No princípio era o verbo: linguagem, língua e pertencimento

Por Francielly Baliana e Ruam Oliveira

Humanidade e linguagem parecem caminhar juntas. Especialistas apontam o quanto as características e a identidade de um povo estão diretamente relacionadas à forma como seus indivíduos se expressam. A língua talvez seja o maior exemplo disso.

A linguagem talvez seja um dos maiores elementos de diferenciação entre seres humanos e outros animais. A língua, como apenas uma das múltiplas possibilidades da linguagem, parece contribuir para que esta capacidade de expressão se torne um elemento de sociabilidade. Tendo em vista a imensa variedade de idiomas existentes ao redor do mundo, cada uma dessas formas de se expressar carrega características singulares, mas que variam entre a possibilidade de diversificar e unir culturas e de servir como instrumento de opressão e silenciamento.

Segundo o Ethnologue, uma espécie de biblioteca online que cataloga idiomas desde 1950, há atualmente 7.099 línguas. No Brasil, além do português, existem outros 226 idiomas – em sua grande maioria,  línguas indígenas. Algumas quase extintas, como o “avá-canoeiro”, encontrado em dois grupos indígenas, em Tocantins e Goiás. Apenas 14 indivíduos falam este idioma, reflexo da queda de uma população composta, hoje, por 46 pessoas.

Ao longo da história, pode-se notar o quanto a linguagem foi, de certa forma, convencionada como sinônimo de língua, o que contribuiu para excluir diversos grupos e indivíduos que viam, por exemplo, na corporalidade, nos sinais ou mesmo nos símbolos, uma forma de se comunicar. O valor da língua se constituiu como instrumento de junção, de constituição de grupos, mas também de separação, como um fator de conflito, de dominação e mesmo de silenciamento.

Para Heloísa Augusta Brito de Mello, linguista e professora da Universidade Federal de Goiás, um dos exemplos desse processo, que afeta diretamente o sentimento de pertencimento e de construção de identidade, está na formação do Brasil. “Primeiro, os colonizadores instituíram as escolas religiosas, cujo objetivo era ensinar o português aos nativos para que mais facilmente pudessem catequizá-los; posteriormente, quando vieram os escravos da África, suas línguas e dialetos foram rapidamente apagados em razão da necessidade de se adaptarem ao novo universo cultural e social; em seguida, quando os escravos foram substituídos pelos imigrantes europeus, em pouco tempo, o país lhes tirou o direito de aprender suas línguas de origem na escola; e, ainda hoje, a escola brasileira não reconhece o direito das crianças brasileiras ou não – que vivem nos contextos de fronteira – de aprender na escola as línguas com as quais interagem regularmente no seu cotidiano”, afirma.

Por outro lado, esse processo de adaptação e troca nem sempre é ruim. Para Elisa Bracher, artista plástica e uma das fundadoras do Instituto Acaia, as relações propostas em um novo ambiente social podem ser consideradas não como uma perda de cultura, mas como um amálgama, uma junção equilibrada. “Eu acho que aqueles que acabam sendo mais felizes são pessoas que conseguem abrir mão de algumas coisas de sua cultura para amalgamar com a do lugar onde está chegando”, aponta, ressaltando o quanto uma perspectiva positiva em relação à mudança pode fazer bem.

Bracher, que dirigiu o documentário Que língua você fala?, exibido no Festival de Cinema do Rio em outubro de 2017, destaca dois acontecimentos que fizeram com que essa pergunta se tornasse tema de seu filme. O primeiro deles se deu após orientar um jovem que frequentava o Acaia. Ele, depois de ouvi-la falar por 40 minutos, olhou para ela e disse: “Eu não entendi nada do que você falou”. O segundo acontecimento foi exatamente o contrário. Uma moça que frequentava o Acaia a elogiou dizendo que a coisa que mais gostava nela era que “ela sabia falar”.

“Deu um nó na minha cabeça. Como é isso de eu saber falar, mas ninguém me entender?”, disse. Com estas duas perspectivas, Bracher percorreu a Índia, a Inglaterra e o Brasil para tentar desvendar as relações e o impacto que a linguagem desenvolve nas pessoas. A partir dessa experiência, a artista destaca que, no caso de perda cultural, a língua acaba sendo o último lugar de resistência das pessoas. “É a última barreira”, conta, afirmando que é também de cunho emocional e estrutural se apegar ao idioma, dialeto ou até mesmo ao sotaque.

Quando a escola ensina dois idiomas

Essas barreiras entre línguas nativas e adquiridas são algumas das problemáticas quando se trata do ensino de idiomas nas escolas. Escolas bilíngue, por exemplo, estão cada vez mais presentes nos países, seja por uma necessidade de contexto de imigração e refúgio – como no caso da Braham Primary School, em Londres, que recebe pessoas falantes de 36 idiomas diferentes – ou apenas pela possibilidade de adquirir fluência em uma segunda língua.

Das quase 140 horas de depoimentos coletados para seu documentário, Elisa Bracher se deparou com um caso em que os pais não se permitiam falar a língua-mãe em casa – ou ver TV no idioma pátrio – para não influenciar o filho, que agora vivia, junto com eles, em outro país. “Uma criança como esta tem um problema cultural imenso, porque ele não tem certeza da própria raiz”, conta a artista, referindo-se à fala de uma neurolinguista com quem conversou na Inglaterra.

Heloísa Augusta, que analisa também aspectos do bilinguismo em países como Canadá, Estados Unidos e o próprio contexto brasileiro, afirma que estudantes de escolas que se autodenominam bilíngues podem sofrer duros processos de silenciamento, especialmente quando essa é uma política de Estado, como no caso do programa dos Estados Unidos de ensinar inglês a imigrantes apenas a partir da língua nativa, e não em convivência constante e de valorização de ambos os idiomas.

“Se, por um lado, a escola quer preparar seus alunos para as realidades deste século, ela deve levar em conta o fato de que a diversidade cultural e linguística é a norma nas esferas local e internacional. Em termos de orientações curriculares, isso significa que a diversidade cultural e linguística deve ser vista como recursos, como bens culturais a serem adquiridos pelo educando, ao invés de serem ignoradas ou apagadas”, afirma.

Uma educação que leve em conta esses aspectos, completa a professora, que valorize ambos os processos culturais das línguas em proposição, e não se utilize de uma apenas como base para se chegar à compreensão da outra, seria um dos caminhos adequados para a valorização da cultura e das interações linguísticas humanas em suas mais variadas distinções e especificidades.

A linguagem como ciência

Um dos caminhos trilhados nesse processo de compreensão da linguagem como uma capacidade especificamente humana de produzir e manifestar sentidos, conforme define o linguista brasileiro José Luiz Fiorin, professor da Universidade de São Paulo, foi o desenvolvimento de uma ciência da linguagem, denominada linguística, especialmente a partir das sistematizações iniciadas no século XX, com postulações de Roman Jakobson e Ferdinand de Saussure, que culminaram na possibilidade de tomar por objeto a linguagem humana em seus aspectos fonético, morfológico, sintático, semântico, social e psicológico, como também de analisar as línguas enquanto estrutura, em suas origens, desenvolvimento e evolução.

Parte desses estudos permite afirmar, como aponta Fiorin, em A linguagem humana: do mito à ciência, que “a aptidão para a linguagem é um traço genético. Sua realização, no entanto, passa por um aprendizado, que é do domínio cultural, como testemunham os casos das crianças selvagens, cuja capacidade de linguagem não se desenvolveu”. Este traço, porém, que parece ser um dos aspectos diferenciais entre o Homo sapiens e outras espécies animais, evolutivamente deu a mulheres e homens a possibilidade de criar representações de mundo, especialmente pela expansão da caixa craniana na região dos lóbulos pré-frontais – modificação observada pela primeira vez no chamado homem Cro-Magnon, que habitou a Terra há aproximadamente 30 mil anos. Essa região do cérebro humano se ligou diretamente ao desenvolvimento do pensamento associativo, “pré-requisito para as relações simbólicas que viriam a ser estruturadas com a linguagem”, conforme aponta o biólogo Caetano Dable, mestre em etnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“O pensamento simbólico abriu novas fronteiras no desenvolvimento dos hominídeos: ele permitiu que o mundo em que nossos ancestrais viviam fosse enfim representado – situações cotidianas, perigos locais, fontes de alimentos, por exemplo. O primeiro registro acerca dessas representações são as próprias pinturas rupestres”, afirma. O pesquisador argumenta que, posteriormente a esse surgimento, veio também a representação de mundo por meio da fala, mas que por falta de registros não há uma datação específica para esse fato evolutivo.

O que diferenciaria, então, essa capacidade de comunicar sentidos, ao comparar o que fazem humanos e o que fazem animais em termos práticos, como as abelhas, que elaboram uma espécie de dança para atrair seu grupo quando um alimento é encontrado?  Especialmente, a partir do que diz o linguista francês Émile Benveniste, em Problemas de linguística geral I, a grande diferença reside no fato de que as abelhas, mesmo tendo essa capacidade natural de produzir sentido em grupo, se diferenciam dos humanos quando estes demonstraram a possibilidade de se comunicar não apenas naturalmente, mas intencionalmente, “não por um sistema simbólico nato. Mas pela elaboração conceitual de um sistema flexível de símbolos criados”, conforme afirma Dable.

A linguagem, desta forma, deixa de ser apenas uma capacidade de indivíduos exercerem a comunicação, e se torna um dos principais espaços de representação e formação do mundo cultural. Toda essa possibilidade de utilizar a linguagem, enquanto capacidade humana, para estabelecer relações, é principalmente manifestada na já apresentada ideia de língua, “que é o lado social da linguagem, não pode ser modificada pelo falante e obedece às leis de contrato social estabelecido pelos membros da comunidade”, conforme afirma a linguista Margarida Petter, professora da Universidade de São Paulo.

Mesmo a partir de uma análise da própria estrutura da língua, na qual também é possível concebê-la enquanto um sistema de signos, de unidades que se articulam, o sentimento de pertencimento parece se associar tanto ao idioma aprendido desde a infância quanto às trocas realizadas ao longo dos ambientes e das pessoas e grupos com os quais se têm contato.

Nas artes, na música, na literatura, no cinema e mesmo em outras expressões culturais, a linguagem costuma aparecer como espaço de afirmação de identidade. Ainda que convencionada por grupos e povos, é importante recordar o quanto o próprio ato de direcionar uma palavra a um significado específico, que é a forma básica de construção de uma língua, é também um processo cultural, e concebê-lo como princípio ou como resultado das interações humanas parece menos frutífero do que observá-lo em suas interações, em suas variações incessantes ao longo do tempo e, também, ao redor do mundo.

Francielly Baliana é jornalista (UFF) e aluna da pós-graduação em jornalismo científico do Labjor/Unicamp.

Ruam Oliveira é jornalista (UPM) e aluno da pós-graduação em jornalismo científico do Labjor/Unicamp.