devem ser substituídos por meio de produtos similares na estrutura e olfato e que estejam disponíveis ao perfumista. Como exemplo poderia citar a grande experiência que temos com os tipos de aromas de rosa e jasmim, que podem ser reproduzidos com 99% de equivalência. Por outro lado, temos os exemplos de perfumes de madeiras e raízes tropicais que consistem em moléculas bastante complexas. Nesses casos, os perfumes só podem ser reproduzidos com, digamos, 80 ou 90% de equivalência.

ComCiência – Como será o processo de criação de perfumes num futuro próximo? É possível que a genética e as biotecnologias sejam capazes de manipular a produção de perfumes para benefício humano?
Kaiser – Até certo ponto, com certeza. Como resultado da seleção dos melhores clones de uma espécie de planta com fragrância usada na produção de óleos essenciais ou produtos relacionados, houve uma melhora considerável na qualidade dos produtos naturais correspondentes; e isso certamente continuará melhorando. Por outro lado, hesito em acreditar que espécies de plantas produtoras de fragrâncias modificadas por técnicas modernas de engenharia genética sejam relevantes para nossa indústria. A biotecnologia, no entanto, será importante para a melhoria de produção de compostos de fragrâncias altamente potentes, e com estrutura química complexa, em produtos naturais.

ComCiência – Os perfumes estão profundamente ligados à histórica humana. Dos rituais fúnebres do Egito aos banhos gregos e indígenas; conquistando espaço entre os astros de Hollywood, sendo pirateados e alcançando àqueles que não podem comprar os caros frascos. Os perfumes foram democratizados?
Kaiser - Sim, você tem razão. Desde os primórdios da história os homens foram cativados pelos aromas, perfumes das plantas. A origem da palavra “perfume” (per fumum) sugere que os aromas eram inicialmente tidos como divinos, servindo como oferendas em sacrifícios. Posteriormente, os perfumes acompanharam os homens por todas as culturas até que filósofos e cientistas dos séculos XVIII e XIX “qualificaram os sentidos”. A elite intelectual desse período estabeleceu a visão como um sentido superior, da razão e civilização, enquanto o olfato foi posto em um nível inferior, uma capacidade primitiva e bruta associada à selvageria e à loucura. Ao longo do meu envolvimento com a pesquisa de perfumes naturais, durante mais de 30 anos, notei fortes indícios de um recuo da visão original puritana e um crescimento na apreciação do olfato. Isso pode ser sustentado fortemente pelo Prêmio Nobel de Medicina de 2004 concedido a Richard Axel e Linda B. Buck por suas descobertas de “Receptores olfativos e a organização do sistema olfativo”. Acredito que a enxurrada de perfumes ao nosso redor para toda e qualquer aplicação é apenas uma reação exagerada. Tenho certeza que voltaremos a apreciar cada vez mais perfumes sofisticados, voltados a uma cultura dos sentidos.

ComCiência – Os vinhos são uma assinatura tradicional da identidade de um terroir, de uma cultura, de um povo. No entanto, o processo de globalização levou a padronização do sabor, de forma a conquistar mais consumidores. O quanto a globalização mudou a criação e o desenvolvimento de fragrâncias?
Kaiser – A globalização leva a padronização de gosto; você descreveu a indústria do vinho como exemplo. Estes novos vinhos “globalizados” podem até, num primeiro momento, parecer atraentes, mas logo se descobre que eles são muito parecidos entre si, logo se perde o interesse neles e nos vemos desesperados para procurar uma apreciação distinta. Isso tem sido notado por inúmeros produtores locais ao redor do mundo. Como uma alternativa aos produtos de massa globalizados pode-se encontrar, quase em todos os países produtores de vinho, produtos feitos com paixão e entusiasmo, vinhos modernos com cultura. Eles são, geralmente, nem sempre mais caros, mas são uma alternativa. Felizmente os prazeres da vida e as experiências sensuais não podem ser globalizadas por muito tempo. Creio que o mesmo é verdadeiro para a indústria de fragrâncias. É importante pensar globalmente, mas ainda assim agir localmente, de certa forma.

ComCiência – De acordo com dados do Euromonitor de 2006, o Brasil é o terceiro mercado mais valioso do mundo. Diz-se que a biodiversidade é detentora de um enorme potencial de riqueza para as nações que as possuem e que, portanto, devem ser preservadas e usadas de forma sustentável. Baseado em sua experiência com expedições pelo mundo, sobretudo em regiões de alta diversidade, o quando essa afirmação pode ser considerada verdadeira para a indústria de perfumes?
Kaiser – As plantas fornecem alimento, fibra, material de construção, cores, fragrâncias, sabores, combustíveis, medicamentos e, por meio de sua beleza, inspiração para os homens. Além disso, elas são absolutamente essenciais para a sobrevivência dos seres vivos. O que aconteceu ao espírito humano para que tanto da base de nossa vida esteja ameaçada hoje? Você tem razão, a biodiversidade possui um potencial de riqueza importante e há realmente inúmeras razões para preservá-la. Depois de buscar novas moléculas e novos conceitos de perfumes na natureza por mais de 30 anos, nós da Givaudan decidimos que gostaríamos de devolver algo ideal para a natureza através de meu último grande projeto intitulado The Scent of the Vanishing Flora (O perfume da flora ameaçada). Nesse projeto estou estudando a parte olfativa das espécies de plantas mais ameaçadas no mundo e os dados deverão logo ser compilados em um livro de mesmo título. Esperamos que possa sensibilizar as pessoas para as várias razões que tornam as atividades de conservação da natureza tão importantes.

ComCiência – Sua experiência com fragrâncias mostra que o senhor tem verdadeira fascinação pelas orquídeas, tendo sido homenageado inclusive com a nomeação da espécie Coryanthes kaiseriana, descoberta na Costa Rica e Panamá. Por que essas flores nos encantam?
Kaiser – A Orchidaceae é a maior e mais jovem família de plantas que produzem flores (angiospermas). São conhecidas mais de 25 mil espécies (que representam 7 a 9% de todas as plantas com flores), subdivididas em cerca de 750 gêneros, e nenhuma outra família de plantas parece oferecer tamanha variedade de formas, cores e, sobretudo, perfumes. Na realidade, se alguém tiver interesse em perfumes de flores, escolherá depois de poucos anos “o perfume das orquídeas” como tópico principal, porque qualquer perfume imaginável pode ser encontrado nessa família. Essa afirmação está baseada em minha avaliação olfativa de aproximadamente 3,5 mil espécies naturais das quais cerca de 1,2 mil tiveram seus perfumes apreendidos por nossa técnica headspace e, em seguida, investigados de acordo com suas composições qualitativas e quantitativas.