De Red Son a Stranger Things, a disputa entre capitalismo e socialismo segue viva, atualizando estereótipos e alimentando novas gerações com velhas narrativas
Por Bárbara Marques
Não é de hoje que as tensões entre Estados Unidos e União Soviética, características da Guerra Fria, pautam diferentes produções artísticas e as transformam em propaganda política. Se hoje a geração Z e os millennials consomem Stranger Things na Netflix, quem veio antes das plataformas de streaming e do universo cinematográfico da Marvel tinha contato com esse tipo de propaganda política por outros meios.
A viagem no tempo para mergulhar neste universo nem é tão longa. Em 2003, o escritor e roteirista Mark Millar publicou a história em quadrinhos (HQ) Superman – Red Son, traduzido para Superman: entre a foice e o martelo, no Brasil. A premissa é uma realidade alternativa onde a cápsula do bebê Kal-El cai na Ucrânia soviética, bem longe do Kansas onde começa a história clássica do Superman.
No mundo distópico, Clark Kent vira símbolo da supremacia da União Soviética, criado para defender os ideais de Josef Stalin. A paz mundial é imposta via controle absoluto, com um monitoramento constante de cada cidadão e eliminação de ameaças. A semelhança com o livro 1984, escrito por George Orwell não é coincidência.
Assim como no mundo invertido de Stranger Things, as coisas na narrativa parecem fora do lugar. Lex Luthor, principal vilão das histórias do Superman, assume um papel diferente na obra de Millar. Cabe a ele representar os ideais liberais e democráticos que os Estados Unidos historicamente reivindicam, e é ele que sai vencedor do embate final. Apesar da vitória de Luthor no universo alternativo, devemos nos perguntar: ele é o protagonista do ponto de vista moral?
Para o pesquisador Bruno Alves do Nascimento, mestre em história pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal da Grande Dourados (FCH-UFGD), a resposta não é tão simples. “Não há dicotomias evidentes na obra, como ‘heróis e vilões’, ‘bons e maus’, ‘certos e errados’. Essas linhas são tênues e todos cometem erros e acertos no decorrer da narrativa, o que enriquece a obra”, diz.
Mas, por outro lado, as visões também não são equilibradas. O pesquisador aponta que, mesmo com Millar se autoidentificado como um ator alinhado à esquerda política, a sátira aos EUA é muito mais sutil nos quadrinhos que aquela direcionada aos soviéticos.
“Essa visão distópica aprofunda elementos que são facilmente vinculados ao Estado soviético, principalmente ao período stalinista, o que gera a interpretação por parte de alguns leitores de que a crítica é direcionada, exclusivamente, ao comunismo”, explica.
Rússia: inimiga nº 1
Nascimento, em sua dissertação de mestrado, trata justamente sobre a Guerra Fria na HQ do Superman soviético. Apesar de ter constatado as diversas nuances da narrativa, ele afirma que um leitor desatento pode interpretar os EUA e o capitalismo – representado por Lex Luthor na HQ – como heróis da resistência diante do comunismo opressor imposto pelo Superman soviético.
Isso porque, mesmo com suas convicções pessoais, Miller criou uma obra que contribui para reproduzir um ideal muito difundido pela indústria cultural estadunidense: o dos “russos malvados”.
O ideal anticomunista e anti-russo, gestado ao longo da Guerra Fria nos Estados Unidos, é duradouro. A quarta temporada de Stranger Things, por exemplo, conta com um núcleo que se passa em uma penitenciária na União Soviética, onde os presos políticos são postos em uma arena para lutar – e, no fim, alimentar – os monstros do mundo invertido. Trata-se de um descolamento do universo de Dungeons & Dragons para a Guerra Fria, realimentando o imaginário político propagado pelos Estados Unidos desde meados da década de 1950.
Das telas para o papel, essa é uma ideia que já existia em Red Son. “Os considerados ‘inimigos’ da URSS são presos pela KGB, lobotomizados e transformados em serviçais sem individualidade, postos em trabalhos braçais, como seguranças ou faxineiros”, conta Nascimento.
Nesse contexto dos “russos malvados”, as ações estadunidenses são vistas sob a ótica da reação – defensivas e justificadas em nome do combate a um mal maior. “Sua culpa, quando existe, é mínima, comparada aos crimes soviéticos. Penso que os quadrinhos não conseguem fugir dessa percepção, mesmo que a história evidencie o contrário”, explica Nascimento.
Duas décadas mais tarde, o caminho que a maior produção da Netflix trilha é, se não o mesmo, bastante similar. Não é à toa que Nascimento considera que a narrativa de Red Son e a disputa sobre ela ainda vivem. Vivas, elas ecoam ao longo do tempo e espaço, e chegam às escolas.
Entre a foice e o martelo: as salas de aula
Em sala de aula, a HQ ajuda os estudantes a questionarem as narrativas hegemônicas sobre o capitalismo e o socialismo durante a Guerra Fria. É o que argumenta o professor de geografia Zidelmar Alves Santos. “O famoso ‘e se’ acaba entrando na mente do leitor/estudante, que acaba descobrindo essa outra possibilidade: a vitória do socialismo como real dentro do plano ficcional estabelecido pelo escritor”, diz Zidelmar.
Santos também analisou a HQ do Superman Soviético em uma monografia defendida na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Ele aponta que o fato de a história não ter sido escrita por um autor que viveu sob o regime comunista reflete muito na história. “Ainda que a visão de mundo representada na HQ seja alternativa, diferente do que se estabeleceu no mundo real, ela está contaminada pelo olhar eurocêntrico dos autores, especialmente a de Mark Millar”, diz o professor.
Esse olhar eurocêntrico é o que orienta a percepção de que os fins justificam os meios na corrida armamentista, tecnológica e espacial, por exemplo, e é um ponto de partida para os questionamentos dos estudantes. “No mundo real, a consolidação dos EUA enquanto potência militar vem muito do terrorismo praticado com as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. A defesa do capitalismo hoje é tão diferente do cenário estabelecido no mundo bipolar?”, questiona Santos.
A propaganda foi um elemento central no contexto da Guerra Fria, e as HQs foram um dos principais veículos de disseminação do anticomunismo. Mas será que a intenção dos norte-americanos era apenas combater o comunismo? Para Santos, não.
Ele considera a escolha do Chile como o único aliado dos EUA na HQ emblemática, já que faz referência ao apoio dos estadunidenses ao golpe militar do general Augusto Pinochet contra o governo democraticamente eleito de Salvador Allende.
“Ao trazer essa questão para a sala de aula, os estudantes podem refletir e confrontar esses valores ‘democráticos’ dos EUA, estabelecendo, inclusive, conexões com os problemas diplomáticos do mundo atual”, explica Santos. Isso também inclui pensar essas relações na América Latina.
Cultura em disputa: o caso latino-americano
Se a HQ do Superman Soviético se passa em um contexto ficcional alternativo da Guerra Fria, é necessário dizer que neste período os quadrinhos também foram utilizados para promover projetos políticos concretos na América Latina. No Chile da década de 1970, os quadrinhos foram usados para promover a via chilena para o socialismo, com o objetivo de forjar uma outra cultura onde o debate político e ideológico se desenvolvia com uma relativa liberdade no país.
A empreitada foi interrompida violentamente com o golpe de Pinochet, mas deixou para trás mais do que o “e se?” do que poderia ter sido – deixou também o que de fato foi. “Os quadrinhos continuam sendo um espaço muito importante para discutir temas como desigualdades, autoritarismos, memórias e temas sensíveis”, afirma Ivan Lima Gomes, professor de história moderna e contemporânea.
Gomes pesquisa quadrinhos a partir de uma perspectiva histórica, nos campos da cultura visual e da história dos impressos, com foco na América Latina. Ele explica que a porção sul do continente é uma região atravessada pelas ditaduras, autoritarismos, violências e repressão a movimentos sociais.
Longe dos russos “vilões” e bem mais próximos da democracia norte-americana, a maldade existe em episódios como o massacre de Tlatelolco no México em 1968, o Cordobazo na Argentina e a repressão dos povos originários no Chile. “Os quadrinhos ainda são um espaço para a produção de contradiscursos que muitas vezes não encontram espaço em instituições ou meios formais bem estabelecidos”, diz Gomes.
imagem: Superman – Red Son, de Mark Millar