(R)Evolução [Homo] sapiens: de oprimidos a tiranos

Por Camila P. Cunha

A unificação de toda a humanidade em um globo sem barreiras ou fronteiras é a tendência, consequência das ondas imperialistas, do dinheiro e da religião e começou há 2.500 anos. Hoje, nossa união se fortalece na crença pela pesquisa científica: solução de todas as mazelas, quiçá o aquecimento global. E, na era das ciências biológicas, apoiados pelos avanços da biotecnologia e da medicina que prometem a cura de doenças, além da possibilidade de reverter os efeitos de acidentes paralisantes pelo uso de interfaces cérebro-máquina, poderemos finalmente transformar o homem mortal e imperfeito em deus: eterno e onisciente.

Primeiro best-seller de Yuval Noah Harari, historiador da Universidade Hebraica de Jerusalém, Sapiens – uma breve história da humanidade (editora L&PM Editores) apresenta a trajetória da humanidade e os pontos de virada que nos levaram ao topo da cadeia alimentar e ao despertar do nosso alter ego deus: “Eu tornei-me a Morte, o destruidor dos mundos” (Bhagavad Gitâ). [1]

No livro, Harari nos conduz em uma jornada do Big Bang (criação do Universo) à teia sociocultural pós-moderna, em que esbarramos em três revoluções, que alteraram completamente os rumos da humanidade: a cognitiva (há pelo menos 70 mil anos), a agrícola (há 12 mil anos) e a científica (entre 1,500 e 500 anos atrás). Seria um livro comum de divulgação científica, não houvesse as pitadas de ironia, curiosidades e provocações. O brilhantismo de Harari está na capacidade de propor além de um percurso histórico linear, uma reflexão interna, como indivíduos, e coletiva, como espécie do planeta Terra. O livro é um excelente guia ao ajudar a pensar quem somos e para onde vamos.

Atenção! Essa resenha pode conter spoilers.

É difícil imaginar que há 10 mil anos os Homo sapiens coabitávamos a Terra com outros hominídeos do gênero Homo, geneticamente mais próximos de nós do que os atuais macacos bonobos, chimpanzés, orangotangos e gorilas: neanderthalensis, erectus, soloensis, floresiensis, denisova, rudolfensis, ergaster, entre outros, que pisaram na África, Europa, Ásia e Oceania. Também dividíamos a Terra com animais gigantes (a chamada megafauna), como os cangurus-gigantes (Cangurus sthenurinae), os leões-marsupiais (Thylacoleo carnifex), os mamutes (Mammuthus spp.), os diprotodontes (Diprotodon spp.), as preguiças-gigantes (Thalassocnus spp.) e os tigres-dente-de-sabre (Smilodon spp.).

A saída dos Homo sapiens – meros caçadores-coletores que ainda não conheciam a roda, a escrita e o ferro, mas já dominavam o fogo, caçavam, formavam estruturas sociais complexas e tinham cérebros tão grandes quanto (se não maiores) que o do homem moderno – do continente afro-asiático teve efeitos desastrosos. Somos os mais prováveis responsáveis pela extinção da megafauna e de tantas outras espécies. Segundo Harari, a história revela que a cada revolução nos tornamos mais e mais destrutivos… a ponto de sermos capazes, hoje, de pôr fim à nossa própria existência.

Revolução cognitiva: o despertar do imaginário coletivo

As línguas e a versatilidade no uso de sons para transmitir informações (majoritariamente fofocas) e pensamentos complexos (quem sabe sonhos, também) foram fundamentais para a revolução cognitiva, marcada não por grandes invenções (barcos, lâmpadas a óleo, arcos, flechas, agulhas etc.), mas pela capacidade de criar e crer em lendas, mitos e deuses. Histórias fantásticas são o cerne do desenvolvimento das sociedades. Para Harari, os mitos partilhados (seja religião, comércio, estratificação social, capitalismo ou democracia, para citar alguns exemplos) são aglutinadores, permitindo que humanos desconhecidos cooperem e convivam em “bandos” cada vez maiores. Morar em grandes centros urbanos, como Xangai, com seus mais de 24 milhões de habitantes, depende deste constructo ou, quem sabe, vantagem evolutiva.

O mundo irreal, encerrado dentro de nossas cabeças, e perpetuado culturalmente, vem nos separando do mundo físico e biológico que nos rodeia. A partir daí nos despimos do status de oprimidos (meros intermediários da cadeia alimentar) regidos pelos ciclos naturais, para nos vestirmos de tiranos, verdadeiros semideuses, regidos por uma malha cultural efêmera e capazes de determinar o destino do planeta e de seus diversos habitantes a nosso bel-prazer.

Revolução agrícola: vegetais, crescei e multiplicai-vos!

A revolução agrícola marca a domesticação de plantas e também de animais. Com alimentos em abundância, concretizamos o que Bíblia apregoa: “Sejam férteis e multipliquem-se, encham e subjuguem a terra” (Bíblia, Gênesis 1.28). Muito ganhamos como espécie, medida em moléculas de DNA, não como indivíduos. Somos mais de sete bilhões, mas muitos viveram e ainda vivem em condições análogas ou piores que nossos ancestrais: ora pelo trabalho extenuante e dieta pobre em nutrientes ora pelo consumo exagerado de carboidratos aliado ao sedentarismo.

Harari é categórico ao afirmar que a revolução agrícola não passou de uma fraude: será que fomos mesmo dominados, manipulados por alguns poucos cereais, como o trigo, o arroz e o milho, cultivados hoje em extensas áreas mundo afora? A única certeza é que a agricultura nos presenteou com o futuro em uma caixa de Pandora: o sacrifício é a esperança de uma boa colheita no porvir. Mas, ao mesmo tempo, nutriu os sistemas sociais e políticos, culminando com o florescimento das artes, das guerras, da filosofia e da base das ciências: a matemática.

Revolução científica: admirável mundo novo

Diferentemente da crença religiosa e suas verdades absolutas e imutáveis, a pesquisa científica e sua linguagem matemática contraria o senso comum e proclama ignorância. Mesmo assim, tecnologia e inovação destacam-se na sociedade pós-moderna, movimentando a “roda central” do capitalismo – o tão sonhado crescimento econômico. A dúvida e o desconhecido alimentam mentes inquietas na busca de superação constante e quebra de paradigmas. Segundo Harari, o crescimento descolado da ética, da moral, da psicologia, dos ecossistemas, desprezando que outras espécies partilham o mesmo material genético e as mesmas necessidades subjetivas que nós, pode ter efeitos catastróficos.

A unificação de toda a humanidade em um globo sem barreiras ou fronteiras é a tendência, consequência das ondas imperialistas, do dinheiro e da religião (inclui-se nesta categoria as ideologias como o capitalismo e o consumismo) e começou há 2.500 anos. Hoje, nossa união se fortalece na crença pela pesquisa científica: solução de todas as mazelas, quiçá o aquecimento global. E, na era das ciências biológicas, apoiados pelos avanços da biotecnologia e da medicina que prometem a cura de doenças degenerativas (alzheimer, parkinson, esclerose lateral amiotrófica) e do câncer, além da possibilidade de reverter os efeitos de acidentes paralisantes pelo uso de interfaces cérebro-máquina, poderemos finalmente transformar o homem mortal e imperfeito em deus: eterno e onisciente.

O que está por vir é incerto. O descompasso entre genótipo e ambiente gera medo, ansiedade e insegurança. Harari nos mostra um futuro sombrio: com uma psique fragilizada podemos ser monstros… pobres infelizes.

Para quem gostar da leitura, sugiro também:
O poder do mito, de Joseph Campbell
Hybrid: the history and science of plant breeding, de Noel Kingsbury
Antifrágil: coisas que se beneficiam com o caos, de Nassim Nicholas Taleb

Camila P. Cunha é engenheira agrônoma (Esalq/Usp) e doutora em genética e biologia vegetal (Unicamp). Atualmente é pós-doutoranda no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

[1] O exemplar usado para a resenha é a 27ª edição (outubro de 2017). A primeira edição no Brasil é de fevereiro de 2015, com tradução de Janaína Marcoantonio, do original em inglês (Sapiens – a brief history of humankind, 2015).

  • Imagem: Camila P. Cunha