Mariluce Moura: ‘Redes sociais são fundamentais na disseminação de informação, formatos e experimentação’

Por Carolina Medeiros

“A divulgação científica tem ligação mais direta com a mobilização, motivação e educação de determinados grupos sociais. Já o jornalismo científico tem só ligação indireta com isso – ainda que, no seu compromisso com o público, esteja servindo a uma ideia de cidadania e a uma noção de formar, criar cidadãos, em determinada sociedade”.

Mariluce Moura é jornalista, criadora de uma das mais importantes revistas de divulgação científica brasileira, a Pesquisa Fapesp, que dirigiu entre os anos de 1999 e 2014. Teve passagem pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), atuando como assessora de comunicação e depois como editora-chefe da Revista Brasileira de Tecnologia, em 1989. Com o fim da revista, no início dos anos 1990 (por conta da crise desencadeada com o Plano Collor), foi para a Secretaria de Ciência e Tecnologia de São Paulo (onde atuou entre os anos de 1990 e 1994). Foi convidada a montar uma assessoria de comunicação na Agência Fapesp. Logo nasceu o primeiro boletim de notícias: Notícias Fapesp (agosto de 1995).

Em outubro de 1999, o boletim foi transformado em uma revista mensal, a Pesquisa Fapesp. No começo de 2002, passou a ser vendida em bancas e a permitir assinaturas. A história de Mariluce à frente da revista durou 20 anos, até 2014, quando saiu para desenvolver um antigo projeto: o Ciência na Rua, em parceria com o Labjor. O projeto tem um caráter de mídia cruzada, levando a ciência com humor para a rua, tendo como foco jovens de 15 a 25 anos. O Ciência na Rua conta com uma variedade de conteúdo: notas curtas, entrevistas, artigos, jogos, cartuns, histórias em quadrinhos, podcasts e vídeos. A jornalista criou ainda a revista Bahia Ciência, em 2012.

Atualmente, é assessora de divulgação científica da reitoria da Universidade Federal da Bahia – tendo sido reintegrada à universidade após 40 anos, por meio da Lei da Anistia. Optou por assumir o cargo, em vez receber uma indenização do Estado. À frente da assessoria, desenvolveu o site EdgarDigital, um semanário online que leva aos estudantes as notícias mais relevantes. O nome do periódico é uma homenagem ao fundador e primeiro reitor da UFBA, Edgard Santos.

Em sua opinião como podemos definir divulgação científica?

Pergunta difícil, essa expressão é muito difícil de traduzir – não existe no inglês dessa forma, por exemplo. Inclusive science communication – comunicação da ciência, que utilizávamos para o âmbito da produção científica, dos artigos científicos produzidos pelos pesquisadores em seus campos de atuação, e publicada os periódicos científicos; esse era o entendimento que se tinha desse termo. Porém, como o termo passou a ser utilizado, principalmente nos congressos internacionais, para se referir também à divulgação científica que inclui o jornalismo científico, isso abriu um campo enorme de ambiguidade do que é divulgação científica – tudo isso no campo da semântica.

Eu diria, para tentar precisar, um pouco mais pela minha prática e pela tentativa de encontrar fundamentos teóricos para essa prática de décadas, que divulgação científica é aquele conjunto imenso de tarefas e produções voltadas para estreitar a relação dos produtores de conteúdo, dos cientistas, com a sociedade. A divulgação científica incluiria um espectro muito amplo de atividades, que vão do cinema, passando pelo teatro, chegando aos museus, passando por uma gama imensa de congressos, feiras, exposições, mostras, incluindo também o jornalismo científico. Do meu ponto de vista, e compartilho aqui a opinião dos pares, com quem eu trabalho e converso frequentemente, e com quem compartilho esse contínuo esforço de ampliar a divulgação científica no país; posso dizer que nós entendemos como divulgação científica, esse conjunto dessas práticas, e um pouco as reflexões sobre ela, e a interação entre produtores de conhecimento científico e a sociedade.

É claro que há dúvida quanto à abordagem quando se fala em produtores de conhecimento: quer dizer que estamos falando de um conteúdo produzido em um lugar e levado a outro mais amplo. Essa questão gera mil problemas, inclusive teóricos, porque essa ideia de que existe um grupo que produz conhecimento para uma sociedade que tem pouco conhecimento é a teoria do déficit. E é uma visão muito criticada, principalmente nos últimos 20 anos.

Em 2009, em uma palestra na Unicamp, durante o 1º Fórum Ibero-Americano de Divulgação e Comunicação Científica, Miguel Ángel Quintanilla, diretor do Instituto de Estudos de Ciência e Tecnologia (eCyT, na sigla em espanhol) da Universidade de Salamanca, na Espanha, apresentou os movimentos teóricos do déficit cognitivo e o contextual. Podemos também acrescentar, desde 2002, o da espiral científica, de Carlos Vogt. Isso para tentar entender, do ponto de vista teórico, a relação entre produtores de conhecimento e sociedade – ou quando essa relação tem certo grau de autoritarismo, e quando olhamos para ela de uma forma democrática.

Esses modelos nos interrogam há bastante tempo, nos fazem pensar de que forma estamos fazendo divulgação científica, se é baseada no modelo do déficit (que um sabe e o outro não sabe), e então eu preciso traduzir para o outro saber. Ou estou (eu enquanto produtor de conhecimento) me alimentando das indagações do outro, e ele também está me trazendo conhecimento diante das indagações e de propostas de saber. Ou fazemos ciência como propõe a teoria da espiral, em que há uma troca.

Diante disso tudo, para efeitos práticos e pragmáticos, há um campo que é o da comunicação científica, vindo do campo da produção científica, dos cientistas; e um campo da divulgação científica, em que operam muitos agentes, cientistas, jornalistas, outros criadores. E nesse campo livre da divulgação científica, que está sempre dentro dessa interface entre o geral da sociedade e um grupo que produz profissionalmente conhecimento científico, dentro desse vasto campo temos o jornalismo científico. O jornalismo científico é uma das atividades dentro da divulgação científica.

Podemos dizer que o jornalismo científico é um braço da divulgação científica?

Difícil dizer um braço, ele é jornalismo, ele é uma atividade, antes de qualquer coisa, de ser qualitativo, científico. O substantivo é jornalismo. Isso pressupõe todo um arcabouço, toda uma construção com fundamentação teórica, regras práticas, manual de redação, todo um campo; que vem mais sistematizado desde o século XIX.

Jornalismo científico é jornalismo. E, ao mesmo tempo, ele é uma parte da divulgação científica, mas eu não diria um braço – caso contrário, tiro esse vínculo de ser jornalismo.

Por exemplo, quando um físico escreve um livro de divulgação científica o compromisso fundamental dele é como tornar mais claro alguns grandes achados produzidos no âmbito da ciência. Quando um jornalista conta sobre uma descoberta está, antes de qualquer coisa, submetido à uma estrutura formal de linguagem própria do jornalismo. Ele não é alguém fazendo divulgação cientifica, ele é, antes de tudo, um profissional do jornalismo.

Ao dizer que jornalismo científico é um braço do jornalismo estou falseando a atividade de jornalismo científico dentro desse campo que é o jornalismo. É uma participação ambígua de um outro grupo, que não é dos cientistas nem dos jornalistas. E ao trazer a ciência para o campo do jornalismo, ele está fazendo jornalismo, e bebendo da fonte da ciência.

Eu diria que a divulgação científica engloba o jornalismo científico, e que este tem suas características próprias e personalidade bem forte. O jornalista pode ter momentos que fará divulgação científica puramente, mas quando está dentro da Folha de S. Paulo, do O Globo, do The New York Times, Le Monde, BBC, eles estão fazendo jornalismo científico, comparado ao econômico, não divulgação científica.

Nesse caso, podemos dizer que tanto a atividade de jornalismo quanto a de divulgação científica depende do canal onde está sendo feito?

Sim. Mas no Brasil o jornalismo científico é feito exclusivamente pelos jornalistas, já a divulgação científica é híbrida; nela cabe um monte de gente, inclusive cientistas. Trata-se de um campo mais aberto de práticas.

Retomando a teoria da espiral científica, esta associa a divulgação científica ao papel de mobilização, motivação e educação da sociedade. Concorda com essa associação?

Ao falar de ações de progresso do conhecimento, podemos novamente fazer uma diferenciação entre jornalismo científico e divulgação científica. Quando alguém, seja o museu Catavento, organiza uma exposição, ou quando o Ciência na Rua, juntamente com o Labjor, faz uma exposição de jogos de luz, é claro que tudo isso está profundamente vinculado. É o avanço da cidadania

Quando um repórter escreve para um jornal, ao fazer uma matéria, por mais linda e bem-feita, com infográficos extremamente didáticos, o que interessa para ele é difundir a informação e contar determinadas histórias. No âmbito de visão das definições e no âmbito do próprio jornalismo, é crucial que a sociedade ou o público de um determinado veículo seja informado de determinado assunto. Porque, para ele, aquela informação é de extrema relevância e precisa estar naquele veículo de comunicação.

Não tenho dúvidas de que o jornalismo é altamente educativo em sua prática diária. Mas no jornalismo científico não há tanto a preocupação com a educação; já a divulgação científica tem uma relação mais de formação do que de informação.

O jornalismo científico faz parte desse grande leque de atividades, e, involuntariamente, acaba servindo a esse grupo de conceitos, áreas e âmbitos que mobiliza a sociedade, promove a construção da mesma, e o avanço da cidadania.

Então de forma mais objetiva, a divulgação científica tem ligação mais direta com a mobilização, motivação e educação de determinados grupos sociais. Já o jornalismo científico tem só ligação indireta com isso – ainda que, no seu compromisso com o público, esteja servindo a uma ideia de cidadania e a uma noção de formar, criar cidadão, em determinada sociedade.

Você trabalha com diferentes produtos de divulgação e comunicação, e que se utilizam de diferentes mídias. Em sua opinião, as redes sociais foram importantes para a produção de conhecimento científico, de divulgação?

Fundamentais, inclusive na disseminação de conceitos, de informação, de formatos, experimentação, de vídeos (grandes e pequenos). Se formos olhar os grandes jornais internacionais, como eles se apropriaram dos vídeos em suas páginas, é uma coisa extraordinária. As redes sociais são um espaço fundamental de divulgação científica. E que deve ser, a todo momento, experimentado, com novas formas.

No caso das métricas alternativas, existe um debate que elas incentivam a produção científica.

Minha visão é que em qualquer campo precisamos ter massa crítica, e também um grande volume de produções. Quando há volume de produção, naturalmente haverá coisa de baixa qualidade e também de alta qualidade, e isso é usual do campo da comunicação. Mas se não houver volume, não tem como fazer essa diferenciação. Veja o campo do cinema, existe um grande volume de produções comerciais, mas também há produções mais refinadas, que promovem grandes reflexões.

Um amigo, pesquisador e gestor de ciência, diz que 80% do que se produz com o conhecimento científico não tem relevância, mas é preciso que haja esses 80% para servir de base para os outros 20%.

Quanto à relação atual da ciência e da tecnologia no Brasil…

A situação é dramática. Além da situação de ameaça das universidades públicas, que é onde efetivamente se produz conhecimento neste país – porque todas as pesquisas mostram rigorosamente que a produção de ciência se dá nelas. Quando você garroteia os recursos das universidades, atinge além das extensões, atividades como um todo, bem no cerne a produção científica. Quando reduz o orçamento da ciência & tecnologia (orçamento público), reduz o campo de bolsas e da pesquisa, e com isso ameaça o desenvolvimento do país.

Mas ainda assim há profissionais que conseguem produzir ciência, e manter canais ativos de divulgação da mesma. Na televisão, por exemplo, há espaço para a divulgação de ciência e o jornalismo de ciência. Isso é mostrado na pesquisa de 2015 feita pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CCGE) e Ministério da Ciência e Tecnologia, que mostra que as pessoas se informam sobre ciência na televisão aberta.

E há também as redes sociais, como os vídeos que estão no You Tube. Fora algumas coisas heroicas que têm sido criadas, experiências no Norte e Nordeste, como a Agência Nossa Ciência. E também muitos blogs sobre mudanças climáticas.

Atualmente, as revistas científicas também têm se voltado a essa necessidade de divulgar seus conteúdos além das publicações tradicionais. Como vê essa mudança?

Internacionalmente, há o apoio do público (governo, associações) no financiamento das pesquisas, então o pesquisador tem um ambiente competitivo e precisa ter visibilidade e credibilidade públicas para poder disputar recursos das agências de financiamento. Para sobreviver, ele precisa estar visível. Com isso, não é à toa que revistas como Nature e Science têm espaços para coberturas jornalísticas.

No Brasil, é uma descoberta. Um exemplo é o CNPq, que descobriu recentemente o campo e o leva em consideração na hora de avaliar um projeto. Assim, as revistas começam elas próprias a enxergar que podem ajudar nessa visibilidade.